Filme do Dia: A Última Missão (1973), Hal Ashby

 


A Última Missão (The Last Detail, EUA, 1973). Direção: Hal Ashby. Rot. Adaptado: Robert Towne, a partir de um romance de Darryl Ponicson. Fotografia: Michael Chapman. Música: Johnny Mandel. Montagem: Robert C. Jones & Ken Zemke. Dir. de arte: Michael D. Haller. Figurinos: Theodore R. Parvin. Com: Jack Nicholson, Randy Quaid, Otis Young, Clifton James, Carol Kane, Michael Moriarty, Luanna Anders, Kathleen Miller, Nancy Allen.

Os marinheiros Buddusky (Nicholson) e Mulhall (Young), baseados em Norfolk,  são encarregados de levar um jovem, Meadows (Quaid), para a prisão em Portsmouth, por ter roubado quarenta dólares de uma ação caritativa, recebendo a pena de oito anos de prisão. Buddusky tenta transformar a viagem em algo menos intolerável para o sensível garoto, até então virgem, que se emociona com facilidade. Levam-no até a casa de sua mãe, que não se encontra em casa, embora os vestígios de seu alcoolismo sim. Em Nova York, vão a um bar e Donna (Anders) se interessa pelo garoto. Os três são convidados para uma festa, mas a diversidade de diálogos os afasta da possibilidade de terem sequer sexo. Buddusky o leva então a um bordel, onde uma jovem prostituta (Kane), é escolhida por ele e o orienta em sua primeira noite. No último momento juntos até de chegarem à prisão, Meadows tenta fugir e é prontamente detido poe Buddusky, que o fere no rosto. A entrega é feita. E os dois são admoestados por terem ferido Meadows por um superior (Moriarty).

Mesmo sendo provavelmente o melhor filme de Ashby (que como Hitchcock, resolve fazer uma ponta enquanto em um clube noturno),  não escapa do paternalismo sentimental que rege, de forma bem mais codificada que a anárquica jornada pessoal de três observada por Cassavetes em Os Maridos (1970). Aqui os laços de amizade que surgem rapidamente de uma missão que era para ser de pura impessoalidade profissional mesmo não soando inverossímeis, sobretudo no momento em que o filme se situa, e mesmo traçando uma errância típica da época da New Hollywood, não deixam de trair o humanismo libertário associado à contracultura que se associou o nome de Ashby, mesmo que domesticado para consumo amplo, ao contrário de Cassavetes ou outros realizadores seminais do período, como Barbara Loden (Wanda) ou, mesmo quando em flerte com um público mais amplo, como  Bob Rafelson (Cada Um Vive Como Quer, com o mesmo Nicholson), lidando de forma mais sofisticada com personagens e situações e distanciando-se do populismo que parece se encontrar em suspensão apenas. Nicholson, por essa época, parece já ter se viciado em uma série de histrionismos com sua face, numa demonstração irônica de superioridade, que se tornarão sua marca registrada – que talvez tenha batido o martelo justamente nessa produção. Ele mais parece o Pernalonga que alguém de carne e osso. Se as cenas de uma decadência urbana nova-iorquina lhe fizerem lembrar, sem a demasiada ostentação, o que virá uns poucos anos após com Taxi Driver, você não se equivocou, já que se trata do mesmo diretor de fotografia do filme de Scorsese, aqui em sua primeira missão, e também surgindo em uma ponta, com pequena fala, justamente como motorista de táxi! Em pouco tempo não se tem como não perceber que quem vivencia Meadows vive um tipo apatetado muito similar, porém de participação bem mais restrita, em A Última Sessão de Cinema. Felizmente o filme resiste a qualquer medida dramática maior que envolva morte, abraços ou choro ao final.  Bright-Persky Associates/Acrobat Productions para Columbia Pictures. 104 minutos.

 

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