Filme do Dia: Hotaru no Hikari (1938), Yasushi Sasaki

 


Hotaru no Hikari (Japão, 1938). Direção Yasushi Sasaki. Rot. Original Masao Arata & Ryōsuke Saitō. Fotografia Hiroyuki Nagaoka, Hiroshi Nomura & Kiyoshi Terao. Música Tadashi Manjōmi. Dir. de arte Jokishi Shu. Com Michiko Kuwano, Sanae Takasuji, Mieko Takamine, Mitsuko Higashiyama, Daijirō Natsukawa, Tokuji Kobayashi, Hikaru Yamanouchi, Takeshi Sakamoto.

Um grupo de sete garotas próximas se reúne para comemorar o fim do colegial. Quatro delas seguirão com a vida acadêmica. Michiko (Takamine) casará com um homem que é o amor de sua irmã,  tornada gueixa por promessa ao pai, para sustentar a faculdade do irmão. Ela é excluída do grupo quando descoberta a verdadeira atividade de sua irmã. Michiko é abandonada pelo marido, quando este descobre não se tratar de uma família rica, mas endividada. Quando ele retorna para levar consigo o filho, Michiko tenta mata-lo, mas acaba atirando contra sua irmã, que falece. Há também o caso de Sanae (Takasuji), condenada a se casar com o filho prostrado do benfeitor da família, por pressão do pai (Sakamoto), e que passa a se definir como “a vendida”. Ela foge da família buscando apoio da senhorita Kawara (Kuwano), espécie de mentora das garotas.

Os planos vazios de presença humana intercalados por cortes secos poderiam sugerir um estilo que se aproximaria do de Ozu, embora nos filmes deste com função mais específica. Aqui tais planos tampouco estão destituídos da presença sonora, como é o caso dos ambientes vazios da escola, enquanto as garotas entoam o hino, que estranhamente vem a ser a mesma canção (Auld Lang Syne, tradicional e de origem escocesa que lhe dá o título original, em sua versão nipônica) com a qual os americanos se despedem do ano que acabou e aqui funciona como marcador de um ritual de passagem, a graduação. Informação que inclusive consta em suas cartelas, presentes mesmo em se tratando de um filme sonorizado. E se no discurso observamos por vezes as próprias meninas reproduzindo chavões da cultura e moral na qual estão inseridas, sobre o significado de serem mulheres, o filme por outra senda vai construindo uma sensibilidade oposta, pungente, dentre outras, da situação de Sanae, vivida curiosamente por uma atriz homônima, que possui uma amiga que dela se estranha, mas que após a festa de graduação se reaproximam, quando lhe revela, entre lágrimas, o que o destino (ou talvez seu pai) lhe reservou. O sensibilismo juvenil de Sanae bem caberia ao do próprio Japão e Coreia do Sul quase um século após, para não dizer de boa parte do mundo. É claro que não faltará sua morte ao final, com um discurso último ao som da mesma canção – que vem a ser ouvido por nós, como pela garota em seus últimos momentos. Tanto a imagem de baixa resolução, como a preferência por planos mais abertos, quanto a quantidade de envolvidas, dificulta o acompanhamento dos dramas individuais, com parcial exceção do caso em que se detém com mais atenção, que é o de Sanae. Algo que a própria construção do filme, ou o que teria restado dele, tem seu quinhão importante de responsabilidade. O que esta miscelânea entrecruzada de relatos traz é um painel bastante desfavorável à condição feminina no Japão, e recorrente, inclusive na mão de realizadores homens ainda mais talentosos, como Mizoguchi. |Shochiku Ofuna. 75 minutos.

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