O Dicionário Biográfico de Cinema#311: Lauren Bacall

 





Lauren Bacall (Betsy Joan Perske), n. Nova York, 1924 (*)

Seus pais se divorciaram quando ela tinha seis anos e ela foi criada por sua mãe alemã-romena. Foi educada na Julia Highman High School e estudou dança por treze anos. Enquanto esteve na escola, trabalhou como modelo e matava aula para assistir os filmes de Bette Davis. Esteve brevemente na Academia Americana de Artes Dramáticas, e em 1942 estreou na Broadway em January 2 x 4. Esta e sua peça seguinte foram fracassos, e foi somente quando apareceu na capa de Harper's Bazaar, em 1943, que a esposa de Howard Hawks a recomendou a Hawks. Ele a pôs em um contrato de sete anos, talvez mostrando a ela Ann Sheridan em Torrid Zone [Zona Tórrida], e elencou-a para contracenar com Humphrey Bogart em To Have and Have Not [Uma Aventura na Martinica] (44). Sua Slim neste filme (batizada como a Sra. Hawks) foi uma ousada inversão da ingênua tímida, instruindo o mestre a assobiar e observando todos como se tivesse passado a noite escrevendo o roteiro. Com somente 19 anos, roubou o filme, transformando-o de aventura em uma história de amor e cativando Bogart. Os Warners a chamaram de "o olhar" e ela foi um fenômeno publicitário de uma estação. Os Warners trabalharam duro: Confidential Agent [Quando os Destinos Se Cruzam] (45, Herman Shumlin); novamente magnífica em cenas emblemáticas com seu novo marido, Bogart, em The Big Sleep [À Beira do Abismo] (46, Hawks); Dark Passage [Prisioneiro do Passado] (47, Delmer Daves); Key Largo [Paixões em Fúria] (48, John Huston); Young Man with a Horn [Êxito Fugaz] (50, Michael Curtiz]; e Bright Leaf [Cinzas ao Vento] (50, Curtiz]. Hawks vendeu seu interesse por ela aos Warners, e ela esteve constantemente em apuros, sendo suspensa doze vezes por recusar papéis. Mas fez How to Marry a Millionaire [Como Agarrar um Milionário] (53, Jean Negulesco) e Blood Alley [Rota Sangrenta] (55, William Wellman). Por fim comprou sua liberdade e apreciou melhores papéis em The Cobweb [Paixões Sem Freios] de Minnelli, Written on the Wind [Palavras ao Vento] (56), de Sirk e Designing Woman [Teu Nome é Mulher] (57), de Minnelli, sem jamais reacender sua singularidade anterior. De fato, o filme de Sirk deu o papel sério a ela e o chamativo a Dorothy Malone, que foi apenas um atrativo secundário em À Beira do Abismo. Após a morte de Bogart, pareceu desencantada com Hollywood. Em 1961, casou-se com Jason Robards Jr. (divorciaram-se em 1969) e fez Shock Treatment [Condenado por Vingança] (64, Denis Sanders), Sex and the Single Girl [Médica, Bonita e Solteira] (64, Richard Quine) e Harper [O Caçador de Aventuras] (66, Jack Smight). Enquanto isso, em 1959 retornou à Broadway em Goodbye Charlie e conquistou grande sucesso em 1965 com Cactus Flower e, depois, em 1970, com Applause (uma versão musical de All About Eve/A Malvada, na qual obteve o papel de Bette Davis). Murder on the Orient Express [Assassinato no Expresso do Oriente] (74, Sidney Lumet) foi seu primeiro filme em oito anos. 

Talvez ela precisasse de Bogart e Hawks e a combinação notável de juventude e secura que ela apresentava nos dois filmes com eles. Fez uma digna proprietária de terras em The Shootist [O Último Pistoleiro] (76, Don Siegel), sombria e adequada, mas compreendendo as dores do homem heróico. 

Depois disso, sua carreira procedeu sem explanação evidente: na TV em Perfect Gentleman (78, Jackie Cooper), Health [Política do Corpo e Saúde] (79, Robert Altman); como uma estrela da Broadway perseguida por um admirador no destituído de brilho The Fan [O Fã: Obsessão Cega] (81, Edward Bianchi); atuando em Sweet Bird of Youth nos palcos londrinos - dirigida por Harold Pinter; Appointment with Death [Encontro Marcado com a Morte] (88, Michael Winner); Mr. North [O Elétrico Mr. North] (88, Danny Huston); numa versão do papel de Marie Dressler em Dinner at Eight [Jantar às Oito] (90, Ron Lagomarsino); como agente de James Caan em Misery [Louca Obsessão] (90. Rob Reiner); All I Want for Christmas [Um Pedido de Natal] (91, Robert Lieberman); e The Portrait [O Retrato] (93, Arthur Penn).

O aspecto mais triste de sua longevidade é sua arrogância, sua grandeza um tanto vazia - é justamente o tipo de pompa que sua Slim teria desmontado. Esteve em A Foreign Field (93, Charles Sturridge); The Parallax Garden (93, David Trainer); Pret-a-Porter (94, Robert Altman); From the Mixed-Up Files of Mrs. Basilfrankweiler (95, Marian Cole). Conseguiu um filme real e um papel de mãe em The Mirror Has Two Faces [O Espelho Tem Duas Faces] (96, Barbra Streisand). Não esteve bem nele, mas foi indicada, e provou que não poderia atuar no momento quando tenta pretender que não se importava em perder. Le Jour et la Nuit (97, Bernard Henry-Levy); a velha senhora em Too Rich: The Secret Life of Doris Duke [A Vida Secreta de Doris Duke] (99, John Ernan); Diamonds [Em Busca dos Diamantes] (99, John Mallory Asher); The Venice Project (99, Robert Dornheim); Presence of Mind [A Outra Volta do Parafuso] (99, Antonio Alloy).

Suficiente? Não. O que dizer de Ma Ginger em Dogville (03, Lars Von Trier)? Sua severa matriarca em Birth [Reencarnação] (04, Jonathan Glazer); uma voz em O Castelo Animado (04, Hayao Miyazaki); Manderlay (05, Von Trier); The Walker [O Acompanhante] (07, Paul Schrader)?

E agora, suficiente? Em 2009, ao menos, ela ganhou um Oscar honorário, e lhe deram em um domingo de novembro. Que falta de classe! Desde então ela fez Wide Blue Yonder (10, Robert Young) e The Forger [O Falsificador] (12, Lawrence Roeck).

Texto: Thomson, David. The New Biographical Dictionary of Film. N. York: Alfred A. Knopf, 2014, pp. 138-40.


(*) N.do E: a atriz faleceu em 2014.


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