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sexta-feira, 4 de março de 2016

The Film Handbook#65: Sergio Leone

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Sergio Leone
Nascimento: 03/01/1929, Roma, Lazio, Itália
Morte: 30/04/1989, Roma, Lazio, Itália
Carreira (como diretor): 1959-1989

Frequentemente observado como um oportunista que plagiava gêneros do cinema americano para efeito cínico e sensacionalista, Serio Leone foi, na verdade, um realizador altamente pessoal. Ao mesmo tempo pessimista e romântico, foi um europeu fascinado e crítico pela/da mitologia heroica perpetrada pelos americanos. Nos anos 60 deu um novo sopro de vida no moribundo western e nos anos 80 dirigiu o definitivo filme de gangster moderno.

Leone foi assistente de direção de vários realizadores italianos, assim como de Walsh, Wyler e Mervin LeRoy. Ao final dos anos 50 escrevia roteiros para épicos de gladiadores, gênero no qual ganharia sua primeira experiência como realizador tomando o comando de Os Últimos Dias de Pompéia/Gli Ultimi Giorni di Pompei quando o diretor adoeceu  antes de dirigir sozinho O Colosso de Rodes/Il Colosso di Rodi. Não foi antes de 1964, no entanto, que se estabeleceria como um realizador verdadeiramente original com o primeiro filme do que ficaria conhecido como a trilogia do Homem Sem Nome, Por Um Punhado de Dólares/Per Un Pugno di Dollari>1. Com um jovem e praticamente desconhecido Clint Eastwood como o herói amoral, lacônico e ultra-frio, e uma trama baseada em Yojimbo de Kurosawa. A história austera e sombriamente cômica de um pistoleiro anônimo que presta serviços a duas facções rivais, influenciaria profundamente o futuro do western em geral e do western-spaguetti italiano em particular. O enredo se torna uma série de lances ritualizados, os diálogos mínimos, os personagens um conjunto de emoções primárias: cobiça, o desejo por vingança e a simples busca por sobrevivência em um mundo desolado e árido de horrorosa e aparentemente fortuita violência. De forma semelhante  em seus dois filmes seguintes (que fizeram de Eastwood um astro), Por Uns Dólares a Mais/Per Qualche dollare in Più e Três Homens em Conflito/Il Buno, Il Brutto, Il Cattivo>2, o herói  foi pouco melhor que os vilões: somente seu profissionalismo na arte de matar e inteligência astuciosa e taciturna o diferenciavam dos assassinos sádicos que eram seus rivais e suas presas. Essa visão niilista da civilização foi emoldurada pelas composições visuais voluptuosas e formalistas de Leone; os tiroteios se tornaram prolongadas e geométricas danças da morte, os rostos sendo filmados em enormes primeiros planos e extremas profundidades de foco em paisagens irrealisticamente magníficas e primitivas, acompanhados pelos gemidos bestiais e desagradáveis da inimitável música de Ennio Morricone.

Porém a obra-prima de Leone foi Era Uma Vez no Oeste/C'Era Una Volta il West>3, um épico operístico e mítico que associa a chegada civilização ao Deserto com uma narrativa de assassinato e vingança tão monoliticamente insistente quanto uma tragédia grega. O Capitalismo - sob a forma de um magnata das ferrovias e seus pistoleiros contratados  - é impiedosamente perverso; o ethos romântico da fronteira condenado, seus defensores assombrados por um passado observado em flashbacks destituídos de diálogos. A violência masculina inevitável, mas fútil: os pistoleiros morrem e a determinação estoica de uma mulher de construir um povoado ao redor da ferrovia oferece à sociedade sua única esperança no deserto. Igualmente estilizado mas menos ressonantemente mítico foi Quando Explorde a Vingança/Giú la Testa, sobre a parceria preocupante formada por um bandido e um terrorista expatriado do IRA durante  a Revolução Mexicana. Leone relutantemente concordou em dirigi-lo ao invés de produzi-lo por insistência dos astros Rod Steiger e James Coburn.

Após um longo período de aparente inatividade, Leone finalmente conseguiu filmar o longamente planejado Era Uma Vez na  América/Once Upon a Time in America>4, história complexa e épica sobre as vidas e épocas de quatro garotos de rua judeus tornado gangsteres da Proibição até meados dos anos 60. Embora baseando-se tanto em fatos históricos quanto memórias dos filmes de gangster clássicos, Leone nunca glamoriza seus "heróis", apresentando-os sobre uma luz autêntica como misóginos, psicoticamente violentos, incontornavelmente mesquinhos e vaidosos. Ainda mais notável, a estrutura em forma de mosaico do filme de saltos que associam momentos emocionais no tempo transformam uma virtuosa peça do gênero - todas as festas ilícitas, assaltos, tiroteios - numa análise da culpa, lealdade, traição e a subjetividade da verdade, espelhando as tentativas de seu protagonistas de descobrir o vínculo entre a corrupção de um político e um parceiro criminoso cuja morte pensa ter provocado décadas antes. Progredindo constantemente da violência explícita para uma surpreendentemente tranquila introspecção, o filme comenta tanto a moralidade mundo cão que embasa o Sonho Americano como a capacidade tardia de um homem de descobrir dignidade e paz através do auto-conhecimento e a rejeição do desejo de se vingar mortalmente.

A obra de Leone cresceu solidamente em profundidade emocional e sofisticação intelectual. Não mais considerado como um mero inovador de gêneros com uma visão cáustica da história americana, era agora considerado como um diretor de ampla ressonância internacional cujo amor pelo cinema era reconhecível em cada enquadramento; poucos diretores, de fato, foram abençoados com um estilo rico e facilmente reconhecível.

Cronologia
Ainda que seja interessante comparar Leone com especialistas do western como Ford, Mann, Boetticher e Peckinpah, é igualmente fértil traçar paralelos entre sua atitude distintamente europeia em relação aos Estados Unidos e seus filmes com a de Melville. Em sua aparente indiferença ao Neo-Realismo, ele poderia ser tido como o menos italiano dos realizadores italianos, ainda que comparações com Bertolucci, que trabalhou no roteiro original de Era Uma Vez na América, possam ser reveladoras.

Leituras Futuras
Western Spaguetti (Londres, 1981), de Christopher Frayling.

Destaques
1. Por Um Punhado de Dólares, Itália, 1964 c/Clint Eastwood, Gian Maria Volontè, Marianne Koch

2. Três Homens em Conflito, Itália, 1966 c/Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Eli Wallach

3. Era Uma Vez no Oeste, Itália, 1968 c/Henry Fonda, Charles Bronson, Claudia Cardinale

4. Era Uma Vez na América, Itália, 1983 c/Robert De Niro, James Woods, Elizabeth McGovern

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 165-7.

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