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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Filme do Dia: Danryu (1957), Yasuzô Masumura




Danryu (Japão, 1957). Direção: Yasuzu Masumura. Rot. Adaptado: Yasuzo Masumura & Yoshio Shirazaka, a partir do romance de Kunio Kishida. Fotografia: Hiroshi Murai. Música: Tetsuo Tsukahara. Montagem: Tatsuji Nakashizu. Dir. de arte: Atsuji Shibata. Com: Jun Negami, Sachiko Idari, Hitomi Nozoe, Eiji Funakoshi, Junko Kano, Atsuko Kindaichi, Akihiro Miwa, Chieko Murata.
Yuzo Hiashi (Negami) foi contratado pelo patriarca da família Shima para pôr ordem nos negócios de um hospital da propriedade da família. Além da corrupção e da ineficiência, boa parte do dinheiro é desviada para alimentar parasitas como o filho do magnata quase falido, Yasuhiko (Funakoshi). Hiashi se apaixona pela outra filha do patriarca, Keiko (Nozoe), que, embora secretamente nutra sentimentos por ele, demonstra um falso interesse pelo pretendente favorito do pai, Ishido (Hidari). Hiashi conta com a ajuda de uma enfermeira espiã, Eiko (Kano), para descobrir quem trabalha ou não no hospital. O que ele só descobrirá depois, no entanto é que Eiko se encontra obsessivamente apaixonada por ele. Após a morte do patriarca, Hiashi passa a ser o gerente dos interesses da família. Ele também consegue descobrir que Ishido possui uma amante e revela a notícia para Keiko. Essa, após flagrar o noivo com sua amante rompe com ele após perceber o quão calculista ele é. Hiashi é vítima  do grupo de pessoas que demitiu no hospital e para fugir de suas agressões, é conduzido por Eiko, correspondendo finalmente a dedicação que ela tem tido por ele. Hiashi é destituído da missão de gerente dos negócios da família, por pressão de Yasuhiko, desgostoso com os cortes em seu estilo de vida e influente o suficiente para manipular a madrasta. Ele volta a encontrar Keiko, que lhe oferece sinceramente seu amor, mas ele já se encontra vinculado a Eiko, com quem casará, abandonando de vez o hospital, agora sob o comando do corrupto Ishido.
Esse melodrama de cores fortes tanto em termos dramáticos quanto na sua fotografia, talvez se torne ainda mais interessante quando confrontado com seus congêneres contemporâneos norte-americanos. Ainda mais do que àqueles os personagens expressam verbalmente seus sentimentos mais profundos, algo que, a determinado momento, até mesmo Hiashi e Keiko, em momentos diferentes, farão um para o outro. Ao contrário daqueles, e talvez das narrativas clássicas em geral, o que talvez seja o seu feito mais interessante, o filme não destrincha, ao final, o imbróglio amoroso juntamente com o drama que o transcende. De fato, nem Hiashi ficará com Keiko – sendo que a despedida dessa, no mais belo plano do filme bem poderia ter sido igualmente o seu último – nem tampouco o desenlace amoroso, ainda que com outra e não a que ocuparia o seu lugar no melodrama clássico norte-americano significa a resolução dos outros problemas. Pelo contrário, a um final de certo modo soturno, pois se Hiashi decide iniciar uma nova vida com Eiko, e sua garra promete potencialmente um futuro promissor para o casal, a realidade que se vê no presente é um hospital no qual os corruptos e o irmão dissoluto de Keiko  levando a melhor, tampouco o herói cumprido com a façanha que havia prometido ao patriarca, algo impensável em termos de seu equivalente hollywoodiano. Masumura, portanto, ironiza a partir dos códigos do gênero, como habitualmente faz com maestria (como é o caso do filme de yakuza em Afraid to Die), porém longe de romper com os mesmos. Aqui Eiko costura as intrigas, sendo aquela personagem que “tudo vê, tudo ouve” e é apresentada de uma forma tão antipática e infantilizada que jamais se poderá supor que efetivamente acabará ficando com o herói. Quando se pensa o olhar habitualmente simpático dedicado às suas personagens femininas, fortes e resolutas, tanto Keiko quanto Eiko parecem um tanto deslocadas. Ao menos superficialmente. A primeira, por ter sua postura emancipada apenas enquanto farsa e sinônimo de orgulho de classe. A última, por ser a jovem tola e romântica, manipulável sem medir os custos em relação ao objeto de seu amor. Porém, talvez subliminarmente o filme aponte que Keiko passou de uma figura superficialmente para efetivamente autônoma, a partir do momento em que deixa de lado a ideia de casamento, ainda que contra à vontade, para pensar em sua carreira futura, ao contrário de sua “rival”, feliz o suficiente apenas por ter conquistado o seu amado, anulando-se sempre enquanto pessoa. O romance de Kishida já havia sido adaptado em 1939, por Kozaburo Yashimura e voltaria a sê-lo nove anos após, sob direção de Yoshitaro Nomura. Daiei. 94 minutos.


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