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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Filme do Dia: Uomini sul Fondo (1941), Francesco De Robertis




Uomini sul Fondo (Itália, 1941). Direção: Francesco De Robertis. Rot. Original: Francesco De Robertis, a partir de seu argumento. Fotografia: Guiuseppe Caracciolo. Música: Edgardo Carducci. Montagem: Francesco De Robertis. Dir.de arte: Amleto Bonetti & Giorgio Bianchi. Com: Felga Lauri, Diego Pozzetto, Marichetta Stoppa.
Numa frota de submarinos um não regressa ao cais após colidir acidentalmente com um navio que cruza com sua rota. Avariado, o submarino afunda. O auxílio demora a vir e os tripulantes contam com pouco mais de um dia de oxigênio no interior do submarino. Alguns homens são ejetados através de uma cápsula para a superfície e recolhidos. Uma grande operação de resgate é iniciada e após algumas tentativas malfadadas homens em escafandros conseguem soldar a lataria do submarino, possibilitando a sua imersão que é saudada efusivamente pelos seus companheiros. O primeiro ato do homem que sai do submarino não é o de saudar a multidão, mas hastear a bandeira nacional a meio pau em tributo ao único homem morto na operação, que sacrificou sua própria vida para que a operação fosse bem sucedida.
O filme de De Robertis demonstra a maciça influência e também os limites e/ou diferenças de seu filme sobre a obra de seu então discípulo Rossellini (que realizaria La Nave Bianca com ele, no  mesmo ano) e, por extensão, sobre o ciclo internacionalmente celebrado como Neo-Realismo no imediato pós-guerra. Fundamental para a estética de Rossellini será a sua mescla entre documentário (uso de amadores em suas funções habituais, por exemplo) e ficcionalização (o episódio do acidente e todo o clamor que se segue). Ainda mais radicalmente que a trilogia realizada por Rossellini no período, o filme abdica de qualquer protagonista em favor da coletividade apresentada, mas esse talvez seja o único quesito em que o filme consegue ser mais radical e não necessariamente com melhores resultados. De fato, aqui a história ficcional que é criada, mesmo que longe do esteréotipo das histórias de amor que eram habitualmente escolhidas para dar uma dimensão atrativa e ficcional à “aspereza documental” de suas narrativas, e seguida à risca por Rossellini em dois dos filmes de sua trilogia, acaba soando bem mais romanesca e convencional, ao apelar para motivos bastante familiares do cinema clássico como o prazo-limite para a consecução ou não da ação a ser resolvida. E isso fica ressaltado de forma semi-patética como o filme demonstra que o país literalmente para e escuta no rádio as notícias sobre a situação dos marinheiros no submarino ressaltando a ideia de comunidade nacional ausente mesmo de filmes que fazem uma apologia mais direta ao regime, como o seu posterior Alfa Tau!, bem mais convencional em termos dramáticos, também envolvendo tripulantes de um submarino, mas em sua maior parte observados em folga. O tom apologético aqui, que trai notáveis influências do cinema de montagem soviético dos anos 20, como os brevíssimos planos e o final, em que a saudação dos marinheiros pretende ser o equivalente épico de um final semelhante em O Encouraçado Potemkin (1925), de Eisenstein, conta com o diferencial que é a nota triste, lembrada enfaticamente pelo primeiro tripulante a desembarcar do navio, da morte de um dos soldados – enquanto a morte de um dos marinheiros é motivo para a revolta que provocará a explosão de vitória ao final na produção soviética, aqui ela vem refrear o ânimo justamente dessa comemoração; de todo modo, deve-se levar em conta que se encontra longe de dissonante do ideário fascista, sobretudo seguido pelo cinema alemão, que identifica o heroísmo com a morte gloriosa pelo bem da pátria. Para além disso, cumpre lembrar um retrato involuntário das diferenças de classe por demais explícito na disparidade de mundos entre oficiais e marujos, presentes até no porte físico e uma perspectiva que mesmo demonstrando o auto-controle da tripulação tampouco deixa de evidenciar a profunda melancolia e condições precárias de trabalho, que a relação paternalista por parte dos oficiais ao invés de ocultar apenas acentua. Por fim, vale ressaltar que o filme ao deslocar a questão do conflito com outras nações para uma operação de salvamento que apenas envolve compatriotas, reforça ainda mais os laços de união nacional e argutamente foge de ter que tematizar diretamente a participação italiana na Segunda Guerra, que estava longe de ser unânime no país. Scalera Film S.p.a. 94 minutos.


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