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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

The Film Handbook#102: Michelangelo Antonioni

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Michelangelo Antonioni
Nascimento: 29/09/1912, Ferrara, Itália
Morte: 30/07/2007, Roma, Itália
Carreira (como diretor): 1943-2004

Se os filmes de Michelangelo Antonioni refletem seus próprios sentimentos sobre a vida, e existe pouca dúvida que o façam, é curioso que ele os realize ao final de contas já que, apesar de tentarem expressar e esclarecer emoções humanas, ao mesmo tempo implicam que toda comunicação humana é fútil, estéril, mesmo impossível.

O jovem Antonioni se envolveu em teatro estudantil e crítica cinematográfica, antes de trabalhar como roteirista para Rossellini e assistente de direção para Carné. Após realizar uma série de documentários, ele dirigiria seu primeiro longa ficcional, Crimes da Alma/Cronaca di un Amore>1 em 1950. Um estudo brando sobre a culpa sentida por dois amantes quando o marido da esposa, que haviam considerado matar, morre em um acidente de carro, antecipa a austera melancolia e ausência de uma narrativa repleta de eventos dos seus filmes posteriores. De fato, ao longo dos anos 50, ele refinou seu frio estilo ao examinar, repetidamente, as consequências do amor e da fadiga espiritual da burguesia, e a forma que o ambiente afeta e reflete os estados mentais. Em O Grito/Il Grido>2, a protagonista - excepcionalmente da classe operária e não média, em se tratando de Antonioni - é abandonada por seu amante e embarca numa odisseia emocional e física através de um chuvoso e cinza Valé do Pó, antes de finalmente retornar à casa, onde aparentemente comete o suicídio.

A história cíclica, a ênfase no isolamento e na falta de sentido, e o uso simbólico das paisagens retornaram com grande força em A Aventura/L'Avventura>3, o primeiro filme de uma vaga trilogia (A Noite/La Notte e O Eclipse/L'Eclisse se seguiram) sobre mulheres agitadas e desencantadas e homens fracos e inseguros; foi, dada o desgosto de Antonioni com as narrativas convencionais, um surpreendente sucesso internacional. A determinado momento do filme e sem explicação, uma personagem central desaparece de uma festa de férias. Poucos do grupo - ricos, elegantes e entediados - parecem se importar com o que aconteceu, e enquanto o negligente amor da garota e sua melhor amiga (Monica Vitti, no primeiro dos muitos papéis para o diretor) conduzem uma hesitante busca ao longo da ilha deserta, iniciam uma relação desconexa. Pouco preocupado ele próprio com as razões do súbito desaparecimento da moça, Antonioni pelo contrário foca sua atenção no mal estar moral que impulsiona seus amigos mais próximos de traírem sua memória.

Se o ritmo lento e elíptico do filme e sua abordagem enigmática aos personagens e situações confundiram muitos, seu proeminente e límpido estilo visual estava perfeitamente antenado com a moda dos anos 60. Uma primeira experiência com as cores em Deserto Vermelho/Il Deserto Rosso - com maças pintadas de cinza e uma plantinha de branco, correspondendo ao estado neurótico de sua heroína - foi seguido por uma visita a "Londres do swing" para realizar Blow Up/Blow Up - Depois Daquele Beijo>4. Mesclando mistério com metafísica o filme foi um bizarro e convincente enigma sobre a percepção visual e, assim, do próprio cinema: em um intrigante quarto escuro um fotógrafo de moda expõe o filme de um assassinato que pode ou não ter acontecido, e Antonioni questiona o ditado que a câmera nunca mente.

Desse retrato pouco convincente retrato da cultura da Carnaby Street o diretor se deslocou para a América e a insatisfação da juventude. Apesar de Zabriskie Point>5 ter sido semelhantemente ingênuo em sua análise de uma sociedade à beira do colapso, o olho de Antonioni para a paisagem americana - profusão de letreiros, o Vale da Morte - foi tão forte quanto sempre. Um plano final longo e extravagante da explosão de uma casa inteira, voando lentamente pelo espaço, foi uma imagem formalmente ousada do consumismo caótico. Mais bem sucedido, outro filme de língua inglesa, Profissão: Repórter/Professione: Reporter>5 provou ser sua melhor obra em anos. Ambientado sua maior parte no Norte da África e na Espanha, e sobre um desiludido jornalista televisivo que troca de identidade com um terrorista que encontra morto no quarto de hotel, é uma narrativa hipnótica da tentativa vã de um homem de escapar ao seu próprio destino. O deserto é um estado mental, o jornalista um caso perdido, mas o filme, com seu entusiasmo tranquilo e explosões esporádicas de humor, encontra-se prazerosamente livre do derrotismo espiritual que marca a obra anterior de Antonioni.

Recentemente, no entanto, ele focou em experimentações com vídeo. O Mistério de Oberwald/Il Mistero de Oberwald foi uma versão falha de A Águia de Duas Cabeças de Cocteau, e o visualmente impressionante Identificação de uma Mulher/Identificazione di una Donna, mapeando a fútil busca de um diretor pela atriz perfeita para seu novo filme, um retorno ao pessimismo árido dos primeiros anos. Porém a reputação de Antonioni como um diretor de raro intelecto permanece intacta: a precisão visual com que cria paralelos entre as emoções de seus personagens e o mundo exterior é prejudicada somente por uma inflexibilidade filosófica que frequentemente beira o maneirismo.

Cronologia
A despeito de seu interesse pela burguesia, as raízes de Antonioni residem no Neorrealismo e Rossellini parece uma influência particular. Tanto suas narrativas elípticas quanto seu estilo visual semi-abstrato foram influentes no cinema de arte dos anos 60; pode-se traçar paralelos com figuras tão diversas quanto Bergman, Tarkovski, Wenders e Pakula.

Destaques

1. Crimes da Alma, Itália, 1950 c/Lucia Bosé, Massimo Girotti, Ferdinando Sarmi

2. O Grito, Itália, 1957 c/Steve Cochran, Alida Valli, Betsy Blair

3. A Aventura, Itália, 1960 c/Monica Vitti, Gabrielle Ferzetti, Lea Massari

4. Blow Up - Depois Daquele Beijo, Reino Unido, 1966 c/David Hemmings, Vanessa Redgrave, Sarah Miles

5. Zabriskie Point, EUA, 1969 c/ Mark Frechette, Daria Halprin, Rod Taylor

6. Profissão: Repórter, Espanha, 1975 c/Jack Nicholson, Maria Schneider, Jenny Runacre

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 14-16.

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