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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Filme do Dia: Futuro Junho (2015), Maria Augusta Ramos




Futuro Junho (Brasil, 2015). Direção: Maria Augusta Ramos. Fotografia: Lucas Barbi & Camila Freitas. Montagem: Karen Akerman.

Na iminência da Copa do Mundo de 2014 e com manifestações pipocando pelo país esse documentário segue a trajetória de um operário da indústria automobilística, um motoboy, um sindicalista dos metroviários e um economista. Cada um, a seu modo, vivencia os efeitos de uma sociedade em mutação. Numa das falas mais interessantes do filme, o economista, André Perfeito, afirma que se chegou a uma verdadeira encruzilhada no país: ou se avança e se quebra os paradigmas do que já está posto ou se regride a uma posição em que as camadas menos favorecidas que ascenderam a classe C nos últimos anos retornarão as D e E e, numa inspirada fala ilustrativa, ele faz referência a “alguém que usava sabão de coco e passou a usar Dove, não vai querer voltar a usar sabão de coco.” No outro extremo do espectro, existe o operário da Volkswagen, de quem pouco se ouve e sim mais ações como a de levar o filho a escola ou trocar alguns murmúrios com colegas de trabalho. Há um perigo iminente da demissão com a marca inédita de 94 mil veículos estocados. Há ainda um carismático líder sindical que se vê demitido, juntamente com duas dezenas de funcionários do Metrô, após as manifestações que resultaram numa paralisação de quase uma semana e reações ostensivas de violência policial contra os manifestantes  - numa das poucas imagens não filmadas pela própria equipe do documentário de Ramos, observa-se imagens filmadas pela Mídia Ninja da repressão ocorrida na Estação Ana Rosa. O motoboy, por sua vez, escuta um bizarro plano funerário quando todas as suas economias estão empatadas na hipoteca da casa. Se as contraposições se tornam evidentes, com o motoboy e seus amigos afirmando que teriam que deixar de comer para poder pagar o valor do ingresso de um dos jogos da Copa e, por outro lado, observando-se pouco depois o economista indo para o jogo do Brasil e cantando o hino nacional, de forma algo ambígua e sarcástica no metrô, não se cai no discurso panfletário ou em oposições fáceis. As incongruências de uma sociedade que sofre os desatinos de um sistema econômico perverso e cujos mecanismos se encontram muito além dos limites da cidade de São Paulo, onde tudo isso se torna mais marcado, já que a cidade que ilustra melhor que nenhuma outra no Brasil o mesmo, começam a ganhar rosto e nome. Essa relação entre macro e micro-histórias é uma das forças da obra de Ramos que se aproxima mais de um viés do cinema direto-observacional de forte pulso estilístico – enquadramentos sempre que possíveis impecáveis e sem câmera tremida – e, mais importante, por um respeito em relação a quem filma erigido no relativo distanciamento em que são filmados. Nofoco Filmes. 100 minutos.


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