Filme do Dia: Corações Jovens (2024), Anthony Schatterman

 


Corações Jovens (Young Hearts, Bélgica/Holanda, 2024). Direção e Rot. Original Anthony Schatteman. Fotografia Pieter Van Campe. Música Ruben De Gheselle. Montagem Emiel Nuninga. Dir. de arte Kato Bulteel. Figurinos Gudrun Wylleman. Maquiagem e Cabelos Jacqueline. Com Lou Goossens, Marius De Saeger, Geert Van Rampelberg, Emilie De Roo, Dirk van Dijck, Jul Goossens, Ezra Van Dongen, Olivier Englebert, Saar Rogiers.

Na província, o garoto Elias (Goossens) passa a se sentir atraído por um colega de classe recém-chegado de Bruxelas, Alexander (De Saeger). Elias, no entanto, encontra-se dividido, pois sua família e colegas sabem de seu envolvimento com uma colega da mesma classe, Valerie (Rogiers).

Qual a medida dos termos para uma história de amor? Há já um pequeno repositório de filmes sobre amores infanto-juvenis do mesmo sexo entre meninos. Uma abordagem delicada não apenas nos tempos crescentemente reacionários de quando veio a baila esta produção, mas em todo e qualquer período. Há como trabalhar graficamente um amor entre menores? E como lidar eticamente com atores de tão tenra idade? O que aliás valeria para qualquer história de amor nessa faixa etária. Neste aspecto, Shatteman consegue ser mais direto e afirmativo que seu conterrâneo e quase contemporâneo, lançado apenas dois anos antes, Close. O amor aqui diz o seu nome, e até vários beijos são trocados. Porém, o afirmativo descamba paralelamente para o novelesco mais banal. Como se o amor de ambos os garotos fosse capaz de dobrar a tudo e todos – não é à toa que os garotos que praticavam bullying não mais surgem ao final. Avó, mãe, pai, irmão se rendem, assim como todos os amigos próximos de escola sem exceção. Mais parece um conto de fadas. E há um diálogo que expressa o paradoxo entre realidade e desejo ao ponto de suscitar um nada improvável riso. O avô afirma ao neto que se o amor sentido de Elias por Alexander for forjado pelo mesmo material que erigiu o amor deste pela falecida avó, ele devia insistir. Trata-se da primeira atração consciente do garoto por alguém do mesmo sexo. É muita fé numa maturidade emocional precoce em relação aos sentidos e ao desejo. Fé ou escamoteamento de qualquer obstáculo efetivo. Nesse sentido, as tensões são muito frágeis e todas as cenas esperadas em um drama do tipo não deixam de se encontrar presentes. Caso da revelação dele à mãe, para o qual é guardado o clímax dramático de todo o filme. Ao pai é reservado uma superficialidade grotesca do obtuso, autocentrado e cego para tudo o mais que não seja o seu inesperado sucesso como cantor. Porém, pior que isso, não parece, como a maior parte dos demais – e sem criticar de modo algum o elenco – soar como a encarnação dos limites de um personagem pensado em um roteiro para auxiliar no drama do pequeno. A mãe é a figura sensível, reproduzindo uma lógica social predominante – quando em Tomboy é o oposto que se dá. O final parece de um happy end tão convencionalmente forçoso quanto o da Hollywood clássica. Mas isso é, em última instância, efeito colateral de uma ausência de densidade -o que Close vai em sentido oposto, buscando de forma mais realista o marcante como a perda, o trauma – que, guardadas as proporções, teria um caráter tão anódino e limitado ao efeito narcísico do personagem quanto Me Chame Pelo Seu Nome, e que a trilha sonora repercutiria enfaticamente;  vivido bravamente pelo garoto de olhos expressivos e uma tristeza mal dissimulada, mas rapidamente transformada em sorriso e energia vital. Poderia se argumentar que a frontalidade narcísica também é inescapável nestes dramas outros. Porém há uma camada maior de densidade que os faz entrever vislumbres humanos menos escamoteados pelo fácil oportunismo novelesco, e sua inevitável manipulação emocional rasteira. |Family Affair Films/Kwassa Films para Polar Bear/Films Boutique. 99 minutos.

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