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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Filme do Dia: La Nave Bianca (1941), Roberto Rossellini & Francesco De Robertis

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La Nave Bianca (Itália, 1941). Direção: Roberto Rossellini & Francesco De Robertis. Rot. Original: Roberto Rossellini & Francesco De Robertis, sob argumento do último. Fotografia: Giuseppe Caracciolo. Música: Renzo Rossellini. Montagem: Eraldo Da Roma. Dir. de arte: Amleto Bonetti.
Marinheiro sonha encontrar sua amada “madrinha”, a quem escreve cartas, sem a conhecer pessoalmente, sendo vítima de troça de seus companheiros. Ele se encontra feliz pois finalmente marcou um encontro para conhecê-la pessoalmente, porém chega atrasado ao embarque do bote para terra. Uma operação não esperada de guerra se sucede e em meio ao combate ele é ferido gravemente, sendo internado em um navio-hospital. Lá é cuidado por ninguém menos que é sua madrinha, algo que somente descobre ao perceber em seu traje o mesmo medalhão que ela havia lhe presenteado.

De longe, trata-se do mais fraco dos três filmes dirigidos por Rossellini em sua “trilogia das forças armadas”, mesmo que não tenha sido creditado a ele. Fazendo uso somente de atores amadores (que tampouco são creditados e faziam parte do próprio grupo que operava no navio) e locações, na melhor tradição que posteriormente seria vinculada ao Neo-Realismo, percebe-se que somente tais cacoetes não estreitam sua aproximação com o maior realismo cinematográfico. Aqui, tal proposta estética realista, cara ao regime, sucumbe diante de um sentimentalismo tresloucado ausente nos dois outros filmes. As interpretações de amadores, por exemplo, tem como efeito menos a sorte de enfraquecer a dimensão demasiado dramática dos diálogos muitas vezes e aproximar os personagens de tipos populares, como efetiva magistralmente De Sica em seu Ladrões de Bicicleta (1948) ou Visconti em A Terra Treme (1947), do que reproduzirem o que de pior havia na dramaturgia convencional hollywoodiana, com olhares e posturas demasiado excedentes. Para completar a mistura indigesta, sobra a música habitualmente triunfalista de Renzo Rossellini e as evocações visuais ao Encouraçado Potemkin (1925), em diversos momentos do filme, acompanhando-o do início (o movimento rotatório dos canhões no navio) ao final (a comemoração dos marinheiros com o retorno do encouraçado italiano, mesmo que aqui observada de forma individual primeiro, antes de coletiva), para não falar da cena em que os marinheiros são apresentados em suas redes em dormitório coletivo, numa proposta de representação mais realista do que propriamente pictórica com que tal imagem extrai sua força no filme soviético. De todo modo, a incorporação de variadas referências – a própria medalha, elemento dos mais convencionais nos rocambolescos melodramas, como sinal de identificação entre personagens que se perdem, também é observada num primeiro momento dependurado, tal e qual o pince-nez do médico no filme soviético – ao filme de Eisenstein vão contra a exclusão de estilos antípodas tal como pensada por um influente autor como André Bazin. Um dos piores momentos do filme é o modo infantilizado com que é selada a representação de devoção do marinheiro por sua madrinha e o quanto uma das poucas inserções atemporais do filme, senão a única, dá-se justamente numa evocação dela, mesmo que a imagem sugira mais inicialmente ser dele, o associando com uma das crianças que ensina. Ela acrescenta logo a seguir, no entanto, que no caso dele há “algo diferente”. Dos três filmes certamente é o que igualmente incorpora mais referências explícitas de apologia ao regime, seja na saudação de toda a tropa ao Duce, também lembrando-se do líder monárquico logo após alguém exclamar “longa vida ao rei”. O peso demasiado excedente de uma marca “oficial” no filme provavelmente se dá igualmente por ter sido o único dos três a ter sido produzido diretamente pelas Forças Armadas. No final, fica bastante patente a incorporação de elementos convencionais do cinema clássico hollywoodiano, como a resolução da história de amor e da ansiedade com a chegada do encouraçado se concretizando não apenas ao mesmo tempo, mas praticamente no mesmo plano.  A versão original conta (ou contava) com 9 minutos a mais. Centro Cinematografico del Ministero della Marina/Scalera Film S.p.a para Scalera Film S.p.a. 68 minutos.

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