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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Filme do Dia: Em Busca da Felicidade (1995), John Schlesinger


Em Busca da Felicidade (Cold Comfort Farm , Reino Unido, 1995). Direção: John Schlesinger. Rot. Adaptado: Malcolm Bradbury, baseado no romance de  Stella Gibbons. Fotografia: Chris Seager. Música: Robert Lockhart. Montagem: Mark Day. Com: Kate Beckinsale, Eileen Atkins , Sheila Burrell,  Stephen Fry,  Freddie Jones, Joanna Lumley, Ian McKellen, Miriam Margolyes, Rufus Sewell,  Ivan Kaye,  Jeremy Peters, Maria Miles,  Christopher Bowen, Louise Rea,  Sophie Revell,  Rupert Penry-Jones,   Angela Thorne,  Tim Myers,  Pat Keen.
      Na Inglaterra dos anos 20, logo após se tornar orfã, a jovem Flora Poste (Beckinsale) visita sua tia Gwen (Keen). Embora seja de família de posses e numerosa, os Starkadder, a sua situação finançeira não é das melhores. Porém ela afirma à tia que não pretende trabalhar, antes se transformar numa futura Jane Austen, escrevendo um grande livro quando tiver seus 50 anos. Aproveitando-se de sua situação de vítima escreve para vários familiares e, entre as respostas que recebe, escolhe a casa de sua tia Judith Starkadder (Atkins), no campo, para morar, apesar de sua tia lhe avisar que se tratam de camponeses rústicos. Logo que Flora chega ela se apercebe de um novo mundo. A fazenda de Cold Comfort, segue as leis de sua velha matriarca, Ada (Burell), que não se importa com o mundo exterior e o progresso, vivendo reclusa em seu quarto, e guiando a todos através de uma mitologia própria, cujos principais mandamentos são que os Starkadder devem sempre continuar a viver em Cold Comfort  e que ela viu algo de horrível no celeiro quando criança. Aos poucos, no entanto, Flora consegue subverter esse mundo excêntrico onde o casamento entre próximos e seu fechamento para o mundo exterior transformou alguns membros em seres patéticos. Flora, gradualmente, incita a jovem tresloucada Elfine (Miles), que vive cultuando as forças da natureza, a resistir a casar-se com quem Ada lhe designou, Urk (Peters), e assumir sua paixão reclusa pelo jovem aristocrata Dick Hawk-Monitor (Penry-Jones). Da mesma forma incita Amos Starkkader (MacKellen), rígido pastor local, a sair cultuando pelo país, deixando livre a administração para o filho Reuben (Kaye), que possui sede de transformação. Por outro lado, contacta um grande magnata do cinema, que se interessa de imediato pelo apelo másculo de Seth (Sewell), o outro filho de Amos. Tudo se modifica quando Flora retorna de uma recepção na mansão dos Hawk-Monitor, em que para espanto de seus pais, Dick firma seu noivado com Elfine e sabe que Ada havia marcado uma reunião extraordinária da “contagem” em Cold Comfort - reunião em que uma vez por ano Ada desce de seu quarto. Logo ela é abatida pelas novas, inclusive pela saída de Amos para pregar pelo mundo e pela confirmação do noivado de Elfine. Porém a tradição de Cold Comfort rui de vez no dia do casamento de Elfine e Dick, quando para surpresa de todos Ada resolve abandonar a fazenda e os anos de atraso e, apos citar uma frase de Jane Austen ensinada por Flora, parte para Paris. Judith, profundamente abalada, desde a perda do marido e posteriormente do filho, que parte para fazer carreira no cinema, recebe um convite para morar um tempo com um psicanalista que se interessou por seu caso. Para completar a felicidade de todos, já que Urk acabou se contentando com uma jovem empregada da fazenda, e Reuben, apesar da negativa de Flora de casar-se com ele, acredita que encontrará alguém, Flora parte com o amigo que sempre lhe desejara, Charles (Bowen),  que pousa repentinamente de avião na fazenda.
      Guiando-se entre o drama de costumes à la Jane Austen, a sátira desse mesmo tipo de drama - Flora decide-se ao final que não dava para escritora, afastando-se do tradicional mote metanarrativo de romances do gênero, explicitado geralmente ao fim de sua narrativa - e o romance picaresco, o filme é um previsível amontado de clichês que nada fica a dever às nossas telenovelas. O didatismo da personagem de Flora, como o espírito moderno que lança luzes sobre a escuridão do mundo tradicional acaba por deixar bem claro o caráter extremamente pouco nuançado e ingênuo, maniqueísta mesmo,  com que se trata a oposição tradição x modernidade. E as luzes trazem remédio para tudo. Ao romperem seja com o arcaísmo que é relevar o amor frente as tradições de classe, no caso do casamento inter-classes entre Elfine e Dick, seja com a impossibilidade de se mover em busca de ideais que não estejam fixados no local que você mora, através da partida de Amos ou de Seth  e até mesmo com os efeitos desastabilizadores que tais novidades acabam provocando nos mais suscetíveis - a psicanálise estende sua mão para Judith. Mesmo seguindo um tom farsesco e de fácil digestão, ainda assim todas as mudanças que  Flora provoca soam facéis demais e não encontram grande resistência, o que poderia adicionar uma situação de conflito que poderia tornar a trama mais interessante. A decisão final de velha Ada de partir para Paris repentinamente chega a ser rídicula. Harmonia em excesso, quando não bem trabalhada, como no final de Muito Barulho por Nada (1992), torna-se aborrecedora, como comenta auto-irônica uma personagem de Bagdad Café (1989). Essa versão sub-sub-Jane Austen, D.H.Lawrence e Henry Fielding, mesmo que de forma galhofeira, pretende seguir a onda de adaptações de Austen para o cinema, porém o caráter do elemento feminino que se insere em uma comunidade fechada e provoca uma transformação de valores a aproxima mais de A Excêntrica Família de Antonia (1995) de Marleen Gorris que das recentes adaptações de Austen ou As Aventuras de Tom Jones (1963) de Tony Richardson. Quanto a Beckinsale, que vive a protagonista, parece uma típica encarnação da estética da geração X perdida nos anos 20. Feito para à TV. British Broadcasting Corporation (BBC)/ Thames Television/ Gramercy Pictures. 105 minutos. 

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