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sábado, 20 de setembro de 2014

As mentiras que os homens contam

A sapatilha pendurada na ponta dos dedos deixava à mostra o calcanhar e o peito do pé. Eram as únicas partes do corpo, além dos braços e do pescoço, descobertos. Estávamos no ponto de ônibus em um dia quente em pleno inverno e eu me perguntava por que, em vez de responder meus cumprimentos, a moça seguia com o pescoço duro, as sapatilhas balançando, e o olhar fixo no aparelho celular.
Só comecei a entender porque o ônibus atrasou cerca de dez minutos. Foram dez minutos intermináveis. Ao menos para ela. Enquanto eu adiantava tranquilamente as leituras do dia naquele ponto afastado do centro da cidade, a menina fingia não observar que se tornava um ponto turístico para os motoristas que passavam pela rua. Uns desaceleravam para conferir em detalhes os atributos estéticos da garota. Outros assobiavam. Outros emitiam grunhidos com os beiços. Outro apenas gritou “gostosa”.
A distância entre nós, naquele ponto, era de cerca de dois metros e mais de 2000 anos. Eu sabia o que era esperar meu ônibus em tranquilidade. Ela não. E isso me parece motivo suficiente para insistir que, mesmo prestes a levar duas mulheres para o segundo turno da corrida presidencial, estamos longe, muito longe, de dar por definida a luta feminina contra uma estrutura ainda sensivelmente paternalista, sexista, autoritária.
Foi o que escrevi há alguns dias para mostrar, com alguns exemplos que supunha concretos, como ainda aceitamos esse fosso, escancarado para mim diante do assédio sofrido por uma mulher ao meu lado em um ponto de ônibus.
Ela tinha razão para ter medo. Os homens que passavam lambendo os beiços à sua frente estão há anos sentados em uma velha posição de conforto.
Essa posição é resultado de uma estrutura histórica que só quem não entende ou não quer entender pode minimizar. Começa com as brincadeiras da infância: os homens brincam de soldado, as mulheres brincam de cozinhar. De vez em quando brincam de princesas, aqueles seres delicados e condenados a passar a vida nos contos de fada a esperar um príncipe salvador.
Pouco depois, crescem ouvindo todo tipo de explicação sobre suas limitações sexuais e domésticas. Descobrem pela Bíblia que a moça boa, pra casar, é compreensiva com os maridos, aqueles meninos que brincavam de soldado e hoje fazem a própria guerra. Elas ouvem também que moça que não casa é porque não encontrou o homem certo. E se não encontrou está fadada aos maus humores das espécies de duplo cromossomo xis que não encontraram um falo para preencher seus espaços vazios. Mulher que quer respeito precisa se dar o respeito, dizem para ela. Quando é encoxada no metrô, bem-feito para ela: quem mandou provocar? Quem mandou desviar do caminho os olhares de quem estava apenas a caminho do trabalho e da guerra?
A brincadeira passa também pelos estereótipos. Não faz muito tempo, o professor de cursinho relacionava, em uma piada conhecida, o excedente de sangue eliminado na menstruação com a falta de uso do cérebro. Na novela, todas elas gostam de sapato de salto alto. Todas elas querem um marido rico. Moça boa de novela sofre com doçura pela casa, mas no filme pornô, feito por homens e para homens, é preciso saber de malabarismos. É preciso gemer. É preciso evocar a Deus diante de tanto prazer que a benção masculina pode proporcionar.
No dia da mulher, é preciso ganhar flores. É preciso sobretudo gostar de flores. Se não gostar, se vira, dê um jeito. Porque é preciso ser uma flor todos os dias do ano.
Quando mãe, é preciso padecer no paraíso. É preciso ter açúcar e ter afeto. Como na musica, é preciso, às seis da tarde, com dela se espera, esperar seu homem no portão e dizer que está muito louca pra beijar, e beijar o marido cansado com a boca de paixão e mordê-lo à meia-noite com a boca de pavor. É preciso se contentar com o destino amargo do matrimônio com sua dose natural de doçura.
No casamento, é preciso se retirar para a cozinha para lavar os pratos enquanto os maridos falam na sala sobre futebol. É preciso ouvir os lamentos da sogra sobre sua eficiência no trabalho doméstico e a negligência no cuidado dos meninões. É preciso ficar agradecida e lisonjeada quando o marido a chama de gostosa. E quando toma tapinhas na bunda. Ou quando ouve que está meio cheinha e precisa emagrecer. E ouve conversas sobre como todas as estagiárias se jogam no colo do marido enquanto ela o espera na janela.
Esse mundo de obediência e docilidade é um mundo em desconstrução em razão de uma série de conquistas recentes, acomeçar pela pílula anticoncepcional e a inclusão das mulheres no mercado de trabalho, passando pelas leis de proteção à violência e pelos benefícios sociais que quebraram, nas famílias menos abastadas, as regras do orçamento do patriarca.
Nas brechas de uma sociedade ainda tão paternalista quanto antiquada, há sinais evidentes de uma consciência de quem entendeu que não veio ao mundo para enfeitar a vida de ninguém – nem mesmo a visão dos poetas a cantarolar versos sobre as coisinhas (coisinhas, tá?) mais lindas e cheias de graças a caminho do mar.
Essa consciência deixa claro que ninguém está mais disposto a enlouquecer com a estrutura de intimidação que dinamitou a vida das mães e das avós que só aprenderam a sorrir, a driblar a amargura e o destino da dedicação quando ficaram viúvas e foram para o bingo.
Por isso a reação incomoda.
Após a publicação do texto sobre o machismo ainda presente nas eleições, recebi uma série de mensagens agressivas, quase em tom de ameaças. A maioria era movida pela chamada falsa simetria. Uma das mensagens citava o índice de assassinatos de homens para dizer que eram eles, e não as mulheres, as maiores vítimas da violência no país.
Na mesma mensagem, o signatário mostrava não compreender por que as mulheres eram tratadas como “minorias” se elas representavam a maioria da população. Entre outras pérolas, dizia que a representação feminina no Congresso só era baixa porque as mulheres, maioria dos eleitores, tinham preconceito contra elas mesmas e se boicotavam - um argumento muito parecido com aquele segundo o qual o negro demonstra preconceito contra ele mesmo quando se relaciona com uma mulher branca. O argumento, racista até o último fio de cabelo, aceita que grupos étnicos se relacionem apenas entre si, e não a liberdade de quem não se importa com a epiderme. Para falar em supremacia racial é um palito…
Pois bem. Em um debate público, principalmente quando relacionado a opções políticas, há teses e antíteses em tensão o tempo todo em direção à construção de sínteses. Quando se fala em preconceitos e privilégios, no entanto, não se pode relativizar. Se um lado sofre e outro reivindica o direito de fazer sofrer é porque um dos lados está (muito) errado.
Muitas vezes essa reivindicação do antigo opressor se dá por má fé. Outras por pura incapacidade de compreender o mundo além dos números. Daí a confusão do debate sobre minorias, um conceito relacionado a grupos hegemônicos em tensão com outros grupos sem acesso aos mesmos direitos ou privilégios. É o que explica, por exemplo, o fato de um país miscigenado como o Brasil ganhar uma única cor a depender do espaço frequentado. Ou o fato de os homens, minoria na população geral, serem os rostos dominantes nos púlpitos das igrejas, nos palanques políticos, nos postos de comando das empresas, no policiamento, na narrativa mitológica e na história oficial, tão bem conduzida por herois masculinos. Nada a ver com matemática, portanto.
As estatísticas, sob tortura, dizem qualquer coisa, mas uma análise mais cuidadosa, ou com mais boa vontade, levaria à conclusão de que em lugar nenhum do mundo os homens são assassinados por serem homens. Está para surgir estatística a apontar que a vítima masculina teve as roupas arrancadas, o corpo destruído e penetrado porque alguém o viu e concluiu: “Eis um homem com trajes inadequados. Eu mereço e posso estraçalhá-lo”. Nesse tipo de crime, que nasce e morre em uma questão de gênero, o homem quase nunca é a voz passiva do chamado crime passional - na construção semântica, o ódio cru é relatado como paixão.
Os homens das estatísticas morrem por diversos motivos. Morrem, por exemplo, na guerra às drogas, seja em tiros com a polícia, seja em acerto de conta com bandidos. Mas não por serem homens. A recíproca, infelizmente, é verdadeira: enquanto você lê este texto, há uma mulher sendo violentada, verbal ou fisicamente, dentro ou fora de sua casa pelo marido, o padrasto, o vizinho ou o desconhecido que aprendeu na infância que o corpo dela é a extensão da sua própria vontade, provocada toda vez que uma costela de Adão sai do Gênesis para lhes oferecer maças.
No caso da menina do ponto de ônibus, bastou o calcanhar à mostra para atrair todos os tipos de olhares e agressões. Ela seria alvo daqueles olhares com roupas inadequadas ou não. Pela reação dos leitores a um simples texto sobre o quanto ainda falta para avançarmos, ela tem toda razão para andar com medo. Ela pode trabalhar, obter sucesso, fazer carreira e votar em uma mulher para a Presidência. Mas o direito de caminhar em paz em sua rua ainda não foi conquistado. A depender dos machões que nos escrevem no Facebook, crentes de estarem em posição submissa por não poderem agredir as mulheres em paz, este direito não lhe será jamais outorgado.
*Manifestante durante a Marcha das Vadias em 2013, em SP; movimento pede autonomia sobre os próprios corpos e rechaçaram a ideia de que a roupa ou o comportamento justifiquem violência contra as mulheres

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