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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

The Film Handbook#100: Alain Resnais

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Alain Resnais
Nascimento: 03/06/1922, Vannes, Morbihan, França
Morte: 01/03/2014, Paris, França
Carreira (como diretor): 1946-2014

Figura de proa no desenvolvimento do cinema modernista, Alain Resnais parece recentemente retrocedido ainda mais em uma pretensiosidade hermética que leva em pouca conta as demandas do público mais amplo. Ao lidar repetidamente com os efeitos da memória e da imaginação sobre as paixões humanas, sua abordagem intelectual e quase abstrata da trama e de seus personagens previne o envolvimento emocional.

Tendo já realizado filmes em 8 mm quando criança, Resnais se graduou em uma escola de cinema e se voltou para a produção de filmes amadores em 16 mm, muitos dos quais retratos documentais de artistas. Sua primeira obra profissional foi no mesmo campo, incluindo documentários sobre Van Gogh, Gaughin e o Guernica de Picasso; mais indicativos de seu posterior desenvolvimento, no entanto, foram Noite e Neblina/Nuit et Brouillard  (que contrapõe em seus planos o passado e o presente dos campos de concentração, com uma narração, alertando contra o esquecimento, do romancista Jean Cayrol) e Toda a Memória do Mundo/Toute la Mémorie du Monde que deambula pela Biblioteca Nacional de Paris para apresentar seu gigantesco acervo como um repositório da memória coletiva do mundo.

Porém foi o primeiro longa-metragem de Resnais, Hiroxima, Meu Amor/Hiroshima Mon Amour>1 que o estabeleceu como um novo e original talento. Apesar do filme coincidir com os primeiros sucesso da Nouvelle Vague, evidenciava um  maior compromisso com os mais intelectuais e vanguardistas artistas da Rive Gauche, que incluíam Chris Marker, Agnès Varda e os romancistas Marguerite Duras, Alain Robbe-Grillet, que escreveram seus três primeiros longas.  Sobre a forma que as memórias de um amor dos tempos de guerra por um soldado alemão são revividos por uma mulher que tem um caso com um arquiteto japonês na Hiroxima do pós-guerra, o filme introduz temas permanentes de Resnais (a interação complexa entre passado, presente e futuro, a realidade das memórias, sonhos e imaginação) e seu estilo elaborado de montagem - fragmentando a "história" em  sequencias cujos planos são temporalmente diferenciados, unidos mais pela importância emocional que por uma lógica narrativa linear. O Último Ano em Marienbad/L'Anée Dernière à Marienbad>2 levou seu estilo anti-naturalista ainda mais longe, seus impávidos travellings por um labirinto de cômodos, corredores e jardins de um palácio espelhando o mistério labiríntico no qual um homem reivindica, talvez sem sorte, que teve um caso no ano passado com uma mulher que nega qualquer conhecimento dessa relação. A temporalidade é confusa, cenas são repetidas, a interpretação é altamente teatral; satisfazendo-se com a ambiguidade até o final, o filme permanece demasiado cerebral para nos envolver por completo na atração, dúvidas, paixões e medos que obscurecem as mentes de seus personagens.

Mais uma vez, a despeito de trabalhar com uma diversidade de escritores, Resnais retornou à tema semelhante: em Muriel>3, uma mulher espera que um antigo caso amoroso seja revivido, somente para ser desiludida pelos equívocos da memória; em A Guerra Acabou/La Guerre est Finie, um revolucionário espanhol exilado é assombrado pelas reminiscências e esperanças que enfraquecem seu senso de identidade; e em Eu Te Amo, Eu Te Amo>Je t'Aime, Je t'Aime um viajante no tempo fica preso a um problemático romance de seu passado.

Ao final dos anos 60, Resnais adentrou em um período improdutivo de sua carreira, que finalmente findou em 1974, com Stavisky, uma tentativa estilizada, mas acadêmica de unir a história de um vigarista francês dos anos 30 com Trotski. Ainda mais satisfatório foi Providence>4, roteirizado por David Mercer. Esse retrato de um escritor envelhecido e adoentado cujas ideias para um romance se tornam inevitavelmente vinculadas com seus sentimentos aparentemente amargos em relação a sua família - que se transformam nos personagens que povoam os sonhos alcoolizados de seu livro - é sarcástico, engenhoso e, ocasionalmente, um tanto horrível (planos de uma autópsia, uma cidade patrulhada por tropas totalitárias). O filme, apesar de tudo, fracassa, em ser um retrato convincente de uma análise multifacetada das emoções reprimidas no processo criativo. Ainda mais efetivo, graças a quietude tocante de Gérard Depardieu como um homem de negócios workaholic se encaminhando ao suicídio, foi Meu Tio da América/Mon Oncle d'Amerique>5, no qual três narrativas parcamente conectadas de pessoas sofrendo de estresse são unidas pela leitura de um cientista behaviourista, sobre os efeitos da frustração e da ansiedade nos ratos. A equação entre homens e animais é iluminadora e engenhosa, situando o filme entre a ficção e o documentário.

Desde então, no entanto, Resnais tem optado por temas ainda mais obscuros e triviais: A Vida é um Romance/La Vie est un Roman entremeia três histórias de insensatez utópica e fracasso repletas de sátira óbvia; Morrer de Amor/L'Amour à Mort mesclava teorias religiosas com a história romântica de um homem ressurgindo da morte pelo amor de sua esposa; Mêlo/Mélo foi um retorno deliberadamente teatral as assombradas relações triangulares de sua obra inicial. Apesar de visualmente ainda impressionantes e determinadamente anti-naturalistas, a obra recente de Resnais parece crescentemente redundante em sua ênfase sem fim na ambiguidade. Para um diretor preocupado com as dúvidas, desilusões e ansiedades da mente humana, ele parece estranhamente ausente de entusiasmo e compaixão por suas criações que mais parecem marionetes.

Cronologia
Ainda que Resnais seja contemporâneo de Marker e Varda, ele admira o diretor mudo Louis Feuillade. Figuras de vanguarda pioneiras como Marcel L'Herbier e Jean Epstein também podem ter lhe influenciado. Pode-se comparar o gosto de Resnais pela ambiguidade com o de BuñuelWelles, André Delvaux e Roeg

Leituras Futuras
The Cinema of Alain Resnais (Londres, 1968), de Roy Armes, Alain Resnais (Londres, 1978), de James Monaco

Destaques
1. Hiroxima, Meu Amor, França, 1959 c/Emmanuelle Riva, Eiji Okada, Bernard Fresson

2. O Ano Passado em Marienbad, França, 1961 c/Delphine Seyrig, Giorgio Albertazzi, Sacha Pitoeff

3. Muriel, França, 1963 c/Delphine Seyrig, Jean-Pierre Kerien, Nita Klein

4. Providence, França, 1977 c/John Gielgud, Dirk Bogarde, Ellen Burstyn

5. Meu Tio da América, França, 1980 c/Gérard Depardieu, Nicole Garcia, Roger Pierre

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, p. 239-40.

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