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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Filme do Dia: Intervenção Divina (2002), Elia Suleiman



Intervenção Divina (Yadon Ilaheyya, França/Marrocos/Alemanha/Palestina, 2002). Direção e Rot. Original: Elia Suleiman. Fotografia:  Marc-André Batigne. Montagem: Veronica Lange. Dir. de arte: Miguel Markin. Cenografia: Miguel Markin, Denis Renault & Samir Srouji. Figurinos: Eve-Marie Arnault. Com: Elia Suleiman, Nayef Fahoum Daher, George Ibrahim, George Khleifi, Nazira Sabbagh, Rama Nashashibi, Fairos Hakim, Abu Junia, Emma Boltanski.

Menos que seguir uma linha narrativa tradicional, com personagens principais e secundários, a cineasta palestina faz uso de esquetes intercalados que procuram retratar os conflitos entre árabes e judeus. De uma maneira geral vai por vias outras que o realismo, como se este  não desse conta do absurdo vivenciado. Entre as situações apresentadas se encontram a de um Papai Noel (Ibrahim) perseguido e esfaqueado por jovens palestinos, uma turista francesa (Boltanski) que procura informações com a polícia israelense, que apela para seus prisioneiros palestinos, um policial judeu que humilha todos os passageiros que voltam ao território palestino no posto de controle, um homem (Hakim) que espera sempre em uma parada que nunca passa ônibus, um vizinho que agride outro que não tira o carro da frente de sua garagem, um casal que se encontra sempre próximo ao posto de controle para demonstrar seu amor através do toque entre suas mãos, pacientes que fumam juntamente com os funcionários do hospital, uma mulher (Kader) que consegue vencer a ameaça das armas do exército israelense apenas com o olhar, etc. Em duas situações, no entanto, esta lógica do absurdo atinge ao ápice: na primeira, o homem do casal que se encontra no carro solta um balão com o rosto de Yasser Arafat, que intriga todos os soldados do posto de controle e atravessa boa parte de Jerusalém; na segunda, uma sessão de tiro ao alvo de judeus que possui como alvo a figura de uma mulher palestina tem os atiradores surpreendidos pela figura se tornando sobre-humana, uma espécie de super-heroína (Suleiman), que voa, rebate todos os tiros, destrói um helicóptero e mata todos os seus rivais. Mesmo que o cáustico humor e senso de absurdo de Suleiman possam suscitar comparações com o dos realizadores da ex-Iuguslávia, igualmente amargo, talvez se encontre mais próximo de uma estética pós-moderna que remete tanto a uma certa inocuidade gratuita a la Tarantino (a sequência da super-mulher evoca Kill Bill, embora com uma pretensão bem diferenciada) quanto alguns dos produtos da Fabrica de Cinema da Benetton. Por outro lado, ao utilizar-se dos personagens mais como veículos para as situações em si que buscam radiografar o absurdo naturalizado pelo cotidiano de uma cultura específica, do que propriamente compor um perfil psicológico apurado, pode ser traçada uma conexão com Cronicamente Inviável. O resultado final, em que pese toda sua irregularidade, consegue atingir bons momentos como quando, por exemplo, a própria cineasta como atriz traduz em imagens anti-realistas fantasias de poder, no qual de oprimida passa a ser opressora. Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes. Filmstiftung Nordrhein-Westfalen/Gimages/Lichtblick Film-und Fernsehproduktion/Ness Communication & Productions Lmtd/Ognon Pictures/Soread-2M/arte France Cinéma. 92 minutos.




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