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sábado, 26 de dezembro de 2015

Filme do Dia: Pai e Filha (1949), Yasujirô Ozu

Pai e Filha (Banshun, Japão, 1949). Direção: Yasujirô Ozu. Rot. Adaptado: Yasujirô Ozu & Kôgo Noda, a partir do romance Chichi to Musume, de Kazuo Hirotsi. Fotografia: Yûharu Atsuta. Música: Senji Itô. Montagem: Yoshiyasu Hamamura. Dir. de arte: Tatsuo Hamada. Com: Setsuko Hara, Chishû Ryû, Yumeji Tsukioka, Haruko Sugimura, Hohi Aoki, Jun Usami, Kuniko Miyake, Masao Mishima.
Noriko (Hara), mulher de 27 anos,  é uma vez mais pressionada pela tia Masa (Sugimura) e o pai Shukichî (Ryû) para se casar. Para ela, no entanto, nada lhe agrada mais do que a companhia do pai. O pai, no entanto, inventa que irá ele próprio se unir novamente a uma mulher e Noriko é apresentada a um homem que se encontraria dentro de suas exigências. Porém, mesmo aceitando Noriko, na última viagem que efetua com o pai, ainda pede para permanecer em sua casa. Mesmo no dia do casamento, ela se encontra mais acabrunhada e triste do que o oposto.
Hara encarnou papel semelhante em ao menos dois outros filmes dirigidos pelo realizador (o mais célebre deles sendo Era Uma Vez em Tóquio). Mesmo que a premissa da proximidade excessiva das relações familiares seja observada aqui sem os conflitos diretos ilustrados em Filho Único (1936), toda a problemática de Noriko e sua recusa em levar uma vida autônoma está relacionada a mesma. Como nos outros filmes do realizador, paira sobre o filme do início ao final, um tema. Aqui é a necessidade de que Noriko venha a casar por  parentes próximos. Em Filho Único, a vergonha do filho de não possuir um emprego digno. As referências do mundo ocidental estão bem representadas aqui pela comparação do futuro marido de Noriko, sequer entrevisto ao longo do filme, com o galã do cinema norte-americano Gary Cooper. Dentre as marcantes imagens, algo antecipadoras do cinema moderno em seu estilo pictórico, encontra-se a das bicicletas abandonadas na areia por Noriko e o empregado do pai, Hattori, a quem se especula inicialmente que poderá ser seu futuro marido. Por mais que ao final Noriko resolva se casar, o fato de fazê-lo sob monumental pressão, deixa mais que patente que os anos mais marcantes da sua vida foram aqueles vividos ao lado do pai, algo não muito diverso do protagonista de Filho Único, que chega a se arrepender de ter saído da casa da mãe, mesmo já se encontrando casado e com filho. Ou seja, parece haver um continuado pessimismo do realizador com relação aos laços parentais como potenciais matrizes para a infelicidade futura de seus personagens, para sempre aprisionados a eles, componente que pode ter implicações autobiográficas, já que é sabido que o próprio realizador jamais formou família e viveu com sua mãe até a morte dela, pouco tempo antes da sua própria. Curiosamente, tampouco Setsuko Hara formaria família, abandonando o cinema pouco após a morte de Ozu. Por mais que seus filmes da maturidade tenham, via de regra, granjeado maior prestígio junto à crítica, até mesmo por apresentar de forma mais codificada e consciente o seu estilo ímpar, filmes como Filho Único e outros realizados antes de sua aclamação internacional possuem uma vitalidade talvez ainda mais pujante. Shôchiku Eiga. 108 minutos.


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