Filme do Dia: E Buda Desabou de Vergonha (2007), Hana Makhmalbaf
E Buda Desabou de Vergonha (Buda as Sharm Foru Rikht, Irã/França,
2007). Direção: Hana Makhmalbaf. Rot. Original: Marzieh Makhmalbaf. Fotografia:
Ostad Ali. Música: Tolibhon Shakhidi. Montagem: Mataneh Mohajer. Dir. de arte:
Abkhar Meshkini. Com: Nikbakht Noruz, Abbas Alijome, Abdolali Hoseinali.
Bakhtai (Noruz) é
uma garota de cinco anos que a mãe deixa cuidando do filho ainda bebê. Ela
reclama do barulho que um vizinho, Abbas (Alijome) faz estudando e esse a
provoca, dizendo que ela não sabe ler. Bakhtai abandona a criança e tenta a
muito custo comprar um caderno para ir a escola. Quando finalmente o consegue,
sofre o enfrentamento de crianças talibãs que arrancam folhas de seu caderno e
brincam de matá-la. Ao conseguir chegar com Abbas, também vítima de achaques, a
escola, é expulsa pelo mestre que afirma ser uma escola somente para meninos e
lhe alerta sobre onde fica a escola para meninas. Quando lá chega e entra
aleatoriamente em sala, pinta, por indicação de uma amiga, o rosto de todas as
garotas com o batom da mãe que havia levado de casa para utilizar como lápis.
Ao retornarem da escola voltam a encontram com o grupo de crianças talibãs.
Essa produção um
tanto temporã em relação ao que fora produzido de mais interessante em sua
própria cinematografia, talvez busque algo sofrivelmente unir elementos
preponderantes em dois momentos diversos do cinema iraniano, aquele mais
poético e voltado para o universo infantil e o que mais explicitamente remete à
situação política, enfrentando mais diretamente temas como a opressão feminina.
Porém nem de longe o filme consegue despertar o que havia de mais pungente a
partir de um retrato mais localizado como fora o caso de sua irmã Samira com A Maçã (1998) que, de sobra, como
outras obras seminais do país, ainda refletiam sobre o próprio estatuto das
relações entre ficção e documentário. Tudo soa
menos fluido e mais superficial, o que pode ser creditado a juventude da
realizadora, com não mais que dezenove anos quando da produção do filme – ainda
que Samira tivesse ainda menos quando realizou A Maçã - mas igualmente ao fato de resolver explorar a realidade de
um outro país, o Afeganistão, a partir da imagem do desmoronamento das estátuas
gigantescas de Buda que o Talibã transformou em pó e que são as primeiras
entrevistas no filme e observadas novamente ao final. É um frágil ou demasiado
explícito mote para um “filme de tese”, cuja tese teoricamente seria elaborada
por sua singela história envolvendo o universo infantil, retratado de forma excessivamente
paternalista para soar crível ou ao menos envolvente; a tese, por sua vez, da
ignorância do fanatismo reproduzida nos corpos e mentes infantis é por demais
redundante e esquemática para traçar algo que já não se imagine plenamente, e
haja uma sucessão de cenas que podem ser antecipadas pelo espectador, dos ovos
quebrados que ajudariam a comprar o caderno que permitiria seu ingresso à
escola, tema minimalista explorado ad
nauseum pelo cinema iraniano dos anos 80 e 90, ao caderno vilipendiado e
representando simbolicamente a própria garota. Para complicar ainda mais, se
algum crédito ainda pode se dar a uma personagem tão sensível em ambiente tão
sofrido, já que não existe uma correlação direta entre estes dois elementos,
fica menos verossímil a gana com que surge a motivação da garota a querer ir a
escola “aprender histórias divertidas” a partir da mera provocação de seu
vizinho e se a realizadora consegue eventualmente extrair algo dos planos
bastante aproximados do rosto de seus infantes, seu senso de construção rítmica
a partir da difícil opção da compressão espaço-temporal não é construído sem
grandes arranhões e a utilização da trilha musical tampouco é inspiradora.
Existe uma versão cinco minutos mais longa. Makhmalbaf Film House/Wild Bunch.
76 minutos.

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