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domingo, 24 de janeiro de 2016

Filme do Dia: O Advogado do Diabo (1997), Taylor Hackford


Advogado do Diabo (1997) Poster


O Advogado do Diabo (The Devil’s Advocate, EUA, 1997) Direção: Taylor Hackford. Rot.Adaptado: Jonatham Lamkin&Tony Gilroy, baseado no romance de Andrew Heiderman. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Música: James Newton Howard. Montagem: Mark Warner. Com: Keanu Reeves, Al Pacino, Charlize Theron, Jeffrey Jones, Judith Ivey, Connie Nielsen, Heather Matarazzo.
           Kevin Lomax (Reeves), ganha fama em Gainsville, Flórida, ao conseguir inocentar professor que praticamente era dado como condenado de sevícias sexuais com suas alunas. Quando comemora a vitória do caso em uma discoteca é abordado por um homem que o convida para trabalhar em Nova York. Sua mãe (Ivey) o desaconselha, comparando a cidade à Babilônia, mas tanto Kevin quanto sua esposa, Mary Ann (Theron), se animam com a quantia que irá receber. Após se instalar em apartamento na cidade, é apresentado ao seu chefe, John Milton (Pacino), dono de uma misteriosa corporação especializada em conseguir a impunidade para os mais diversos tipos de criminosos. Apresentados a uma festa onde se encontra boa parte da nata da sociedade nova-iorquina, Mary Ann se torna cada vez mais incomodada com a obsessão de Kevin pelo trabalho. Nem o luxuoso apartamento que passam a morar, no mesmo edifício de Milton, nem a escalação de Kevin para ser o advogado de defesa do crime mais badalado da cidade, conseguem convencer a crescente apatia e indiferença de Mary Ann, que se certifica de que devem voltar à sua cidade natal quando, experimentando roupas com duas amigas do círculo de Milton, consegue visualizar uma figura demoníaca em uma delas. Cada vez mais pressionado com o caso em que se encontra envolvido, Kevin é abordado abruptamente quando passeia pela rua por Eddie Barzoon (Jones), que furioso reclama ao saber que agora Kevin se tornara sócio principal da empresa, ocupando o lugar que fora seu, fato que ele ainda desconhecia. Kevin comenta o fato com Milton e Barzoon é assassinado pouco tempo depois quando fazia cooper. A essa altura Mary Ann se encontra à beira da loucura, vitimada por visões como a de uma criança que encontra a noite em seu apartamento e que segura vísceras, enquanto ela percebe seu ventre encharcado de sangue. Interrogado por Milton se não pretende passar o caso para outro advogado, Kevin diz que pretende ir até o fim, para somente após cuidar de Mary Ann. Internada na ala psiquiátrica de um hospital, Mary Ann comete o suicídio, enquanto Kevin se encontra a ponto de enlouquecer com tantas pressões: sua mãe, recém-chegada, conta-lhe que seu pai fora um garçom que conhecera em uma viagem a Nova York na década de 60, e que se aproveitara de sua fragilidade, que ela reconhecera na figura de Milton; a notícia de que o professor que absolvera cometera um crime. Kevin tem um confronto final com Milton, onde este o acusa de ter sido responsável pela morte de sua esposa, fazendo com que ele se depare com sua principal fraqueza - a vaidade - já que lhe concedera o livre arbítrio entre decidir por cuidar de sua esposa ou continuar com o caso, da mesma forma que fizera com a mãe de Kevin. Instado à gerar descendentes para continuar a linhagem diabólica de Milton, com sua própria meia-irmã, Kevin  na hora do ato sexual decide pelo livre arbítrio de se suicidar quebrando com todo o efeito demoníaco e retornando ao banheiro do tribunal onde está para ser decidido o caso do professor. Renuncia a continuar com a defesa do cliente, para a estranheza de todos os presentes. Quando se retira, interpelado por um repórter que pretende que ele ceda uma entrevista para um dos mais famosos programas da televisão, Kevin titubeia, mas  pede que ele se encontre com ele no dia seguinte. Quando ele se afasta o repórter se transforma em John Milton, que admoesta sobre uma das maiores fraquezas humanas: a vaidade.
Inteligente e original fábula moral que engenhosamente adapta o universo moral de longa tradição da lenda faustiana à sociedade contemporânea, realizando ao mesmo tempo um divertido entretenimento e uma narrativa passível de reflexões complexas, como as referentes a união entre religiosidade e sexualidade como fonte de neuroses, culpa e também valores éticos ( a cena em que Mary Ann abre o cobertor e se mostra nua e com marcas de seu contato carnal com Milton, em plena igreja, é uma das mais fortes do filme). O filme é recheado de diálogos sagazes, como o que Milton explica a Kevin os motivos que o levaram a se interessar primordialmente pela instituição judiciária: ela substitui no mundo moderno o papel que antes fora da Igreja, como reguladora-mor das relações sociais e, portanto, grandemente estratégica. Utilizando-se magistralmente das locações em Nova York, que passa a ser uma coadjuvante da trama, o filme só escorrega na fraca direção de atores (tanto Reeves quanto Theron são extremamente fracos), que chega quase a comprometer a credibilidade da trama, com exceções  para Jones e, principalmente, a magistral interpretação de Pacino. A engenhosidade do roteiro dispensaria até mesmo os efeitos especiais que, no entanto, foram utilizados de uma forma discreta que não chega a comprometer a prioridade do suspense psicológico. Filme bem acima da média produzida em Hollywood no momento, não se dobrando totalmente ao impositivo happy end, uma das fraquezas de Titanic, apresentando um final deliciosamente ambíguo. Referências constantes ao clássico O Bebê de Rosemary (1968) de Roman Polanski, seja no relacionamento familiar beirando o incestuoso dos membros da corporação, seja na seqüência em o casal se muda para o novo apartamento, entre outras. Associações, ainda que indiretas e subliminares, podem ser traçadas com A Sombra de uma Dúvida (1945) de Hitchcock, como seu cínico desvelamento de toda a série de hipocrisias que sustentam subterraneamente a sociedade. Referência óbvia ao autor de Paraíso Perdido no personagem vivido por Pacino. Warner. 138 min.


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