Filme do Dia: Mammy Water (1953), Jean Rouch

 


Mammy Water (França, 1953). Direção, Rot. Original e Fotografia Jean Rouch. Montagem Philippe Luzuy.

É assombrosa a elegância com a qual Rouch se depara com sua comunidade pesqueira na costa de Gana, em seu primeiro filme lá realizado. Ainda não havia se aprofundado de forma mais intensa nas complexas teias da representação deste “outro” antropológico. As imagens, no entanto, soam mais eloquentes que no caso de seus filmes já mais conscientes do etnocentrismo. Aqui este parece mais restrito a ser apontado apenas enquanto as construções imponentes dos fortes deixados pelos portugueses – facilitando inclusive a produção com capital francês. A despeito de todas estas racionalizações, e como os aparentemente frágeis barcos a se esbaterem contra as impressionantes ondas, persiste a intensidade do registrado. A beleza da fotografia (a evocar que Vittorio De Seta fará também a cores, e pouco depois, mas partindo de um princípio outro, sem intervenção da voz over); e em nenhum momento mais próximo deste que na descrição de um festival de uma grande dignidade, de intensa carga simbólica. Os rituais fúnebres de uma membra querida da comunidade. Seu rosto prontamente maquiado de branco. Os sacerdotes católicos a comandarem o rito último, após uma sessão de rezas e choros aos quais ainda não estão presentes, e onde se segue práticas aparentemente de raiz mais nativa, que a de uma carroça com ares de lembrar em sua grafia uma carruagem a carregarem um caixão com a falecida e ladeado por homens da igreja e pessoas da comunidade, a entoarem seus cânticos de despedida. O cortejo segue até à margem do braço de mar, onde um boi será sacrificado. Do sacrifício propriamente dito, apenas observamos o animal ser deitado, e sua carne já sendo cortada a jorrar abundante sangue a envermelhar as águas próximas. E os barcos partem, contra a forte rebentação. A chegada dos barcos, festejada pela comunidade. As redes echarcadas de peixes. Por fim, uma nova remessa chega, de peixes enormes. E as crianças a surfarem com pranchas improvisadas. |Les Films de la Pléiade. 18 minutos e 17 segundos.

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