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domingo, 20 de novembro de 2016

Filme do Dia: Gen Pés Descalços (1983), Mori Masaki


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Gen Pés Descalçõs (Hadashi no Gen, Japão, 1983). Direção: Mori Masaki. Rot. Original: Keiji Nakasawa. Fotografia: Kinishi Ishikawa. Música: Kentaro Haneda. Montagem: Harutoshi Ogata. Dir. de arte: Kazuo Oga.
Hiroxima, agosto de 1945. Gen Nakaoka, sofre com a família os infórtunios da fome, mas são poupados dos bombardeios que assolam todas as grandes cidades japonesas. O cotidiano de Gen é ir, juntamente com o irmão mais novo, Shinji, ajudar o pai, Daikichi, a tentarem vender as pinturas que ele faz, para conseguirem comprar algo para comer. Certo dia, cansados e famintos os irmãos disputam um pedaço de batata doce, que é o que resta em casa e são repreendidos pela irmã mais velha, Eiko, sobre a necessidade da mãe se alimentar, pois se encontra grávida. Os irmãos, agora conscientes, conseguem encontrar um peixe, mas descobrem que faz parte da propriedade de um velho e ignorante senhor. Esse bate em Gen, mas quando fica sabendo da verdadeira história se sente compadecido e ajuda a família. Num dia em que Gen vai para a escola ocorre a explosão da bomba atômica e ele é testemunha de boa parte dos horrores sofridos como gente em estado de decomposição, observar o pai e os irmãos serem engolfados pelo fogo que grassa e a chuva ácida. Conseguindo escapar com a mãe, ele a auxilia no nascimento de sua nova irmã, Tomoko. A situação de fome persiste e apesar de todos os esforços dele e do que ele acredita ser o irmão mais novo reaparecido, auxiliando no tratamento de um homem enfermo de uma rica família, chegam tarde com a quantidade exorbitante de leite, pois Tomoko falecera.

Num estilo visual não muito distinto do anime japonês e buscando um tom semi-documental, na sua descrição gráfica dos ataques ou na intrusão, nem sempre orgânica, de uma narração over que, a exceção de comentários como a proposta de trégua imposta pelos americanos, recusada pelo governo japonês e que resultou no bombardeamento posterior de Nagasaki, não vai muito além do lugar comum sabido, o filme se aproxima bem mais do processo de identificação, associado sobretudo com o universo fabular da ficção, com o núcleo familiar de Gen. De certo modo, é sob sua perspectiva que se pretende apresentar o que é exposto, servindo a narração onisciente justamente para uma inócua e didática emolduração do contexto onde o drama familiar ocorre, como se a perspectiva do garoto somente não fosse capaz de dar conta. O processo de identificação, de certa forma, torna-se facilitado pelo fato do pai da família não compartilhar do orgulho insano, aos olhos ocidentais, na vitória de seu país, algo que é compartilhado por sua esposa e fica bastante delimitado no momento em que ela afirma para um homem que chora por conta de ter acabado de saber que o Japão havia se rendido, de que sente muita pena de que isso não tivesse ocorrido antes. Identificação também auxiliada por nem Gen, nem sua mãe, nem seu pretenso irmão (não se chega a uma afirmação definitiva, embora pareça evidente se tratar do mesmo garoto que aparentemente havia sucumbido nas chamas) terem sofrido o processo de literal desumanização do que se compreende habitualmente como ser humano, apresentado por vítimas que se contaminaram mais gravemente pela radiação. Essas  são observadas no seu aspecto  grotesco que, justamente por fazer uso da animação, paradoxalmente apresenta minúcias de detalhes realistas que se tornaram praticamente proibitivas de serem flagradas por câmera fotográficas ou cinematográficas, seja por questões éticas ou pelo fato de terem ocorrido imediatamente após os bombardeios, como a comum expulsão dos globos oculares de suas órbitas. A exceção é o próprio Gen, que perde o cabelo, o que não chega exatamente a ser algo catastrófico no contexto em questão, ainda que no momento ele acredite que terá o mesmo destino do soldado que tentou salvar e acabou morto, que apresentara sintomas semelhantes. E, como um pouco de alento diante das situações limítrofes apresentadas, o filme finda com um sopro de esperança, representado pelo nascimento do trigo na região atingida, algo que se acreditava que não ocorreria senão em 80 anos e com a volta do nascimento do cabelo de Gen. Cumpre ressaltar que mesmo que as imagens que representem a realidade pós-bomba se encontrem longe de um realismo documental em animação ao estilo de Valsa com Bashir, talvez se torne o que mais efetivamente se aproximou de tal representação, algo na maior parte das vezes sabiamente sequer tentado pelo universo do filme de ação ao vivo.Talvez, mesmo descontados os momentos de intenso pathos ou mesmo manipulação emocional, a grande força do filme resida justamente na forma balanceada com que consegue equilibrar os sentimentos humanos, variando da nobreza ao egoísmo. Foi seguido por outro longa, três anos após, que retrata a realidade de um Gen agora adolescente, tratando de crianças órfãs da guerra, porém dirigida por outros realizadores. Nakasawa certamente fez uso de muita de sua própria experiência de garoto de 6 anos em Hiroxima à época do bombardeio para escrever seu roteiro.  A mesma história já fora levada às telas em três filmes produzidos entre 1976 e 1980 e voltaria a sê-lo em 2007, como mini-série de TV, ambas filmadas em ação ao vivo.  Mad House/Gen Prod. para Kyodo Eiga Zenkoku Keiretu Kaigi. 83 minutos.

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