CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Filme do Dia: Rocco e Seus Irmãos (1960), Luchino Visconti

Rocco e Seus Irmãos (Rocco e i suoi fratelli, Itália/França, 1960). Direção:Luchino Visconti. Roteiro Adaptado: Luchino Visconti,  Suso Cecchi D'Amico, Pasquale Festa Campanile, Massimo Franciosa & Enrico Medioli, baseado no argumento de Luchino Visconti, Vasco Pratolini & Suso Cecchi D'Amico, baseado no romance Il Ponte della Ghisolfa, de Giovanni Testari. Fotografia: Giuseppe Rotunno. Música: Nino Rota. Montagem: Mario Serandrei. Dir. de arte: Mario Garbuglia. Figurinos: Piero Tosi. Com: Alain Delon, Renato Salvatori, Annie Girardot, Katina Paxinou, Spiros Focas, Max Cartier, Rocco Vidolazzi, Adriana Asti, Nino Castelnuovo, Paolo Stoppa, Suzy Delair, Claudia Cardinale.
     Após a morte do pai, a família Parondi muda-se do distante povoado de Lucânia  para Milão. Chegam no momento em que o filho que já mora em Milão, Vincenzo (Focas) comemora seu noivado com Ginetta (Cardinale). Logo a matriarca Rosaria (Paxinou) sente-se humilhada pelos comentários da mãe da noiva e retira-se com a família. A própria família de Ginetta não quer mais o noivado, e Vincenzo ajuda a família a encontrar um local provisório até que chegue a ordem de despejo. No local, um cortiço, Simone (Salvatori) conhece a jovem mundana Nadia (Girardot), recém-expulsa de sua família, passando a viver um relacionamento com ela. Iniciando na carreira de boxe que o irmão Vincenzo não levou para frente, Simone não progride com facilidade, embora tenha caído nas graças do treinador Cecchi (Stoppa). Rouba um broche de Luisa (Delair), patroa de Rocco (Delon), irmão mais moço que também treina boxe, embora sem maiores pretensões. Nadia descobre e conta tudo a Rocco, que restitui a jóia, embora não conte a ninguém da casa sobre o furto. Achando que Ginetta é uma má influência para Simone, afirma que ela foi embora. Ele próprio distancia-se da família e vai servir ao Exército. Casualmente encontra Ginetta, que acaba de sair da prisão, e enamora-se dela. Juntos vivem um breve, porém forte idílio amoroso que logo se desfaz quando Simone sabe, através de amigos, que os dois andam se encontrando. Simone vai até o local onde se encontram e, com a ajuda de amigos, estupra Ginetta na frente do irmão e o espancando. Mesmo muito abalado com o ocorrido, Rocco aconselha Ginetta a voltar para o irmão. Enquanto isso Ciro (Cartier) progride e consegue se empregar numa fábrica da Alfa Romeo. Cada vez mais indisciplinado, Simone torna-se alcoolátra e é banido das competições. Volta a ser abordado por Cecchi, que o leva para seu apartamento. Ele precisa de dinheiro. Não satisfeito com o que oferece Cecchi, em troca de favores sexuais seus, assalta-o. A Polícia é acionada. Rocco compromete-se em pagar toda a dívida, através de suas lutas. Ciro intima Simone a mudar de vida e respeitar a mãe, já que ele trouxe Ginetta para viver com a família. Logo, no entanto, ela resolve abandonar o local, após uma discussão com Rosário. Ao mesmo tempo, Ciro preocupa-se com a má influência que Simone pode provocar em Luca (Vidolazzi). Cada vez mais decadente, Simone sabe através de amigos do novo ponto em que Ginetta se prostitui. Enquanto Rocco luta contra um adversário famoso, Simone assassina Ginetta e chega no cortiço para contar o que havia feito e acabar com a comemoração da vitória de Rocco. Mesmo sendo dissuadido por Rocco, Ciro acaba indo a Polícia entregar o irmão. Alguns dias depois, Ciro recebe no serviço a notícia do inconformado Luca de que Simone havia sido preso. Ciro afirma a Luca que um dia ele apoiará a decisão que ele tomou.
     Utilizando-se de planos abertos e de uma estupenda trilha sonora de Rota (associado sobretudo à carreira de Fellini), Visconti conseguiu imprimir um caráter épico tão ou mais eloquente ao seu drama contemporâneo e vivido num ambiente popular que em seu drama histórico posterior, O Leopardo (1963), ambientado em uma família aristocrática. Também em muito se deve à trilha a atmosfera melancólica, aqui e acolá pontuada por explosões emocionais (sobretudo de Paxinou, no estilo de Anna Magnani) típicas dos melodramas neo-realistas e retrabalhados por Pasolini por essa mesma época. Como nos filmes do último, trata-se de um drama marcadamente cristão e moral, onde a culpa, as relações de poder intra-familiares (Simone avança em seus vícios em grande parte devido a sua posição privilegiada como primogênito) e o meio social urbano acabam por afastar os rumos de cada um dos cinco irmãos. Rocco e Simone são pólos opostos frente a um destino perverso: o primeiro é todo condescendência e solidariedade, sempre disposto a se sacrificar pelo irmão, devido ao forte sentimento de culpa que sente; sua virtude é ao mesmo tempo sua fraqueza como sublinha Ciro; o segundo é a própria representação do fracasso, como afirma Nadia, que a certa altura comenta que tudo que ele toca torna-se pútrido. Ciro, por outro lado, representa uma voz expurgada dos apelos emocionais. Como tal seria o modelo a ser seguido pelo pequeno Luca. O mais estável emocionalmente, não sofre da indiferença de Vincenzo, que prefere não tomar partido nos conflitos da família. A certo momento tem que escutar do degradado Simone “que não é mais que um operário da Alfa Romeo.” Tem planos para casar, mas seu romantismo ainda não foi corrompido seja pela mesmice do cotidiano familiar de Vincenzo, seja pela experiência dolorosa vivida por Simone e Rocco com a mesma mulher. Curiosamente a ele o próprio Visconti atribui um caráter de esclarecimento marxista que hoje passa despercebido, através de sua indignação com a condição das coisas. Antes parece se colar a figura de Ciro um maior ajustamento com relação a outra Itália, industrializada, racional e ordeira em oposição a Itália emocionada e intuitiva da Lucânia que ainda povoa os sonhos nostálgicos de Rocco.
     Com planos de uma exuberância visual de perder o folêgo, como o conjunto habitacional próximo ao que a família vive à noite, no momento da briga entre Rocco e Simone ou o momento em que Nadia é rejeitada por Simone, e observamos um generoso plano da Catedral de Milão e imediações. Aliás Visconti não desperdiça seus planos fechados, utilizando-os para os momentos de conflito ou de intimidade do sujeito consigo próprio (o mais notório exemplo é a cena em que Rocco deitado em sua cama, com expressão enigmática, aparentemente cansado de si próprio, não se furta a encontrar o olhar da câmera.) Os planos abertos, por outro lado, são utilizados quando não para descrever o ambiente, como expressões das reações coletivas, sejam momentos de intensa alegria, como o da comemoração da vitória de Rocco ou de conflito, como a briga que envolve torcedores de uma das primeiras lutas de Simone.
     Ousado em cenas como a da seqüência do estupro (na época, vítima da censura italiana) e na sutil alusão à homossexualidade do empresário de boxe, é porém certamente aos dramas imemoriais em que o senso trágico do destino se faz evidente que o filme mais deve, aproximando-se nesse sentido do realismo poético francês que Visconti admirava. O papel da mulher se encontra bem enraizado dentro desse universo moral tradicional onde não há como fugir à dualidade santa (no caso a mãe, representação próxima de Maria)/prostituta. Assim, Ginetta espera de braços abertos a sua própria morte pela faca de Simone, como comprovando que não haveria como fugir desse destino. Essa seqüência e a que Cecchi procura seduzir Simone e ao ligar a tv aparecem imagens bíblicas são as mais explicitamente cristãs. Mesmo contendo elementos de crítica social e psicossocial o filme não possui  uma postura de autoconsciência intelectual, talvez um de seus maiores méritos. Juntamente com os primeiros filmes de Pasolini, e talvez ainda mais que esses, revela através de uma sensibilidade extremamente voltada para os valores mediterrâneos sua tocante universalidade, partindo de um material que em outras mãos, provavelmente não passaria de mais um melodrama vulgar. Certamente influenciou em boa medida cineastas ítalo-americanos em suas próprias incursões por épicos contemporâneos como Coppola e Scorsese. Por sua vez um dos seus maiores trunfos é ser um filme que também retrabalha, em termos de conteúdo, a herança do neo-realismo e do realismo poético e, em termos formais, sobretudo no que diz respeito à fotografia, o cinema noir americano. Prêmio Especial no Festival de Veneza. Titanus/Les Films Marceau-Cocinor. 181 minutos.       

Nenhum comentário:

Postar um comentário