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domingo, 7 de setembro de 2014

Filme do Dia: A Longa Caminhada (1971), Nicolas Roeg


A Longa Caminhada (Walkabout, Reino Unido, 1971). Direção: Nicolas Roeg. Rot. Adaptado: Edward Bond, a partir do romance de James Vance Marshall. Fotografia: Nicolas Roeg. Música: John Barry. Montagem: Antony Gibbs & Alan Pattillo. Dir. de arte: Brian Eatwell & Terry Gough. Com: Jenny Agutter, Luc Roeg, David Gulpilil, John Meillon, Robert McDarra, Peter Carver, John Illingsworth, Hilary Bamberger.

Adolescente (Gutter) e o irmão mais jovem (Roeg) ficam entregues ao vasto deserto após o pai tentar matá-los e se suicidar. Os dois vagam a esmo pelo deserto, precariamente alimentados e cada vez mais enfraquecidos pela caminhada e pelo sol. Encontram um aborígene (Gulpilil), que os apresenta diversas técnicas de sobrevivência no deserto. A convivência dos três é pacífica até o momento em que o aborígene inicia uma dança de acasalamento. Incapaz de perceber a importância do ritual, a garota o ignora e ele se enforca. Ela parte com o garoto por uma estrada, chegando a uma vila e depois retornando a Inglaterra.

Roeg, em sua estréia solo apresenta uma metáfora por vezes nada sutil de quanto os ocidentais são muito mais destrutivos que o nativo. A temporada de contato íntimo e necessário com a natureza é evocada nostalgicamente a posteriori num clima próximo da Lagoa Azul (1980), de Randall Kleiser. O nativo acolhe a garota de bom grado e a torna, juntamente com seu irmão, parte de sua própria família. Quando os dois voltam à civilização, no entanto, eles são tratados do modo mais truculento possível pelo primeiro branco que voltam a encontrar. E, mais importante, o próprio nativo acaba morto, mesmo tendo sido o guardião fiel da dupla. A contraposição soa por vezes demasiado esquemática, em sua visão idealizada da natureza assim como de seu “bom selvagem”, algo que só se torna menos incômodo se o filme for percebido mais como alegoria do que propriamente realista. Já a escalação equivocada do fraco garoto soa menos defensável e somente pode ser compreendida por ser ele o filho do realizador. A falta de “credibiliade” da dupla, principalmente do pequeno garoto, compromete mesmo sua proposta longe de realista, ao tornar pouco crível a travessia pelo deserto, por exemplo. O filme pode soar pretensioso e, não deixa de sê-lo de fato, porém mesmo sendo menos interessante do que outra alegoria contemporânea, o americano Glen and  Randa,  tampouco parece destituído de qualidades, como a própria ousadia da proposta como um todo, pouco dramanticamente convencional. Roeg não chegou ao limite  de testar a “complacência” de seu público, fazendo com que sua dupla viva uma amor inter-cultural-racial, mas não abriu mão  de uma comunicação entre eles bastante pontual, demarcando nitidamente os limites dos valores e da cultura de cada um.  Algo que fica marcado sobretudo pela excelente interpretação de Gulpilil, ele próprio de origem aborígene. Destaque para o uso intenso de fotos fixas. E para um determinado momento em que o abate de um animal pelo aborígene é contraposto ao de um açougueiro urbano, sem qualquer motivação diegética, numa reminiscência evocativa de Eisenstein, mas que não chega a ser propriamente criativa em relação a outras experimentações contemporâneas.  Si Litvinoff Film Prod. para 20th Century-Fox. 95 minutos.

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