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sábado, 27 de setembro de 2014

Filme do Dia: Almas na Estrada (1921), Minoru Murata

Almas na Estrada (Rojô no Reikion, Japão, 1921). Direção: Minoru Murata. Rot. Adaptado: Kyohiko Oshihara, a partir dos contos Nda Dene, de Gorki e Mutter Landstrasse de Wihelm August Schmidtbonn.  Fotografia: Bunjiro Mizutani. Cenografia: Saburo Mizoguchi. Figurinos: Atsushi  Yamashita. Com: Kaoro Osanai, Haruko Sawanyra, Denmei Suzuki, Mikiko Hisamatsu, Ryuko Date, Yuriko Hanabusa, Sotaro Okada, Minoru Morata.
         Emocionalmente instável e temperamental, Koichiro (Osanai) desperdiça chances de se afirmar enquanto músico. Faz uma longa travessia para a casa do pai com a companheira Mitsuko (Date) e a filha. Dois ex-prisioneiros andam a esmo, cruzam com a família de Koichiro na estrada – inclusive cedendo o resto de pão que possuem para sua faminta filha – e se aproximam de uma opulenta residência, tentando roubar alguma comida. Enquanto Koichiro é ostensivamente renegado pelo pai, que deixa ele e sua família à míngua do inverno inclemente, a dupla surpreendida pelo porteiro da casa é chicoteada pelo mesmo, mas depois convidada a participar da celebração de natal com a família do proprietário e seus amigos. Koichiro é encontrado morto na nevasca por Taro (Morata).
          Inicia e finda ciclicamente com uma cartela de Gorki sobre a necessidade de sermos piedosos, tal como Jesus Cristo. Segue  por um primeiro plano visual do alvorecer e montanhas ao fundo evocativo do tom soturno de seu contemporâneo Nosferatu. Algo confuso, ao olhar contemporâneo de mais de 9 décadas de quando foi produzido, o filme de Murata apresenta, por exemplo, para além de uma grande quantidade de personagens, que vai sendo desfiada ao longo da trama e não logo de início, inserções de personagens na imagem tal como aparições que parecem ser representativas dos pensamentos dos mesmos (recurso utilizado mais pelo Primeiro Cinema), como é o caso da jovem surgindo diante de Taro e vice-versa, algo que não se comprovará, pois eles aparentemente sequer se conhecem até então. Outros, mais convencionais, como o flashback constituído a partir de um close no rosto de Koichiro. Destaque para a forma como a dupla de esfomeados se arrasta até a casa que pretende ser alvo de seus saques, ou como a mulher de Koichiro demonstra a sua  (e da família)  situação limítrofe, através do próprio corpo contorcido e desesperado,  bastante próxima do cinema de Griffith, como no caso dos filmes de um ou dois rolos que produziu para a Biograph. E o candor com que a garota se movimenta prenunciando o encontro surpreendente com os marginais também é bastante devedora do mesmo. Porém, ao contrário das produções da Biograph e mais próximo de Intolerância, aqui os pretensos saqueadores acabam sendo vítimas e não vilões. Através da montagem, Murata alterna dois momentos de intolerância: o do pai que não perdoa o filho pródigo que retorna a casa sem posses e com família e o empregado que flagra os dois homens que tentavam conseguir um pouco de comida. Porém o que aparenta ser uma simétrica situação de intolerância logo se ramificará numa maniqueísta divisão entre duas situações opostas. Os dois famintos passam a fazer parte da festa de natal da família e o ambiente é de felicidade geral, enquanto a família volta a rua, a fome e ao frio no caso do pai que não perdoa o filho. Esse, que é o filme de estreia de Murata – que concede a si próprio um papel bastante secundário, o de Taro, cortês e benquisto empregado do pai de Koichiro – parte de dois contos diversos, que compõe a base das duas tramas paralelas, sendo que nem sempre a passagem de uma para outra ou as subtramas, como a do próprio Taro, chegam a ser delineadas com grande clareza. É considerado um marco na cinematografia japonesa por   adotar pioneiramente os princípios de representação mais naturalistas e próximos do cinema ocidental.  Shochiku. 91 minutos.


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