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domingo, 21 de setembro de 2014

Filme do Dia: A Condessa Descalça (1954), Joseph L. Mankiewicz


A Condessa Descalça (The Barefoot Contessa, EUA, 1954). Direção e Rot. Original: J.L. Mankiewicz. Fotografia: Jack Cardiff. Música: Mario Nascimbene. Montagem: William Hornbeck. Cenografia: Arrigo Equini. Com: Ava Gardner, Humphrey Bogart, Edmond O´Brien, Marius Goring, Valentina Cortese, Rossano Brazzi, Elizabeth Sellars, Warren Stevens, Renato Chiantoni, Maria Zanoli.
     Nos funerais de Maria Vargas (Gardner), alguns dos homens representativos de sua vida prestam seu tributo e recordam de sua personalidade magnetizante. Dentre eles, Harry Dawes (Bogart), que se tornou um protetor dela quando parte para Hollywood, após ser descoberta em uma espelunca de Madri e tornar-se mulher do poderoso produtor e magnata Kirk Edwards (Stevens). Depois de realizar três filmes de estrondoso sucesso, sofre o abalo do assassinato da mãe (Zanoli) pelo próprio pai (Chiantoni), que representa para ela menos a perda da mãe, que achava detestável, que a possibilidade de condenação do pai, que é absolvido como tendo agido em legítima defesa. Após ser motivo de disputa entre Edwards e o milionário sul-americano Alberto Bravano (Goring), decide partir com Bravano. Esse a humilha publicamente em um cassino, partindo ela com o Conde Torlato-Favrini (Brazzi), que se dispõe em sua defesa. Quando finalmente parece conquistar a estabilidade emocional no homem com quem se casa, descobre na noite de núpcias que ele é um neurótico e impotente. Após revelar para Dawes que se encontra grávida, é morta, juntamente com o amante, pelo Conde.
     Esse melodrama rocambolesco de Mankiewicz retrospectivamente torna-se menos interessante pela banal história em si, que pela constante auto-ironia e acidez com que descreve o próprio universo do cinema, habitado por uma horda de crápulas e cínicos, dos quais o alter-ego de Mankiewicz, igualmente diretor-roteirista, uma raridade em Hollywood, é um dos poucos que ainda consegue manter certa dignidade. Não menos interessante é como a realidade foge ao controle da indústria de vender sonhos, seja quando o relações-públicas Oscar sugere que a mãe passe a morar com a nova estrela e essa afirma que a detesta ou quando procuram, sem conseguir, abafar o assassinato da mesma. Resta a Maria, em meio a tantos papéis na tela como fora delas, buscar o amor, que não consegue vivenciar nas relações sociais de seu novo meio, em um violinista ou motorista. Apesar da engenhosidade de alguns diálogos, de sua magistral estrutura em flashback, de sua apresentação da vida como uma constante criação de papéis e de sua referência irônica ao universo do cinema, o filme não consegue se igualar a outra sátira corrosiva de Mankiewicz ao universo artístico, A Malvada (1950). Tanto por sua extravagância visual e dramatúrgica quanto por sua ênfase em acentuar os paralelos de se interpretar papéis na vida como nas telas, o filme pode ser considerado uma influência fundamental para os melodramas de Almodóvar. Figaro Incorporated/Rizzoli-Haggiag. 128 minutos.

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