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sábado, 6 de setembro de 2014

Filme do Dia: Meu Irmão Nianchan (1959), Shohei Imamura




Meu Irmão Nianchan (Nianchan, Japão, 1959). Direção: Shohei Imamura. Rot. Original: Shohei Imamura & Ichirô Ikeda. Fotografia: Shinsaku Imeda. Com: Takeshi Okimura, Akiko Maeda, Hiroyuki Nagato, Kayo Matsuo, Kô Nishimura, Yoshio Omori, Taiji Tonoyama, Shinsuke Ashida.

Koichi (Okimura) é um garoto que luta contra a miséria social do ambiente no qual nasceu, dependente de uma decadente mina de extração de carvão, situação que se agrava quando fica órfão e o irmão mais velho Kiichi (Nagato) não consegue dar conta de suas responsabilidades de arrimo de família. Devido as dificuldades econômicas os quatro irmãos vivem se separando e voltando a se encontrar. Koichi é muito próximo de sua irmã mais nova, Sueko (Maeda). Ambos são adotados por um velho mineiro. Porém, o mineiro sofre um acidente de trabalho que inviabiliza a permanência das crianças. Elas são então entregues a um homem pobre que as explora impiedosamente como força de trabalho. Koichi e Sueko fogem. Eles passam pela casa do velho mineiro e procuram acolhida na casa da professora que os ensinara na escola. Sueko se separa de Koichi. Esse decide partir para Tóquio, porém logo ao chegar a cidade, após a denúncia de um homem,  é reencaminhado pelas autoridades a sua cidade natal e reencontra os irmãos.
     Visualmente portentoso, sendo que boa parte dessa força vem do modo intenso que o filme captura a dura realidade social e o cenário natural que a emoldura, dominado de modo um tanto opressivo pela montanha onde se situa a colina. Paralelos podem ser traçados nesse sentido com Sublime Dedicação (1954), de Keisuke Kinoshita. Ao contrário de Kinoshita, no entanto, o filme é bem mais esquivo ao sentimentalismo fácil. Se o comentário social e a presença de atores amadores, assim como a maciça filmagem em locações sugerem uma filiação ao Neo-Realismo, talvez seja mais profícuo pensá-lo como mais próximo de uma poética naturalista. Aliás, é uma surpresa se descobrir se tratar de um roteiro original, pois a trajetória um tanto quanto acidentada do personagem e seus vários deslocamentos, que talvez provoquem uma certa dispersão narrativas sobretudo em sua metade final, mais parecem uma tentativa de dar conta de preocupação com certa “fidelidade” ao romance que lhe teria sido fonte. Quando se compara Imamura com produções brasileiras poucos anteriores, tais como Rio 40 Graus, percebe-se não somente sua avantajada superioridade em termos de construção do ambiente, direção de atores e composição da imagem, porém sem efetuar qualquer relação dos dramas vividos pelos personagens com um panorama mais amplo dos diversos segmentos sociais da sociedade do período, como é o caso do filme de Nélson Pereira dos Santos. Aqui, essa dimensão é bastante secundarizada e não chega a ser enfrentada enquanto possível conflito dramático, surgindo em cenas esparsas como a da greve ou o do pedido de emprego do irmão mais velho junto ao gerente da companhia. A representação de Tóquio é bastante distinta da província em que a história é focada, sendo destacada sua modernidade. A percepção inicial da cidade pelo garoto, por si um empreendedor e self made man tolhido pela tenra idade e os mecanismos de controle social (dimensão que parece possuir um correspondente ufanismo identificatório com a própria nação,  no tom de voz enfático do comentário final do garoto que voltará a Tóquio para vencer na vida no futuro) seria o equivalente da de um nordestino chegando a São Paulo no mesmo período. O título em português é bastante inadequado, já que Nianchan é a denominação genérica para o segundo irmão de uma família. Nikkatsu. 101 minutos.

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