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domingo, 20 de março de 2016

Filme do Dia: O Mundo de Apu (1959), Satyajit Ray


O Mundo de Apu Poster


O Mundo de Apu (Apur Sansar, Índia, 1959). Direção: Satyajit Ray. Rot. Adaptado: Satyajit Ray, baseado no romance Aparajito, de Bibhutibhushan Bandyopadhyay. Fotografia: Subrata Mitra. Música: Ravi Shankar. Montagem: Dulal Dutta. Dir. de arte: Bansi Chandragupta. Com: Soumitra Chatterjee, Sharmila Tagore, Alok Chakravarty, Swapan Mukherjee, Dhiresh Majumdar, Sefalika Devi, Dhiren Ghosh, Balarani.
          Em Calcutá, Apu (Chatterjee) sonha com a carreira de escritor, ao mesmo tempo que é pressionado por seu locatário (Ghosh)  a pagar as mensalidades atrasadas. O amigo Pulu (Mukherjee) lhe oferece uma proposta de emprego, após alguns dias no campo, para o casamento de uma familiar sua. Surpreenedidos com a loucura do noivo, buscam Apu para se tornar o novo noivo, já que acreditam que se a filha não for casada receberá uma maldição. Inicialmente relutante, Apu casa-se com Aparna (Tagore). Como ela é filha de uma rica família, sofre com a súbita mudança para as precárias acomodações de Apu. Tentando lhe dar uma vida mais confortável, Apu decide trabalhar duplamente. Aparna resolve passar dois meses com a família. Pouco depois, Apu é surpreendido com a notícia da morte da esposa, em decorrência do parto prematura de seu filho Kajal (Chakravarty). Inconsolável, Apu parte sem destino. Durante cinco anos erra pelo país, sempr remetendo uma quantia para o auxílio ao filho, criado pelo avô Shashinarayan  (Majumdar) e findando por literalmente abandonar os planos de publicar seu livro, de cunho autobiográfico. Pulu encontra-o trabalhando como mineiro e procura conscientizá-lo do apoio ao filho. Algum tempo depois, ele vai conhecer Kajal. Esse inicialmente o rejeita, mas aceita-o e parte com ele.

        No último filme da trilogia, é destacada a difícil convivência de Apu com a  realidade, após a morte da esposa. O trem ainda continua como um elemento importante no  plano afetivo – é na janela dele que Apu vê pela última vez a esposa e é na estação ferroviária que busca reencontrá-la; o primeiro presente que dá para o filho é um trem de brinquedo. A descoberta do mundo, empreendida pelo atento olhar de um Apu criança (Canção da Estrada) e adolescente (O Invencível), assim como o seu desejo de vivenciá-lo plenamente, através da luta pela sobrevivência é ofuscada pelas ilusões perdidas no amor e no trabalho, da mesma forma que o senso do cotidiano sobrepõe-se às aventuras dos sentidos, típicas da juventude. A música de Shankar, utilizando-se de temas menos tradicionais que nos filmes anteriores, parece ressaltar o distanciamento cada vez maior de Apu de sua origem rural – a sua indignação com a proposta de casamento por arranjo, por exemplo, que afirma ser medieval. Entre os momentos mais belos do filme encontram-se a suave aproximação dos conjugues praticamente desconhecidos, a seqüência que funde uma tela de cinema com a janela do veículo que leva o casal de volta para casa e a igualmente lenta aproximação entre pai e filho. Com uma magistral direção de atores que trabalha com extrema sutileza o gestual  enquanto expressão inequívoca dos sentimentos. Seu humanismo, grandemente influenciado por Renoir, é patente na forma com que acompanha, com igual atenção, os fracassos e vicissitudes de Apu. Por outro lado, fica patente o virtuosismo, em toda a trilogia, do senso de ritmo narrativo e de composição das imagens, grandemente clássicas, contradizendo a impossibilidade da realização de grandes filmes através de uma estrutura convencional. Satyajit Ray Productions. 101 minutos.

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