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sexta-feira, 11 de março de 2016

The Film Handbook#66: Ernst Lubitsch




Ernst Lubitsch
Nascimento: 28/01/1892, Berlim, Alemanha
Morte: 29/11/1947, Hollywood, Califórnia, EUA
Carreira (como diretor): 1914-47

Muito elogiado pela aparência de uma inteligente sofisticação européia que trouxe aos musicais e comédias americanas, Ernst Lubitsch se tornou uma força de destaque em Hollywood durante os anos 30. É digno de ser questionado, no entanto, que os filmes dessa década, louvados como apresentando os melhores exemplos do "toque de Lubitsch" sejam, em última instância, rasos em seu cinismo e alusões sutis, enquanto que sua obra posterior, frequentemente observados como relativamente inferiores, exibem uma maior pungência.

Na Alemanha Lubitsch deixou de atuar para Max Reinhardt para dirigir ele próprio vários curtas de comédia pastelão como um herói chaplinesco. Em 1918 iniciou uma série de longas que ofereciam evidências de um talento mais ambicioso, combinando comédias românticas destacando intrigas íntimas com dramas históricos extravagantes (Madame DuBarry, Anna Boleyn) notáveis por cenários extravagantes e um mais humano e detalhado senso de elaboração dos personagens que o comum na época. Tal foi o seu sucesso que em 1922 ele emigrou para Hollywood a convite de Mary Pickford para dirigi-la em Rosita. Esse foi seguido por um número de comédias incomumente refinadas (O Círculo do Casamento/The Marriage Circle, O Leque de Lady Margarida/Lady Windermere's Fan) que estabeleceram-no como um comentador engenhoso e delicado dos costumes sexuais e como adaptador visualmente imaginativo de fontes literárias. Porém foi a chegada de som que observou Lubitsch, agora um dos mais importantes diretores da Paramount, realmente se encontrando; de fato, na altura de 1935, ele foi promovido, por um ano somente, a posição de chefe de produção do estúdio.

Seu primeiro filme falado, Alvorada do Amor/The Love Parade>1, foi uma opereta para Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald, ambientado em meio a realeza rural da Ruritânia e diferente dos outros musicais da época por sua integração das canções no enredo e por seu chocante senso de humor. De fato, exceto, por seu grandiloquente anti-bélico Não Matáras/The Man I Killed (Broken Lullaby), ao longo dos idos e meados dos anos 30 tanto em musicais (Monte Carlo, O Tenente Sedutor/The Smiling Lieutenant, A Viúva Alegre/The Merry Widow) e comédias românticas (Ladrão de Alcova/Trouble in Paradise>2, Sócios no Amor/Design for Living, Anjo/Angel) combinavam figurinos e cenários elegantes com uma conhecida amoralidade incorporados em sugestivos diálogos. sobrancelhas arqueadas e uma alusão as intimidades sexuais por trás das portas fechadas. Frequentemente, como em Ladrão de Alcova (no qual um suave ladrão de jóias dividido entre sua comparsa de crime e a herdeira que pretendem enganar) e Sócios no Amor (um ménage-à-trois é ameaçado quando a mulher abandona seus amantes para casar com um rico homem mais velho), a comedia é derivada da decepção, suspeita e incessante simulação; infidelidade é um elemento constante, servindo frequentemente para tornar um casal ainda mais unido. Por todo o cinismo em seus filmes, no entanto, a modernidade inteligente frequentemente parece controvertida, forçada, superficial; o estilo se torna um fim em si próprio mais que um meio de descrever o mundo. Na verdade, a insistente trivialização das emoções em favor de elegantes insinuações, significando que muitos de seus filmes soam hoje datados.

Após duas comédias relativamente cruéis escritas por Wilder e Charles Brackett (A Oitava Esposa de Barba Azul/Bluebeard's Eight Wife e Ninotchka>3 que foi mais notável por ter Garbo no elenco em um papel incomumente sutil como a sombria comissária soviética cuja gélida ideologia é derretida pelo amor, Paris e o hedonismo afetado de Melvyn Douglas), Lubitsch, que por agora tinha cortado suas conexões com a Paramount, passou a produzir as obras mais maduras de sua carreira. A Loja da Esquina/The Shop Around Corner>4, ambientando em uma Budapeste nostalgicamente evocada, é genuinamente comovente enquanto traça a complexa corte entre dois balconistas que odeiam um ao outro, ainda quando involuntariamente conduzem uma correspondência anônima e romântica entre si. A nova disposição encontrada de confrontar dor real se tornou ainda mais evidente em Ser ou Não Ser/To Be or Not to Be>5, uma comédia de humor negro verdadeiramente surpreendente ambientada em uma Varsóvia devastada pela guerra, onde uma trupe de incompetentes atores poloneses triunfa sobre os ocupantes nazistas através da imitação e astuta manipulação dos maus modos do temível inimigo. A farsa, repleta de brilhantes e ultrajantes diálogos, é frenética, mas seu poder deriva do risco e da seriedade de  sua situação, garantindo nosso envolvimento emocional. Se O Diabo Disse: Não!/Heaven Can Wait (no qual a vida do mulherengo parece ser motivada por sua bondade quando se afasta de Satã) e O Pecado de Cluny Brown/Cluny Brown (sobre um romance operário florescendo nos abafados altos escalões da sociedade britânica) são mais suaves e menos inventivos, ainda proporcionando amplas evidências da habilidade de Lubitsch para tocar o coração sempre que resiste a tentação de fazer uso do cinismo.

Infelizmente, apenas quando parecia ter alcançado uma verdadeira maturidade artística, Lubitsch morreu de um ataque cardíaco, tendo somente filmado alguns dias A Condessa se Rende/That Lady in Ermine. (Ele seria complementado por Preminger). Em retrospecto, seu celebrado "toque", a certo momento considerado sutil, e mesmo subversivo, parece datado, teatral e pesado. Ao contrário, seu trabalho nos últimos anos ganhou em estatura, seu comprometimento sem reservas às vidas emocionais de seus personagens o levam a uma tardia mas duradoura e comovente profundidade.

Cronologia
De tom menos carregado que seus contemporâneos alemães, Lubitsch pode ser comparado mais proximamente com figuras como Mamoulian, Von Sternberg, Arzner, Cukor e Leisen; ele próprio admitia ser admirador de Casamento ou Luxo/A Woman of  Paris, de Chaplin. Pode ser visto como uma influência em Wilder.

Leituras Futuras
The Lubitsch Touch, de Herman G.Weinberg (Nova York, 1977)

Destaques
1. Alvorada do Amor, EUA, 1929 c/Maurice Chevalier, Jeanette MacDonald, Lupino Lane

2. Sócios no Amor, EUA, 1932 c/Herbert Marshall, Mirian Hopkins, Kay Francis

3. Ninotchka, EUA, 1939 c/Greta Garbo, Melvyn Douglas, Sig Rumann

4. A Loja da Esquina, EUA, 1940 c/James Stewart, Margaret Sullavan, Frank Morgan

5. Ser ou Não Ser, EUA, 1942 c/Jack Benny, Carole Lombard, Sig Rumann, Felix Bressart

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 175-6.

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