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sábado, 26 de novembro de 2016

Filme do Dia: O Porto (2011), Aki Kaurismäki

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O Porto (Le Havre, Finlândia/França, 2011). Direção e Rot. Original: Aki Kaurismäki. Fotografia: Timo Salminen. Montagem: Timo Linnasalo. Dir. de arte: Wouter Zoon. Figurinos: Frédéric Cambier. Com: André Wilms, Kati Outinen, Jean-Pierre Darroussin, Blondin Miguel, Elina Salo, Evelyne Didi, Quoc Dung Nguyen, Laïka, Pierre Étaix, Jean-Pierre Léaud, Roberto Piazza.
Na Normandia, Michel Marx (Wilms) é um sexagenário que tenta levar a vida sendo engraxate de improviso, ao mesmo tempo que encontra completo apoio na esposa, Arletty (Outinen), que sofre dores insuportáveis e pede que a leve ao hospital. Enquanto isso, um grupo de refugiados africanos é descoberto no porto, sendo que um garoto, Idrissa (Miguel), consegue fugir e passa a ser acompanhado discretamente por Marx, que lhe oferece comida. Arletty descobre que se encontra com uma grave enfermidade, mas pede ao médico (Étaix)  que não diga a verdade a Marx. Ao chegar em casa certo dia, Marx encontra Idrissa em sua casa. O caso se transformou em um fato midiático-político de peso e o investigador, Monet (Darroussin), procura contemporizar, fingindo não saber que Marx acolhe a criança. Um vizinho (Léaud) seu, no entanto, segue os passos do garoto e chama a polícia. Marx reúne um grupo de amigos e juntos organizam o retorno do cantor Little Bob (Piazza), em show beneficente para arrecadar fundos com objetivo de pagar a arriscada travessia de Idrissa para a Inglaterra, onde irá encontrar sua mãe. Quando o garoto já se encontra embarcado, a polícia chega às imediações e se depara com Monet  no comando. Mais uma vez, e mesmo sob o risco de perder seu cargo, ele afirma que o garoto não se encontra no local. Marx retorna ao hospital e encontra o leito antes ocupado por Arletty vazio.

Enquanto a maior parte das produções francófonas que tematizaram a imigração o fizeram sob a chave do realismo, em grande parte reprodutor de imagens associadas ao que mais comumente se ouve falar pela imprensa sobre a imigração (sendo um dos exemplos mais célebres O Ódio, de Matthieu Kassovitz) ou, no máximo, a apresentação do cotidiano de jovens pertencentes a comunidades de uma segunda geração, já nascida na França (tais como A Esquiva), aqui se prefere uma evidente fábula que aposta na recusa ao imediato verossímil. Tal recusa pretende apostar na generosidade descompromissada daqueles que ainda pensam em termos de coletividade, companheirismo em contraposição ao individualismo e cego racionalismo para quem os imigrantes não passam de estatística. Porém Kaurismäki não pensa essa utopia para um passado idealizado pré-capitalista como Pasolini ou enquanto utopia futura delirante, ele pensa como possibilidade presente, proveniente dos setores à margem da sociedade. Menos ingênua ou condescendente do que possa parecer à primeira vista, seu estilo habitualmente seco, com corte seco, pouco movimentação de câmera e luzes,  interpretações  e falas abertamente anti-realistas, o filme afasta o sentimentalismo mais rasteiro que compromete propostas semelhantes, como Bagdad Café. Aqui tampouco se parte de uma situação abstrata ou marcadamente ficcional como naquele, mas de uma realidade concreta, entrevista nas imagens de telejornal e na imprensa impressa, como o próprio filme incorpora. A desconstrução desse sentimentalismo se dá, inclusive, nos momentos potenciais de maior pathos, em que a trilha sonora se encarrega de tornar expresso a paródia sutil do melodrama não reflexivo. Fundamental para o seu sucesso são as interpretações inspiradas do trio central que, como muitos outros personagens, fazem referência ao universo do pensamento social, das artes e mais acentuadamente, do próprio cinema (Arletty é evocação de uma célebre atriz do cinema clássico francês, Idrissa ao cineasta africano Idrissa Oudreago, assim como Jacques Becker). Mesmo tais tributos soam menos afetados e tocados por uma certa postura de subserviência que os de um cineasta como Wenders, aproximando-se mais do padrão de Godard. Menos incensar subliminarmente uma postura de exaltação dos valores humanitários universais da cultura europeia (algo refletidos na postura de Homens e Deuses), mas antes assumir seus limites enquanto evidente fabulação. A  generosidade que expressa, consciente do risco de se encontrar a um passo condescendência, tal como expressa, por vias bastante outras, o contemporâneo brasileiro Febre do Rato, torna-se ainda mais digno por se afastar da habitual desculpa do conformismo realista. Pandora Filmproduktion/Pyramide Prod./Sputnik/YLE. 93 minutos.

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