Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#'141: La Guerra Gaucha
LA GUERRA GAUCHA. (Argentina, 1942). Na época o mais amplamente filme visto na história do cinema argentino, ultrapassando mesmo Gone with the Wind (...E O Vento Levou), La Guerra Gaucha também marca o auge da "era dourada" da indústria de cinema argentina, antes de ser ultrapassada pelo México, o embargo estadunidense à película virgem, e censura pelo governo militar. La Guerra Gaucha foi o segundo filme realizado pelos Artistas Argentinos Associados (AAA), um grupo consistindo do produtor Lucas Demare; o produtor Enrique Faustín; e os três principais atores, Enrique Muiño, que interpretou Sacristán Lucero (um velho pároco, secretamente do lado dos rebeldes); Francisco Petrone, que interpretou o Capitão Miranda, o líder dos gaúchos; e Ángel Magaña, que viveu o Tenente Villareal (um oficial aristocrata espanhol, que mudou de lado). O filme é baseado em uma coleção de contos escritos por Leopoldo Lugones em 1905, sobre a guerra gaúcha com a Espanha imperial, na virada do século XIX. Os roteiristas de destaque Hómero Manzi e Ulises Petit de Murat combinou os contos em um único afresco narrativo, no qual o equilíbrio é conseguido em meio aos numerosos personagens interessantes. Villareal é ferido na batalha e capturado por Miranda, sendo posto aos cuidados da bela patrona da fazenda, Asunción (interpretada por Amelia Bence). Ela convence Villareal, particularmente por ter nascido no Peru, que ajude a liberar a América da Espanha. Sacristán, sem o conhecimento da esposa, a quem chama de "bruxa", é um espião patriota que manda mensagens aos rebeldes e badala o sino da igreja para comunicar o que a armada do rei está fazendo. Mas é capturado, torturado, cegado por suas ações, involuntariamente leva os espanhóis e o esconderijo rebelde. No final da batalha, Miranda, e seu companheiro, o desgrenhado capitão Sebastián Chiola (Hugo Del Carril) são mortos, mas Villareal mal sobrevivendo ao massacre, avistando o General Martín Gümes com suas forças irregulares à distância, vindo em socorro (presumimos).
La Guerra Gaucha foi filmado em locações na quente e árida província do norte, de Salta, onde as batalhas históricas de fato ocorreram, e a fotografia de planos-sequencias de Bob Roberts claramente delineia as planícies, com as montanhas ao fundo. Muito da película foi filmado em locações, e mais de mil pessoas participaram da encenação (a maioria como extras). O prólogo localiza a ficção em meio às históricas campanhas de 1814-18 do Comandante Güemes. Uma estranha mescla de ação, melodrama, comédia é talvez o que envelheça um pouco o filme, mas esta combinação de sério comentário social e entretenimento é característica do cinema argentino do período. Portanto, o filme permanece como um exemplar de alta qualidade tanto do cinema argentino "clássico", quanto do gênero gaúcho. E é interessante compará-lo com os westerns hollywoodianos contemporâneos. Cowboys e gaúchos compartilham o fumo e a bebida como prendas típicas, mas em La Guerra Gaucha as mulheres estão sempre à mão, e a "prostituição" é um claro ingrediente na mistura. De fato, a vida de um general é imensamente mais obscena e grosseira no gênero argentino - Del Carril frequentemente aparenta ter saído diretamente da cama. Os gaúchos portam chapéus com abas viradas para cima; eles lutam com lanças e facas, mais que revólveres, e tem enormes polainas de couro presas aos seus cavalos; como nos westerns os personagens, e seus acessórios, são maiores que a vida e muito vagamente baseados em fatos históricos, mas parecem mais crus, e desenhados de maneira mais realista. A mais notória diferença é política: o objetivo aqui não é "colonizar"a vastidão selvagem, mas unir uma "America" racialmente distinta - pessoas "cor de bronze" com brancos nascidos na América, ainda que deponha contra o filme de Demare que somente vejamos aborígenes em planos ocasionais como transeuntes. La Guerra Gaucha venceu inúmeros prêmios, incluindo sete prêmios da Academia de Artes e Ciências do Cinema, incluindo Melhor Filme, Diretor, Ator (Petrone) e Roteiro Adaptado, além dos Condores de Prata de Melhor Filme, Diretor e Roteiro da Associação dos Críticos de Cinema Argentinos.
Texto: Rist, Peter H. Histoircal Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 215-17.

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