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domingo, 14 de setembro de 2014

Filme do Dia: A Maçã (1998), Samira Makhmalbaf



A Maçã (Sib, Irã/França, 1998). Direção: Samira Makhmalbaf. Rot. Original: Mohsen Makhmalbaf &  Samira Makhmalbaf. Fotografia: Mohamad Ahmadi & Ebrahim Ghafori. Montagem: Mohsen Makhmalbaf. Com:  Ghorban Ali Naderi, Azizeh Mohamadi, Massoumeh Naderi,  Zahra Naderi,  Zahra Saghrisaz.
    Vizinhos de Ghorban Ali Naderi fazem um abaixo-assinado para que as autoridades saibam que ele aprisiona suas duas filhas desde crianças em sua casa. As garotas, Massoumeh e Zahra, não possuem nenhum contato com o mundo exterior. Manchete nacional, Ghorban fica revoltado com o fato de terem afirmado que ele acorrentava suas filhas. Mesmo sendo intimado a criá-las em liberdade, ele volta a velha prática, já que sua mulher é cega e ele teme que suas filhas tomem contato com os meninos da vizinhança, seguindo o preceito de um livro que afirmam serem as meninas como flores que deveriam ser protegidas do sol, representação masculina. Com a chegada de uma assistente social, Ghorban é preso na sua própria casa, enquanto a assistente ordena que as meninas vão brincar com outras crianças. Como ultimato, a assistente lhe entrega uma serra, tendo ele que serrar a própria grade se quiser ter ainda as crianças consigo. Enquanto isso as meninas se envolvem com um bode, um vendedor de picolés, pedem dinheiro para comprar maçãs e conhecem duas amigas da mesma idade, com quem dividem as maças compradas. Enquanto serra a grade, Ghorban escuta as imprecações da esposa, que fica revoltada quando percebe que sai com as crianças e se confunde com o mesmo garoto que brinca com uma maça, na janela de sua casa.
Dirigido pela filha de um dos mais renomados cineastas iranianos, Mohsen Makhmalbaf (também produtor, editor e co-roteirista), de apenas 18 anos, o filme é mais um a evidenciar que entre um dos recursos atualmente mais utilizados pelo cinema de vertente autoral tem sido o da mescla extrema entre as linguagens documental e de ficção como, por exemplo, Aprile (1998), de Nanni Moretti. Aqui, a cineasta faz com que os personagens vivam seu próprio drama – na realidade a família que aparece no filme é a própria família que ocorreu o caso do aprisionamento e o comportamento das crianças, segundo a cineasta, teve momentos de pura espontaneidade, como quando uma delas divide o seu sorvete com uma cabra. Também se utiliza de imagens em vídeo, que apresentam as declarações reais de Ghorban sobre o motivo do aprisionamento das meninas. Por outro lado, não se trata pura e simplesmente de um registro documental, no sentido de que houve um planejamento de filmagem, incluindo elementos de forte simbologia, como a própria maçã do título, que podem ser vistos  como a encarnação do desejo das jovens. A partir do momento que apresenta pessoas que vivenciam a sua própria alteridade diante da câmera, tal fato pode potencialmente servir tanto como elemento anti-discriminatório, quanto fazer surgir indagações éticas, sobre um latente voyeurismo na apresentação do diferente, do gênero feira de curiosidades – as atitudes das crianças, e até mesmo sua forma de andar, exemplificam até que ponto somos moldados pela nossa convivência em sociedade. A mesma indagação poderia ser feita, por exemplo, na apresentação do universo de pessoas com deficiências auditivas, visuais e neurológicas no belo documentário de Herzog O Mundo do Silêncio e da Escuridão (1970). Com a dramaturgia cinematográfica iraniana recente o filme compartilha as mesmas aspirações fenomenológicas,  produção modesta, enredo centrado em uma área espacial restrita, obsessão pelo tema central a ser desenvolvido e crianças como protagonistas. Makhmalbaf Productions/Hubert Bals Fund/ MK2 Productions. 86 minutos.


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