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sexta-feira, 25 de março de 2016

The Film Handbook#68: Yasujirô Ozu



Yasujiro Ozu
Nascimento: 12/12/1903, Tóquio, Japão
Morte: 12/12/1963, Kamakura, Japão
Carreira (como diretor): 1927-62

Apesar de toda a carreira cinematográfica de Yasujiro Ozu ter se dado no cinema comercial, seu estilo contemplativo único é talvez o mais inimitavelmente pessoal na história do cinema. Ainda mais importante, sua grandeza foi assegurada pela forma pelo qual esse estilo refletia sentido, seu rigor e riqueza por fim significando uma visão da vida tão serena e pungente quanto profunda.

Fã de cinema em sua infância, Ozu adentrou o universo dos filmes como assistente de direção nos estúdios Shochiku. Em 1927 estrearia na direção com Sword or Penitence/Zange no Yaiba e nos próximos três anos provaria a si próprio ser um hábil diretor de dramas cômicos sobre a vida colegial e trabalhadores de escritórios. Seu primeiro filme digno verdadeiramente de nota foi Coral de Tóquio/Tôkyô No Yado, realizado no estilo drama doméstico com o qual crescentemente se especializaria e refletindo sobre a depressão que então afligia crescentemente o Japão através de sua história de um funcionário de escritório subitamente tornando dispensável. Nos anos que se seguiram, Ozu refinou solidamente sua arte, focando mais e mais em um punhado de situações domésticas (o abismo geracional, a morte na família, os conflitos conjugais, o desemprego, os planos de casamento), todos ambientados em um Japão contemporâneo sutilmente evocado Japão que lidava com a industrialização, ocidentaliação e capitalismo. Meninos de Tóquio/Hitori Musuko>1, inicia como comédia e gradualmente assume tons mais sombrios enquanto dois jovens, estupefatos com os absurdos do mundo adulto; Passing Fancy/Dekigoro se centra na confusão de um filho quando seu enviuvado pai o negligencia para cortejar uma garota sem lar.

Evitando o som até 1935, Ozu optou, pelo contrário, por uma riqueza de detalhes observacionais e um balanço sutil entre uma surpreendente comédia física e lirismo sombrio para criar uma forma única de realismo estilizado; ainda mais crucial para o desenvolvimento de seu estilo foi um firme enxugamento do enredo e da sintaxe visual. A narrativa é drenada de dramas agitados, dissoluções e fades são substituídos pelo simples corte ou (para significar uma mudança de tempo ou espaço) uma sequencia de planos de prédios ou paisagens próximos; ainda mais notável, a câmera quase nunca se move ou realiza panorâmicas, sempre observando os personagens de uma posição abaixo deles. Longe de ser limitante, no entanto, esse ascetismo rigoroso somado ao uso repetido de uma trupe de atores (notavelmente Chishu Ryu), possibilitaram  a Ozu infindáveis performances e mesmo vigorosas variações sobre temas, motivos e estilos.

Constantemente o diretor se voltava para as mesmas situações, ocasionalmente chegando a refazer seus próprios filmes. Portanto Pai e Filha/Banshun>2 - uma história de objetivos opostos com um pai desejando ver sua filha casada  antes que ele morra e a garota, que não deseja lhe deixar sozinho, resistindo é tanto uma inversão de Passing Fancy/Dekigoro e um precursor do último filme de Ozu, A Rotina Tem o Seu Encanto. De forma semelhante, Era Uma Vez em Tóquio > ecoa várias sagas familiares, incluindo Os Irmãos e Irmãs da Família Toda, embora ao mesmo tempo exista como obra-prima por si própria: sobre um velho casal que efetua a última visita aos seus filhos e netos em Tóquio, lenta mas inexoravelmente constrói, através do diálogo, como decepcionantemente trivial como os gestos são delicados para uma lúcida compreensão da inevitabilidade dos humanos se distanciarem quando se tornam velhos. O poder emocional do filme é devastador mas nunca sentimental, a aceitação estoica de Ozu da natureza humana refletida na tranquila restrição do olhar de sua câmera. "Não é a vida desapontadora?", indaga uma garota para sua cunhada viúva de guerra, após o funeral de sua mãe. "Sim" vem a resposta com um sorriso. É, portanto, passível de argumentação que Ozu, no estágio final de sua carreira, foi o mais profundamente humano e filosófico de todos os diretores a trabalhar em um gênero intelectualmente acessível.

Chishu Ryu e Shima Iwashita, filmados de uma característica câmera baixa no último filme de Ozu, A Rotina Tem o Seu Encanto
Mesmo ao final, por mais sombrio que fossem muitos de seus últimos filmes, Ozu nunca abandonou inteiramente o seu humor, e Bom Dia/Ohayô>4, foi uma gloriosamente divertida reformulação de Meninos de Tóquio, seu conto (dois garotos recusam a falar até seus pais comprarem uma televisão) dá margem a piadas sobre flatulência, piadas fúteis e o consumismo do moderno Japão, mesmo quando  direciona, com  uma enganosa sagacidade brincalhona, questões complexas sobre a natureza da comunicação humana.

Após o lirismo sofrido e sublime trabalho de câmera em cores de A Rotina Tem o Seu Encanto, Ozu morreu de câncer em seu aniversário de sessenta anos. Ele deixou atrás de si um corpo de trabalho tão consistentemente discreto, tão anti-paternalisticamente generoso em sua percepção das manias humanas, e tão idiossincraticamente homogêneos que nunca poderia ser confundido pela obra de qualquer realizador. A força tranquila de Ozu em sua compreensão que o cinema não necessita ser necessariamente controvertido, em termos dramáticos, para comover o público; esses atores, situações e paisagens observados de maneira próxima pode, se organizados com inteligência e integridade, revelam a misteriosa e infinitamente variadas alegrias e tristezas da própria vida.

Cronologia
O estilo maduro de Ozu foi tão pessoal é difícil de ser comparado com o de seus contemporâneos como Mizoguchi, Heinosuke Gosho, Mikio Naruse e Sadao Yamanaka. Seu ascetismo encoraja comparações com Dreyer e Bresson. Dentre os diretores modernos, Eric Rohmer exibe um estilo  seguramente refinado modesto e semelhantemente detalhado e obsessivo, enquanto o diretor taiwanês Hou Xiaoxian ecoa as observações calmas e apagadas sobre a vida cotidiana. Wenders, Jarmusch e João Botelho (cujo Um Adeus Português foi uma inventiva reelaboração de Era Uma Vez em Tóquio) se professaram admiradores.

Leituras Futuras
Ozu and the Poetics (Londres, 1988), de David Bordwell. Ozu (Berkeley, 1974), de Donald Ritchie. Transcendental Style on Film (Berkeley, 1972), Paul Schrader

Destaques
1. Meninos de Tóquio, Japão, 1932 c/Tatsuo Saito, Mitsuko Yoshikawa, Hideo Sugawara

2. Pai e Filha, Japão, 1949 c/Chishu Ryu, Setsuko Hara, Yumeji Tsukioka

3. Era Uma Vez em Tóquio, Japão, 1953 c/Chishu Ryu, Chieko Higashyama, Setsuko Hara

4. Bom Dia, Japão, 1959 c/Keiji Sata, Kuniko Miyake, Haruko Sugimura

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 207-9.
















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