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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Filme do Dia: Eu, Um Negro (1958), Jean Rouch

Eu, um Negro (Moi, un Noir, França, 1958). Direção e Rot. Original: Jean Rouch. Música: Joseph Yapi Degré. Montagem: Catherine Dourgnan & Marie-Josèph Yoyotte. Com: Amadou Demba, Karydio Faoudou, Gambi, Oumarou Ganda, Seydou Guede, Alassane Maiga, Petit Touré.
      Em Treichville, Costa do Marfim, o filme acompanha a trajetória de Edouard G. Robinson (Ganda) pelo trabalho de estivador no porto, por sua admiração por Eddie Constantine (Touré), que possui todas as mulheres que quer e pelo taxista Tarzan (Maiga), que possui seu próprio carro. No trabalho, conta histórias fabulosas que viveu pelo mundo, na Indochina ou na França, para o companheiro Elite (Demba). No final de semana, diverte-se com os amigos tomando banho de mar, e sonhando com o boxe, assistindo fascinado as apresentações de Eddie Constantine. E, à noite, vai aos bares sonhar com o dia que terá Dorothy Lamour (Gambi), a prostituta por quem é apaixonado, em seus braços. Porém, logo seu sonho é interrompido pela presença de um italiano que a convence a mais um programa. Sem dinheiro e bêbado, Robinson é expulso dos bares. No dia seguinte, apanha do italiano, quando vai até o quarto de Dorothy. Segunda-feira marca o retorno ao trabalho explorador,  somado a triste notícia de que Constantine foi preso por agredir um policial e que ficará ao menos três meses na cadeia.
     Nesse semi-documentário, Rouch consegue uma dimensão de forte lirismo, sem abdicar de retratar existências conscientes do nível de exploração social que sofrem, procurando representar uma semana na vida de um personagem que, embora fictício, funciona como catalisador dos próprios desejos e frustrações daquele que o encarna. Nesse sentido e inovadoramente, o cineasta pediu que os próprios sujeitos do filme, que não eram atores profissionais, criassem personagens de si próprios e ensaiassem uma pequena ficção a respeito de sua realidade cotidiana. O resultado, que demonstra o nível de interiorização do colonialismo cultural (todos os personagens que invocam são referências ao cinema francês ou americano, como Robinson, Eddie Constantine e sua encarnação popular como o detetive Lemmy Caution, posteriormente reciclado para outros propósitos, por Jean-Luc Godard, em Alphaville, com  Constantine voltando a viver o personagem célebre) é somado a própria exploração econômica interna e a questão racial. Seu protagonista, é um jovem negro, desempregado e emigrado da Nigéria para a Costa do Marfim, complexado por não possuir os seus três maiores objetos de desejo, que acredita que todo “cidadão normal” deveria ter: mulher, automóvel e residência. Apóia-se fortemente no som pós-sincronizado (embora Rouch já fizesse uso das câmeras de 16 mm tanto em termos de barateamento de custos, quanto de expressividade visual, por sua leveza, ainda não havia incorporado o uso do som direto), colando um discurso posterior in off às imagens. Nesse sentido, seus filmes proporcionaram uma revolução tanto tecnológica quanto estética para o cinema mundial apresentando a possibilidade de, através de recursos semi-amadorísticos, criar uma ficção que não desse às costas para o real. Portanto, embora faça uso consciente de recursos da dramaturgia ficcional (os flashbacks de Robinson rememorando uma infância de prazeres  se encontram entre os mais belos momentos do filme) jamais deixa de fazer referência direta a realidade sócio-econômica retratada. Entre seus momentos mais tocantes também podem ser incluídos o sonho do protagonista de ser boxista, quando se vê combatendo no ringue, para logo depois comprovar que aquilo tudo era ilusão, as apresentações de dança, seu tributo a Dorothy Lamour e sua constatação, irônica, de “que cinema não é coisa para pobre”. Em termos formais, foi o primeiro filme a fazer uso do corte abrupto (jump cut), no momento em que Robinson e Elite caminham na praia. Sua influência, na cinematografia mundial, é inquestionável, antecipando tanto a estética da fuga dos estúdios e da “proximidade da vida” presentes na Nouvelle Vague, quanto características do cinema documental brasileiro da década de 1960 ou a incorporação da estética documental em filmes abertamente ficcionais, como no caso de Cassavetes. Les Films de La Plêiade. 70 minutos.

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