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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Filme do Dia: Redentor (2004), Cláudio Torres




Redentor (Brasil, 2004). Direção: Cláudio Torres. Rot. Original: Elena Soárez, Fernanda Torres & Cláudio Torres. Fotografia: Ralph Strelaw. Montagem: Vicente Kubrusly. Dir. de arte: Tuli Peake. Figurinos: Marcelo Pires. Com: Pedro Cardoso, Miguel Falabella, Fernanda Montenegro, Camila Pitanga, Fernando Torres, Stênio Garcia, Enrique Diaz, Mauro Mendonça, Tony Tornardo, Lúcio Mauro, Paulo Goulart, Tonico Pereira, José Wilker, Domingos de Oliveira.
Célio Rocha (Cardoso) é um jornalista de classe média que teve sua vida transformada desde que o pai, Justo (Torres), resolveu comprar o apartamento no prédio que era propriedade do pai de seu amigo de infância, Otávio Sabóia (Falabella). Com o suicídio do pai de Otávio e a invasão do apartamento por moradores de uma favela vizinha, parece cada vez mais distante o sonho de por os pés no apartamento. Indignado com a situação, Célio forja uma reportagem provocadora, aproveitando-se da beleza e boa vontade de uma favelada, Soninha (Pitanga). Após nada conseguir em Brasília, Otávio Sabóia trama com Célio a possibilidade de ele transferir a fortuna restante que possui para a conta de Célio, que ficaria com 10% de tudo. Porém, quando Célio liga para a mãe (Montenegro) para contar tudo, fica sabendo que o pai morrera quando fora visitar o apartamento, motivado pela reportagem do filho, quando da  invasão do prédio pela polícia. Célio, que agora possui toda a fortuna de Sabóia em seu nome, completamente transtornado, desaparece e, ensandecido e maltrapilho, tem visões de Deus. Preso, afirma para Otávio que ele deve dar todo o dinheiro às vítimas do engodo de seu pai. Quando foge da prisão, sequestra Otávio e promete à Sonia e a sua família que eles terão o dinheiro da época que trabalharam na construção de volta. O que ele não sabe é que não se trata de 98 e sim de 198 famílias que foram lesadas no golpe do apartamento, não havendo dinheiro para todos.
Essa produção consegue um feito raro na recente produção nacional dita de “qualidade”, unir valores de produção com uma narrativa que, mesmo sem abdicar de seu perfil popular, agrega fortemente elementos da realidade brasileira. Nesse sentido, a estrutura circular da narrativa que parte de seu protagonista morto para retornar a ele tem como matriz Crepúsculo dos Deuses (1950), de Wilder e sua fotografia marcada pelo azul escuro, montagem acelerada e efeitos de computação sugerem uma aproximação maior com o universo de fantasia do cinema de entretenimento de moldes internacionais. Porém, não resta dúvida – e aí reside o seu maior apelo – de que sua representação de uma chorosa classe média decadente que se engalfinha em um reduzido apartamento e que tem que lutar não apenas legalmente contra os interesses de empreiteiros falidos como contra favelados completamente à margem das instituições sociais, é curiosamente próxima do que a pauta jornalística normalmente observa com olhar estanque. De uma maneira geral feliz na sua apropriação de facetas da sociedade brasileira em uma forma narrativa convencional, inclusive tripudiando convenções como a do amor inter-classes na relação entre Célio e Soninha, o filme derrapa apenas no seu final. Se a apropriação pelos favelados do controle da situação na seqüência final do prédio, quando percebem que Célio e Otávio são duas faces de uma mesmo rosto é bem interessante, a aparição final de Célio configurado tal e qual a própria divindade, que acaba por beneficiar, ainda que involuntariamente, seu seleto grupo de pessoas próximas, soa como uma desnecessária glorificação dessa mesma classe média que o filme soubera expressar bem dentro de seu olhar cínico da realidade. Ao mesmo tempo que a mescla entre humor e comentário social é herdeiro das chanchadas da Atlântida e de posturas mais reflexivas e com pretensões de irem além do entretenimento como Tudo Bem (1978), de Jabor e O Príncipe (2000), de Giorgetti, sua bem sucedida apropriação de traços estilísticos dos filmes de gênero paralelo a seu oblíquo panorama da realidade brasileira sugerem uma aproximação com o cinema de Beto Brant, sobretudo O Invasor. Conspiração Filmes/Warner Bros./Globo Filmes/Tibet Films/Quanta. 95 minutos.


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