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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Filme do Dia: Vende Caro o Teu Amor (1950), Alberto Gout


Vende Caro o Teu Amor (Aventurera, México, 1950). Direção: Alberto Gout. Rot. Adaptado: Alberto Gout, Carlos Sampelayo & Álvaro Custodio, a partir de conto do último. Fotografia: Alex Phillips. Música: Antonio Díaz Conde. Montagem: Alfredo Rosas Priego. Dir. de arte: Manuel Fontanals. Figurinos: José Díaz “Pepito”. Com: Niñon Sevilla, Tito Junco, Andrea Palma, Rubén Rojo, Miguel Inclán, Jorge Mondragón, Maruja Grifell, Luis López Somoza, Pedro Vargas, Salvador Lozano.
Elena Tejero (Sevilla), filha de uma família de alta posição social, vê sua vida destroçada após descobrir que sua mãe (Grifell) não apenas possui uma relação amorosa com Ramon (Lozano) como abandona o pai, que se suicida. Desesperada e desempregada, Elena encontra casualmente Lucio (Junco), que a leva ao cabaré da não menos inescrupulosa Rosaura (Palma), que a obriga a se prostituir. Quando de uma apresentação no cabaré, Elena chama a atenção do jovem e rico  Mario (Rojo), que se apaixona e decide se casar com ela. Quando vai apresenta-la a sua mãe, descobre ser ninguém menos que Rosaura. Uma situação de tensão crescente surge entre as duas mulheres.  Rosaura não fala sobre a ação criminosa que sabe que Elena se envolveu e essa nada diz sobre a vida dupla da respeitável mãe de família. Em pouco tempo, no entanto, tal situação mudará.
Com números musicais muito mais diretamente eróticos que seus correspondentes hollywoodianos (ou mesmo outras produções com a estrela, tal como Vítimas do Pecado) mais nem por isso interessantes enquanto coreografia, como sobretudo o  do mercado persa, sendo tão kitsch quanto o próprio melodrama rocambolesco que era produzido em massa nos estúdios Churubusco, em que principais e coadjuvantes repetem quase sempre a mesma persona já consolidada em produções anteriores, da criada indígena ao pachuco vivido por Junco, aqui levemente mais inescrupuloso que em Vítimas do Pecado e uma Andrea Palma visivelmente inspirada na figura de Marlene Dietrich. Não falta tampouco o mesmo cantor-ator Pedro Vargas, fazendo um comentário musical sobre a personagem, como habitual ou o donzelo apaixonado de Rojo e Somoza, de quem Buñuel extraiu comicidade em sua abordagem irônica do melodrama com Susana. Falta de sutileza que ao menos trai uma postura original em termos de exposição narrativa, algo que não se pode dizer, por exemplo, dos excessos habituais e previsíveis, como o do suicídio do pai logo ao início. Há uma evidente referência a sua colega mais internacionalmente famosa, Carmen Miranda, então com a carreira já francamente em declínio, assim como ao Bando da Lua com duas canções, uma delas  Chiquita Bacana, no título da canção, nos malandros estilizados, adereços e requebros, no samba cantado  em português e no cenário evocativo do Rio, mais que provável flerte com o público brasileiro, também grande consumidor dos filmes estrelados por Sevilla. Mais interessante enquanto afirmação da protagonista e da sexualidade feminina que Vítimas do Pecado e consciente manipulação do desejo masculino de seu marido, aproximando-se, ainda que por um viés bem mais convencional, do filme de Buñuel. Mais interessante que seu enredo repleto de golpes de efeito, saturado de coincidências e personagens que servem como uma luva para as situações, como o Rengo (vivido pelo mesmo vilão de Maria Candelaria, Inclán, que aqui sofre um processo no qual se transforma de um vilão menor em admirador irrestrito, espécie de cão fiel de Elena, que mata seu dois algozes) é certamente a sua reflexão não menos tortuosa sobre a hipocrisia e a dupla moral da sociedade mexicana, mesmo sucumbindo a um final feliz protocolar e nada convincente. Torna-se crescente a teia de situações em que a heroína vai se tornando refém e vendo ser manchada a sua “reputação” inicial, enquanto correspondentemente cresce o ressentimento que parece se voltar não apenas contra as figuras masculinas – que, a determinado momento, são observadas em uma montagem de situações de assédio nos vários empregos tentados por Elena – como contra o seu próprio sexo, maculado pela figura de ambiguidade moral representada pela mãe que se reproduzirá outra vez mais adiante com Rosaura. Energia essa da qual Elena também se alimentará ao longo de sua trajetória a qual se redimirá ao final, num movimento semelhante ao esboçado pela própria mãe na hora da morte. Cinematográfica Calderón S.A. 101 minutos.


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