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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

The FilmHandbook #59: Frank Borzage

Frank Borzage
Nascimento: 23/04/1893, Salt Lake City, Utah, EUA
Morte: 19/06/1962, Los Angeles, Califórnia, EUA
Carreira (como diretor): 1916-61

Com o realismo amplamente observado como uma condição sine qua non do cinema sério, a obra de Frank Borzage é frequentemente considerada como melodrama desfigurado pelo sentimentalismo excessivo. De fato, ele foi um dos maiores românticos do cinema, seus protagonistas transcendendo as circunstâncias brutais de um mundo moderno e material através de um amor beirando o divino.

Tendo pago um curso por correspondência de interpretação enquanto trabalhava numa mina de prata, Borzage se uniu a a uma companhia de teatro itinerante e em 1912 iniciou uma carreira como ator em Hollywood. Em 1916 voltou-se à direção, frequentemente interpretando os papéis principais de seus próprios westerns e comédias; por volta do final dos anos 20, ele era um dos diretores mais bem sucedidos de Hollywood. Sétimo Céu/Seventh Heaven>1, que conquistou um Oscar e O Anjo das Ruas/Street Angel foram típicos de sua melhor obra: ambos lidam com amantes separados por forças além dos seus controles (respectivamente, guerra e pobreza), e retratam o amor como um estado espiritual capaz de superar  essas mesmas forças.

Recorrentemente, os amantes de Borzage descobrem o céu na terra nas mais cruéis situações; de fato, é o esforço contra a guerra (Adeus às Armas/Farewell to Arms>2), dificuldades da Depressão (O Paraíso de um Homem/Man's Castle) ou o Fascismo (Vale a Pena Viver?/Little Men What Now?, Três Camaradas/Three Comrades>3) que tornam possível a sublime fé dos personagens em uma união que transcenda o tempo e o espaço. Mesmo na comédia, Desejo/Desire, a ladra de jóias vivida por Marlene Dietrich é resgatada de suas atividades criminosas pela pureza do amor de Gary Cooper. Banhando os atores com uma luminosa profundidade de foco que contrasta com a ameaçadora escuridão que os cerca, Borzage investiu seus amantes com motivações interiores poderosas o suficiente a sobreviverem à própria morte: ao final da adaptação de Hemingway, o herói desertor carrega o corpo de sua esposa a uma janela e murmura "paz", enquanto pássaros em espiral representam o final da guerra; em Três Camaradas, escrito por F. Scott Fitzgerald e ambientado na Alemanha durante a I Guerra Mundial, as sombras dos mortos acompanham seus amigos vivos a uma vida melhor.

A câmera fluida de Borzage flutuava através de espaço vazios de personagens sugerindo forças misteriosas e invisíveis que existem além do mundo material. Ao mesmo tempo, através de seu comprometimento com a vida, os romances líricos e ternos de Borzage se tornam políticos. Em Tempestades d'Alma/Mortal Storm>4 o nazismo é perverso porque sou doutrina de ódio ameaça os laços entre as pessoas: famílias e amantes são separados quando seus dois filhos se tornam seguidores de Hitler e os denunciam para seu padrasto judeu e seus amigos livres pensadores. Noutros filmes, o poder do amor adota uma dimensão religiosa. Em Almas Rebeldes/Strange Cargo>5, condenados fugitivos conquistam a verdadeira liberdade somente quando seguem os exemplos de auto-sacrifício e tolerância definido por um deles, que é explicitamente comparado, em diversas cenas, ao Próprio Deus.

De 1940 em diante, a obra de Borzage se tornou mais convencional. Somente Ao Cair da Noite/Moonrise>6, um filme noir sobre um amargurado assassino redimido quando faz as pazes com seu passado e admite seu amor por alguém  que ainda confia nele, revela o compromisso emocional aos interesses espirituais de seus primeiros filmes. No entanto, sua melhor obra permanece entusiasmante, já que poucos diretores tematizaram os poderes regeneradores do amor com tal sinceridade evidente ou conseguiram-no expressa-lo em estilo visual tão apropriado.

Cronologia
Proveniente da tradição melodramática de Griffith, a simpatia de Borzage por excluídos prefigura a obra de Nicholas Ray, ainda que seu interesse na transcendência espiritual convide a comparações  com figuras que, sob outra perspectiva, são bastante diferentes tais como Dreyer e Bresson. Românticos hollywoodianos menos interessantes incluem John Cromwell, Clarence Brown, Edmund Goulding e Henry King.

Destaques
1. Sétimo Céu, EUA, 1927 c/Janet Gaynor, Charles Farrell, Ben Bard

2. Adeus às Armas, EUA, 1932 c/Helen Hayes, Gary Cooper, Adolphe Menjou

3. Três Camaradas, EUA, 1938 c/Margaret Sullavan, Robert Taylor, Robert Young

4. Tempestades d'Alma, EUA, 1940 c/Margaret Sullavan, James Stewart, Frank Morgan

5. Almas Rebeldes, EUA, 1940 c/Clark Gable, Joan Crawford, Ian Hunter

6. Ao Cair da Noite, EUA, 1949, Dane Clark, Gail Russell, Rex Ingram

Fonte: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres, Longman, 1989, pp. 32-4.

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