Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#167: Deus e o Diabo na Terra do Sol
DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (Brasil, 1964). Traduzido literalmente como "God and the Devil in the Land of the Sun", título muito mais apropriadamente ambíguo que o pelo qual ficou conhecido no universo de língua inglesa, Black God, White Devil. O segundo longa de Gláuber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol granjeou uma reputação ao longo dos anos como uma das maiores obras vanguardistas do cinema narrativo mundial, e é certamente um dos filmes brasileiros mais conhecidos de todos os tempos. É uma obra verdadeiramente original de ficção, combinando mitos sincréticos nordestinos, literatura de cordel e música brasileira tanto clássica (Heitor Villa-Lobos) quanto folclórica, com abordagens narrativas e estilísticas contrastantes, obra-chave da primeira fase do Cinema Novo brasileiro.
Deus e o Diabo na Terra do Sol inicia com o movimento de uma câmera alta sobre a terra ressequida do sertão. Após os créditos, que acompanham esta imagem, os crânios apodrecidos do gado são vistos em plano aproximado, seguidos do confuso rosto do vaqueiro sertanejo Manuel (Geraldo Del Rey). Ele se encaminha para casa em seu burro, atravessando um grupo de beatos, liderados pelo místico negro Sebastião (Lídio Silva). Uma cena em estilo documental da vida cotidiana se segue, na qual Manuel e sua esposa Rosa (Yoná Magalhães) moem milho. Manuel viaja à cidade para ser pago, mas seu patrão lhe diz que o gado morto é seu pagamento, e Manuel o mata em uma luta. Os homens do latifúndio matam sua mãe como vingança, inspirando Manuel a se tornar um dos discípulos de Sebastião, mas após ele e Rosa perigrinarem até o Monte Santo, ela mata o místico após este ter sacrificado uma criança, e há uma escalada de carnificina quando Antonio das Mortes (Maurício do Valle), o "matador de cangaçeiros", chega ao local. Miraculosamente, ele poupa Manuel e Rosa após chacinar todos os beatos, e o casal empreende outra jornada para se tornarem discípulos de Corisco (Othon Bastos), um cangaceiro que assumiu a identidade do lendário Lampião. Ao final do filme, após o aparentemente invencível Antônio das Mortes atirar em Corisco/Lampião, girando até a morte como um pião, Manuel e Rosa escapam outra vez. Com Manuel correndo pelo sertão, a câmera o observando do alto, como na abertura. De forma mágica, o sertão se transforma em mar, concretizando a profecia de Sebastião (e de Corisco).
Talvez a mais surpreendente característica do filme seja sua incansável natureza contraditória. Estilisticamente, oscila entre os polos do realismo e do expressionismo. A exposição quase documental da vida de Manuel é contrabalançada por movimentos giratórios de câmera e cortes rápidos durante a morte do proprietário de terras e suas consequencias, coreografado para o dramático movimento dança das "Bachianas n. 2" de Villa-Lobos. O uso da câmera na mão geralmente denota cinema verdade, e se aproxima do cinejornalismo, mas para Rocha é aparentado com o pincel de um pintor, e seus percursos deliberados proporcionam o sentimento de um velho filme doméstico. Ao nível do conteúdo, quando começamos a compreender a natureza de um personagem, ele muda. O "Deus Negro" do título inglês, Sebastião, é também demoníaco em sua sanha violenta, enquanto o "Demônio Branco", Corisco, ao assumir a identidade das pessoas do cangaço, revela um lado "bom". De fato o título original em português reflete melhor o sentido de que "Deus e o Diabo" trabalham lado a lado na "Terra do Sol". Em parte, a construção polivalente dos personagens pode ser vista como um equivalente do sincretismo da religião brasileira. Por exemplo, Sebastião parece ser uma combinação do beato Sebastião de Pernambuco e do Antônio Conselheiro de Canudos - o mais famoso líder místico brasileiro. Ambos Sebastião e as "duas cabeças" de Corisco/Lampião se relacionam a São Jorge, e ambos se relacionam também de forma próxima com o "dragão". Da mesma forma o jagunço (matador de aluguel) Antônio das Mortes, baseado vagamente no jagunço José Rufino, é em parte São Jorge (em comparação com Sebastião) e em parte dragão quando massacra os beatos. Até mesmo Manuel, quando é rebatizado Satanás por Corisco, demonstra um potencial para maldade ao se unir às atividades de pilhagem e tortura.
Deus e o Diabo na Terra do Sol é um filme paradoxal. As incríveis forças empoderadas de Deus e o Diabo são equilibradas pela (bem sucedida) determinação dos sertanejos comuns, Manuel e Rosa, a sobreviverem. Aqui o papel de Antônio das Mortes é de catalizador e a balada do cego cantador que leva o casal a Corisco são centrais. Ao poupar suas vidas, Antônio das Mortes permite a Manuel e Rosa determinarem os seus próprios futuros, e as últimas palavras da canção transmitem uma abertura para o final transformador das imagens do filme:
E espero que todos tenham tirado uma lição disso:
que um mundo tão profundamente dividido
está seguindo pelo caminho errado
e que a terra pertence ao homem
e não a Deus nem ao Diabo.
Texto: Rist, Peter H. Historical Dictionary of South American Cinema. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 205-7.

Comentários
Postar um comentário