CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

The Film Handbook #55: Rainer Werner Fassbinder




Rainer Werner Fassbinder
Nascimento: 31/05/1946, Bad Worishofen, Al. Ocidental
Morte: 10/06/1982, Munique, Al. Ocidental

Um dos melhores diretores trabalhando nos anos 70, Rainer Werner Fassbinder passeou bastante e de forma consistente através de gêneros e estilos ao longo de sua prolífica carreira (ele realizou mais de 40 filmes em 13 anos) sendo de uma abordagem irônica em relação aos seus temas frequentemente melodramáticos e um permanente interesse no desespero subjacente à afluência material e conformismo moral burguês da sociedade alemã do pós-guerra.

Após uma infância solitária que ia com frequência ao cinema, Fassbinder se tornou grandemente envolvido como um ator-diretor no teatro marginal de Munique, onde encontrou muitos de seus futuros astros incluindo Hanna Schygulla, Kurt Raab e Irm Hermann. Tendo realizado dois curtas em 1965, concentrou-se em sua obra com o grupo de Anti-Teatro até sua estreia em longa-metragem, em 1969. Como diretor, escritor, ator e montador rapidamente construiu um corpo de filmes notável por seu forte retrato da banalidade e crueldade da vida contemporânea e por sua rejeição do estilo tradicional de cinema. O Machão/Katzelmacher>1 analisa  o fascismo cotidiano através das experiências de um operário imigrante grego cuja mera presença provoca um grupo de casais entediados à inveja xenefóbica, paranoia e violência; Fassbinder remove a história do drama, utilizando longos planos-sequencias estáticos de personagens inexpressivos entoando diálogos monocórdios. Um semelhante anti-estilo ressaltando humores e grupos sociais, se encontrava na maior parte de seus primeiros filmes (Os Deuses da Peste/Götter der Pest, O Soldado Americano/Der Amerikanische Soldat) passando por um retrato sombrio de uma filmagem (Cuidado com a Puta Sagrada/Warnung vor einer Heiligen Nutte) até o relativamente realista Por que Deu a Louca no Sr.R.? /Warum Läuft Her R. Amok? >2, no qual as humilhações casuais e tédio da vida familiar levam um aparentemente feliz e bem sucedido funcionário de escritório a matar sua vizinha, mulher e filho antes de se enforcar.

O Mercador das Quatro Estações/Händler der vier Jahreszeiten>3 foi mais caloroso e polido, apesar de sua narrativa do modo através do qual um calmo vendedor de frutas passa a se sentir crescentemente irrelevante para sua família, amigos e antiga amante ser igualmente melancólica: na cena em que bebe até a morte é observado de maneira simpática mas anti-sentimental. Cada vez mais, no entanto, Fassbinder inspirou-se na habilidade do cinema norte-americano de alcançar um grande público, voltando-se para uma forma de direção crescentemente estilizada, acrescentando ao seu ritmo e interpretações planas um uso altamente expressivo de cenários, cores, iluminação e movimentos de câmera.  Os jogos de poder sado-masoquistas definem o relacionamento de uma estilista lésbica, sua amante e a empregada, em As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant/Die Bitteren Tränen der Petra von Kant cuja ação transcorre em um apartamento suntuosamente decadente planejado para inspirar prazer erótico; em O Medo Devora a Alma/Angst essen Seele Auf>4 no qual o racismo ameaça o amor de uma viúva idosa por um jovem árabe, convidado para trabalhar na Alemanha, as cores primárias berrantes são reminiscentes de Sirk (cujo Tudo Que o Céu Permite o Filme/All That Heaven Allows inspiraram o filme); e Effi Briest>5 suas imagens monocromáticas descrevendo o casamento insípido de uma jovem com um velho barão, explicitamente alude ao texto original de Fontane do século XIX, dessa maneira analisando a relação do cinema com as palavras.

Se Petra Von Kant promoveu acusações de misoginia, o retrato da sociedade homossexual masculina em O Direito do Mais Forte/Faustrecht der Freiheit provou que Fassbinder acreditava que a exploração, o preconceito, a ganância e a crueldade irrefletida são inevitavelmente  inseparáveis de qualquer relação humana. Ele próprio era bissexual e muitos de seus filmes refletem as constantes tensões dentro de sua incestuosa "família" de colaboradores, amantes e amigos. De fato, o grupo fechado servia regularmente como microcosmo das imperfeições da sociedade: Satansbraten, uma implacável comédia de humor negro sobre o charlatanismo artístico, observa um escritor fracassado mover um círculo de admiradores gays com a qual sua obscena família consegue público para a leitura de suas poesias; Roleta Chinesa>6 reúne um rico casal, seus amantes, sua negligenciada filha aleijada e sua cuidadora para um mortal jogo da verdade no qual os jogadores adivinham o que os outros poderiam ter sido durante o Nazismo. O deslumbrante e complexo visual (com personagens refletidos em espelhos flagrados por uma câmera infinitamente circular) e sua ansiedade sobre o passado fascista alemão provaram ser marcos característicos  dos últimos anos de Fassbinder.

El Hedi Ben Salen e Barbara Valentin em O Medo Devora a Alma, a vaga "refilmagem" de Fassbinder de Tudo Que o Céu Permite, de Sirk


Após Despair>7, uma fascinante versão em língua inglesa do romance de Nabokov no qual um berlinense nos anos 30 assassina um vagabundo que erroneamente pensa ser seu duplo, Fassbinder alternou uma série de projetos pessoais - a narrativa dos últimos dias de um transsexual em Num Ano de 13 Luas sendo sua emotiva resposta ao recente suicídio de seu amante, A Terceira Geração/Die Dritte Generation uma idiossincrática análise do terrorismo contemporâneo alemão - com obras de maior apelo comercial que retratavam o 'milagre econômico" da  Alemanha do pós-guerra em termos de política sexual. O Casamento de Maria Braun/Die Ehe der Maria Braun>8, tem sua agitada e pró-ativa heroína sacrificar seu corpo aos homens (um soldado americano, um rico industrial alemão) em troca do dinheiro que lhe permitirá montar uma casa com seu marido; em Lola>9 (uma extravagantemente sirkeana releitura de O Anjo Azul de Sternberg), uma prostituta seduz os corruptos funcionários públicos de uma cidade para conquistar poder; em O Desespero de Veronika Voss/Die Sehnsucht der Veronika Voss, uma antiga estrela do Terceiro Reich desmorona no vício de drogas e desespero. Aqui, como em Lili Marlene/Lili Marleen e Querelle - respectivamente uma paródia dos filmes de espionagem românticos de guerra e uma versão barroca em estúdio da peça de Genet sobre marinheiros sado-masoquistas um berrante estilo anti-naturalista reina. Por toda esta densa, complexa e colorida tessitura de diálogos verborrágicos, referências cinematográficas e visuais expressivos, a moral permanece constante: num mundo emocionalmente empobrecido marcado pela ganância material e repressivos conceitos burgueses de respeitabilidade,  o amor é condenado.

A trágica morte de Fassbinder de uma overdose de bebida misturada a drogas roubou o cinema (e a televisão) de um artista brilhante. Apesar de seus métodos terem sido frequentemente provocativos, sua continuada insistência na fragilidade da felicidade, liberdade e amor em face da exploração política e econômica, física e psicológica, o identificam como um realizador anti-semtimental e pessimista de grande humanidade. Seu ódio da complacência espiritual e artística é evidente tanto em seus temas quanto na originalidade de seu estilo; ele desejou não emular nem transformar Hollywood, mas melhorá-la.

Cronologia
As obras iniciais de Fassbinder apresentam uma influência de Jean-Marie Straub, Godard, Warhol e Brecht, enquanto seus mais comerciais filmes posteriores de realizadores melodramáticos hollywoodianos como Sirk e Wilder. Ele confessou sua admiração por Walsh, Rohmer e Chabrol, e exerceu forte influência não somente em todos que trabalharam com ele mas em outros realizadores alemães, notadamente Edgar Reitz cuja série de TV épica Heimat é bastante reminiscente da obra posterior de Fassbinder em ambos os meios.

Destaques
1. O Machão, Al. Ocidental, 1969 c/Fassbinder, Hanna Schygulla, Harry Baer

2. Por Que Deu a Louca no Sr. R?, Al. Ocidental, 1969, c/Kurt Raab, Lilith Ungerer, Amadeus Fengler

3. O Mercador das Quatro Estações, Al. Ocidental, 1971 c/Hans Hirschmuller, Irm Hermann, Hanna Schygulla

4. O Medo Devora a Alma, Al. Ocidental, 1973 c/Brigitte Mira, El-Hedi Ben Salen, Barbara Valentin

5. Effi Briest, Al. Ocidental, 1974 c/Hanna Schygulla, Wolfgang Schenck, Karlheinz Boehm

6. Roleta Chinesa, Al. Ocidental, 1976 c/Margit Carstensen, Alexander Allerson, Anna Karina

7. Despair, Al. Ocidental, 1977 c/Dirk Bogarde, Andrea Ferreol, Volker Spengler

8. O Casamento de Maria Braun, Al. Ocidental, 1978, c/Hanna Schygulla, Klaus Lowitsch, Ivan Desny

9. Lola, Al. Ocidental, 1981 c/Barbara Sukowa, Armin Mueller-Stahl, Mario Adorf

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 97-99.

Nenhum comentário:

Postar um comentário