Filme do Dia: Baronesa (2017), Juliana Antunes

 


Baronesa (Brasil, 2017). Direção e Rot. Original Juliana Antunes. Fotografia Fernanda de Sena. Montagem Rita M. Pestana & Affonso Uchoa. Com Andreia Pereira de Sousa, Leid Ferreira, Felipe Rangel Soares.

Sem dúvida menos autocomplacente e masturbatório que algumas referências do cinema de fluxo brasileiro tais como Estrada para Ythaca, também se centra na esfera do cotidiano de um grupo de amigos. Mas o faz a partir de um recorte cotidiano voltado para os afetos e outras pulsões ainda não completamente canibalizadas pelo inabalável senso de comodificação capitalista. E, de forma mais interessante, entremeia documentário e ficcionalização a partir de figuras concretas, como Andreia e Leid- do rapaz se poderia reivindicar maior ficcionalização porque nunca vem a ser chamado pelo nome, apenas Negão. Lógico que se trata de personagens de outro estrato social, e que se pretende aqui apostar numa estética do cotidiano que não nega a violência e as drogas permeando as relações sociais na comunidade, mas não se esgota nelas ou as espetaculariza. Pelo menos não até próximo do final, quando o canto do rap na voz de Andreia e Leid é interrompido por um tiroteio e uma corrida, a também desestabilizar a imagem que as filmavam. Se foi encenação ou realidade não se pode bater o martelo sem recorrer a informações para além do longa em si. É uma espécie de apito para cachorro, em termos de apontar, como o técnico de som para Haskell Wexler, em Dias de Fogo, a gritar, “Veja Haskell, isto é real”. Embora tenha sido um áudio implantado na imagem na pós-produção. Quando se ouve as balas e a câmera é tirada do tripé, denuncia-se a presença, nunca antes percebida pelos atuantes, de um mecanismo de filmagem, através de uma intrusão brutal de uma camada do real mais imediata que a retratada. Porém, como no filme de Wexler, pode ter sido forjada para justamente provocar esta reação.  E o rap que cantavam era justamente sobre as desigualdades do mundo. De toda forma, e infelizmente, o filme parece perder muito de seu brilho episódico inicial, quanto mais vai sendo tragado por certos lugares-comuns das situações de exploração ou violência, comentadas ou vivenciadas pelas personagens. E quanto menos a interação corporal ganha destaque em relação às falas, muitas vezes praticamente monológicas. Embora as duas personagens principais dividam o mesmo ambiente e sua falta de expectativas, inclusive algumas vezes até alguns momentos – como o que Leid escreve uma carta carinhosa ditada por Andreia – vemos a última construindo sua casa ao final, em outro bairro, o que dá nome ao filme, além de fazer serviços ocasionais como manicure. Já Leid inicia e finda se deslocando, no máximo, pelo bairro onde mora. Que Antunes tenha dirigido primeiro um longa, seguido anos depois por dois curtas talvez aponte menos para uma inversão do percurso habitual na carreira de uma realizadora, que da dificuldade de conseguir financiamento e/ou dificuldades operacionais de produção. |Filmes de Plástico/Ventura para Filmes de Plástico. 68 minutos.



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