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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

The Film Handbook#57: Alexander Mackendrick


Alexander Mackendrick
Nascimento: 08/09/1912, Boston, Massachusetts
Morte: 22/12/1993, Los Angeles, Califórnia
Carreira (como diretor): 1949-1967

Como Robert Hamer, Alexander Mackendrick foi um dos melhores e menos típicos diretores dos estúdios Ealing. Talvez mais conhecido pelas quatro comédias que realizou lá ele, no entanto, criou filmes de raro negrume, marcados por uma pessimista - embora engenhosa - visão da crueldade humana, corruptibilidade e auto-obsessão.

Nascido durante uma visita de seus pais aos Estados Unidos, Mackendrick cresceu na Escócia e estudou na Glasgow School of Art. Seu primeiro emprego no cinema foi como animador de publicidades; durante a guerra, trabalhando em documentários e filmes de propaganda, ele foi contratado pela Ealing como roteirista. Após dois anos estrearia como diretor com Alegrias a Granel/Whisky Galore!, aparentemente, uma caracteristicamente extravagante fantasia cômica: ilhéus escoceses se unem numa batalha contra o autoritarismo britânico para obter uma carga ilegal de uísque abandonada na costa. Mackendrick, no entanto, evitou o habitual populismo sentimental da Ealing ao enfatizar a crueldade da humilhação sofrida pelo pomposo, mas honesto,  burocrata da guarda territorial. Ele então conquistou um equilíbrio raro de simpatias que se repetem em O Homem do Terno Branco/The Man in the White Suit, uma cáustica sátira sobre as relações industriais que cataloga as objeções auto-interesseiras levadas a cabo por patrões e empregados contra o inventor ingênuo e idealista de uma fábrica que repele a sujeira e nunca se cansa. Na verdade, Mackendrick revelou a sociedade britânica como apática, reacionária e opressivamente consciente das classes sociais - qualidades aos quais se somam dimensões tragicamente destrutivas em Martírio do Silêncio/Mandy>1, um sério, sensível e irresistivelmente comovente drama sobre a surdez de uma garotinha e os efeitos no casamento de seus pais. Superficialmente a respeito de uma deficiência, o filme é de fato uma análise da alienação e do sufocante patriarcalismo: a recusa do pai de encarar as demandas da filha são um sinal de sua imaturidade que ameaça tanto a educação da garota quanto a inteira unidade familiar.

A melhor obra de Mackendrick nos estúdios Ealing foi Quinteto da Morte/The Ladykillers>2, comédia macabra na qual quatro vilões passam a matar uns aos outros quando se encontram incapazes de assassinar a gentil proprietária cuja casa é o esconderijo deles. As atuações são maravilhosamente sutis, o ritmo soberbo, porém o mais memorável de tudo é a compreensão implícita da experiência corrupta inadvertidamente derrotada pela casual inocência. Esse tema foi repetido na obra-prima de Mackendrick, A Embriaguez do Sucesso>3, uma exploração deslumbrantemente cínica da ambição oportunista, traição e maldade cotidiana no mundo jornalístico nova-iorquino. Burt Lancaster e Tony Curtis deram suas melhores interpretações como, respectivamente, o insanamente poderoso colunista de fofocas e um agente publicitário bajulador; a hipocrisia impiedosa do último se estende a enquadrar a amante do primeiro em um delito envolvendo drogas, e o filme pinta um implacavelmente sardônico retrato da ganância e de uma intriga de cães se entredevorando através de diálogos vividamente estilizados, brilhantemente sombrio trabalho de câmera e uma insistência melancólica nas fraquezas humanas.

A obra do cineasta nunca mais pareceu tão segura, mesmo com seus dois próximos filmes apresentarem uma idêntica  consciência sagaz da propensão do gênero humano para a crueldade e auto-preservação. Paradoxalmente, ambos dizem respeito a crianças: em Sozinho Contra a África/Sammy Going South, um jovem, órfão de guerra no Egito faz uma longa e solitária odisseia até Durban em busca de sua tia, enquanto em Vendaval na Jamaica/A High Wind in Jamaica, um grupo de crianças é capturada por piratas. Evitando os clichês de filmes infantis, Mackendrick não somente apresenta a habilidade das crianças para sobreviverem, transcender e mesmo ignorar o perigo e a morte, mas também sua capacidade de infligir dor e violência, seja acidentalmente ou por rancor. São os adultos que mais sofrem; a inocência egoísta e parcial protege as crianças.

Após satirizar sutilmente a elite californiana em Não Faça Onda/Don't Make Waves, Mackendrick abandonou a direção e passou a ensinar cinema. Embora A Embriaguez do Sucesso tenha abraçado o cinismo de uma maneira ausente do restante de sua obra, sua carreira é notável por sua investigação consistentemente anti-sentimental dos cantos sombrios da psiquê humana. Seu senso visual preciso não somente o qualificam como um excelente artesão mas foi o perfeito paralelo estilístico para sua visão de mundo friamente analítica e moralmente corrosiva.

Cronologia
Se Mackendrick provoca a menção de Hamer, também pode ser útil compara-lo - distantemente - com figuras como Hawks, Sturges e Wilder. Se alguém pode ser como seguidor de seus passos ele é Forsyth, apesar de seus filmes serem mais suaves e calorosos.

Leituras Futuras
1. Martíro do Silêncio, Reino Unido, 1952 c/Mandy Miller, Jack Hawkins, Phyllis Calvert

2. Quinteto da Morte, Reino Unido, 1955 c/Alec Guiness, Katie Johnson, Cecil Parker

3. A Embriaguez do Sucesso, EUA, 1957 c/Burt Lancaster, Tony Curtis, Susan Harrison

Fonte: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, pp. 181-2.

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