Filme do Dia: Flor do Mal (1946), Edgar G. Ulmer
Flor
do Mal (The Strange Woman, EUA, 1946). Direção Edgar G. Ulmer. Rot.
Adaptado Herb Meadow, a partir do romance de Ben Ames Williams. Fotografia
Lucien N. Andriot. Música Carmen Dragon. Montagem John M. Foley & Richard
G. Wray. Dir. de arte Nicolai Remisoff. Figurinos Natalie Visart. Maquiagem
Joseph Stinton. Com Hedy Lamarr, George Sanders, Louis Hayward, Gene Lockhart,
Hillary Brooke, Rhys Williams, June Storey, Moroni Olsen, Katheleen Lockhart.
Anos 1830. Após ser abandonada pelo pai, que a viu
flertando com um marinheiro, Jenny (Lamarr), envolve-se com Isaiah (Lockhart),
o homem mais rico e influente da região. Eles testemunham as confusões na
cidade que levam a morte do juiz local. Elas se dão ao mesmo tempo que o filho
de Isaiah, Ephraim (Hayward), chega da universidade e se envolve com Jenny, por
quem havia sido apaixonado quando criança. Quando o pai sugere uma viagem pelo rio,
em balsas improvisadas, para um acampamento madeireiro de sua propriedade, a
inquietação de Ephraim faz com que o barco vire, e o pai morra afogado. Quando
Ephraim retorna a encontrar Jenny, esta lhe grita que não mais o quer ver, pois
matara o pai. O rapaz envereda pelo álcool, enquanto o feitor da propriedade
John Evered (Sanders), torna-se o motivo do desejo de Jenny, que pretende
continuar mantendo os negócios do marido, sob o comando de John. John então se
encontra noivo de Meg Saladine (Brooke). Ephraim lhe conta sobre a influência
nefasta de Jinny em relação à morte de seu pai, mas John não lhe dá ouvidos e
acaba por romper com Meg e se casar com Jinny.
Um fósforo riscado em meio a escuridão serve como
metáfora da chama de desejo que perpassa o personagem do espanhol em relação a
Gino no Obsessão, de Visconti, de quatro anos antes. Além de
evidentemente nos trazer (e ao personagem) o objeto de seu desejo, e com quem
dormirá na mesma cama. Aqui o movimento inverso, do apagar das luzes, para que
se acenda uma vela, a iluminar o desejo que perpassa a estonteante e sensual
Jenny de Lamarr e o jovem Ephraim de Hayward, que o guia até seu quarto, não
sem antes parar em meio a escada – este local inescapavelmente marcado pelo
fetiche dramático de qual ordem seja, do deslumbramento, do desejo ou da morte,
um livro encorpado poderia ser escrito sobre o tema e vinculado ao período
clássico hollywoodiano. Há um tratamento visual e sonoro bastante acadêmico no
modo como a câmera recua em travelling para mostrar o ambiente onde fica
posta a mesa, literal e metafórica, da triangulação entre Jenny, Ephraim e o
pai deste, e logo este observa o risco hormonal de se tornar uma figura
decorativa com a permanência do filho sobre o mesmo teto; ao mesmo tempo a
trilha sonora traz a complementação para que se crie atmosferas, da tensão
sexual da cena citada ou do enlevo mais contido a luz do dia e à margem das
águas. Águas estas que não se furtarão em deixar seus reflexos sobre os
figurinos de época de madrasta e enteado, ainda que por mimetização técnica de
algum efeito. E o que o pai não sabe é já existir um envolvimento amoroso
prévio da mulher com o qual casou e seu filho. Os envolvimentos do tipo se
tornaram bem mais presentes na filmografia do pós-guerra, demonstrando ecos de
um freudismo, até em filmes históricos como esse, mas também em O Segredo da Casa Vermelha ou Alma em Suplício, embora já fosse bem mais presente
no melodrama latino – seria coincidência o título brasileiro ser evocativo de
um clássico mexicano, Flor Silvestre? E mesmo em Hollywood, mais
ocasionalmente, como é o caso de Meu Filho é Meu Rival. E no caso da
morte do pai de Ephraim, há ecos não muito distante do tópico central da Tragédia
Americana, de Dreiser. O afogamento não socorrido após uma sugestão
de morte não natural – agregando o fato do amante da esposa, motivo de Pacto de Sangue, ser o próprio filho; ele ter ficado em pé e provocado o
desastre. Pena que o afogamento esteja vinculado a uma cena inicial da maldade
de Jenny, na sua tentativa de quase afogamento de Ephraim quando criança,
trauma que o levará a toda tensão a culminar com a morte de seu pai. E o código
para a sedução está no toque das mãos. O primeiro, realizado na mesa com
Ephraim e diante do pai. Depois, com o feitor de Sanders, figura a se tornar
seu interesse, sendo detalhe o fato de ser casado, após o marido morto, e
observando o filho como demasiado fraco para ocupar o lugar do falecido. E de
quem não possui menor cerimônia de se aproximar, mesmo com a esposa dele
próxima. No caso do fogo, novamente na sedução seguinte, é após se observar o
cachimbo de John ser aceso, notório símbolo fálico, que John se rende aos
encantos de Jenny. Tendo providencialmente um raio trazido fogo a uma árvore próxima – Buñuel relerá todas
estas artinhas melodramáticas com o habitual sarcasmo em seu Susana,
aproximando-se bastante de uma releitura deste ao incluir o envolvimento com o
pai, o filho e o feitor. Ao contrário do filme de Buñuel, que transforma seu
final em um happy end que aponta para a vitória da hipocrisia da dupla
moral burguesa de modo caricato, parece haver aqui um enroscamento da trama em
uma teia de hipocrisias – tornada mais explícita no momento da acusação feita
por Jenny de hipocrisia em relação ao marido, culminando em sua morte trágica,
típica de uma vilã, sem deixar de apontar uma suposta redenção da personagem
sob o amor de John – embora poucos minutos antes tentasse jogar a carruagem
contra ele e sua ex-noiva; desnecessário se faz enfatizar o mais que provável
reenlace do casal. O fato de Jenny se descobrir estéril é uma típica associação
à época de uma figura maligna de mulher, portanto incapaz do dom de trazer ao
mundo crianças. Sem falar, nas igualmente possíveis e subentendidas vinculações
com seu passado sexual bastante ativo.
Parece ser um dos poucos papéis nos quais Sanders não o tinge de seu
espirituoso cinismo ou esta característica teria advindo sobretudo após o
crítico ferino de A Malvada? Embora seja o ator masculino primeiro
creditado, surge quase cinquenta minutos após o início. Douglas Sirk, embora
não creditado, o co-dirigiu. Em domínio público, como quase todos os filmes
dirigidos por Ulmer. |Hunt Stromberg
Prod./Mars Film Corps. para United Artists. 99 minutos.![]()

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