Dicionário Histórico de Sul-Americano#162: Lautaro Murúa

 


MURÚA, LAUTARO. (Chile/Argentina 1926-95). Um dos melhores e mais prolíficos atores do cinema argentino dos anos 1950 até o final de sua vida - notavelmente para  Leopoldo Torre-Nilsson - Lautaro Múrua foi também um dos dois mais importantes diretores do nuevo cine, que como o outro, David José Kohon, foi incapaz de realizar filmes fora de duas breves janelas de oportunidade, nos primórdios dos anos 60 e idos de 70. De fato, ele somente completou seis filmes de longas-metragens. Nascido em Tacna, Chile, estudou arte e arquitetura, antes de se tornar ator teatral. (Sua data de nascimento é tida, como variando em dezembro de 1925, 29 de dezembro de 1926, e setembro de 1927, em Santiago do Chile [Plazaola, 1989, p. 143]. Começou atuando em filmes chilenos no final dos anos 40, e depois de aparecer em filmes dirigidos por Hugo del Carril (Surcos de Sangre, 1950) e Pierre Chenal (Confesiones al Amanecer, 1954), ambos listados como co-produções chileno-argentinas, Murúa começou a trabalhar exclusivamente na Argentina, em 1955. Nos mais de vinte anos seguintes apareceu em mais de 50 filmes, 9 dos quais dirigidos por Torre Nilsson, e dois pelo pai de Nilsson, Leopoldo Torres Ríos, e quatro por Raúl de la Torre (nenhum parantesco). A conexão de Murúa com a grande família do cinema argentino, começou em 1956, quando interpretou seu primeiro papel principal em Graciela (1956), de Torre Nilsson. Ele contracenou com Elsa Daniel e depois novamente em La Casa del Ángel (1957), e após receber o principal crédito no filme seguinte de Torre Nilsson, surgiu em Aquello que Amamos (1959), estrelando em quase todos os filmes que atuou até o final de 1964, incluindo três de Torre Nilsson, e dois de Manuel Antín. Durante este período, parece ter sido capaz de escolher a dedo seus filmes, trabalhando para outros diretores notáveis, tais como Kohon (Tres Veces Ana, 1961), Fernando Ayala (Paula Cautiva, 1963), e Raúl Ruiz (El Regreso, 1964). Mesmo após esta mudança, Murúa permaneceu um ator escolhido por Torre Nilsson, também interpretando  papéis-chaves em três dos seis primeiros filmes de Raul de la Torre, incluindo Sola (A Woman Alone, 1976), realizado logo antes de abandonar a Argentina pela Espanha.

Lautaro Murúa aprendeu um bocado sobre realização através de seu trabalho de atuação, e em Aquello Que Amamos, que se tornaria o último fime de Torres Ríos, foi capaz de dirigir umas poucas cenas. Ao contrário de outros realizadores do nuevo cine, Murúa não realizou curtas, sendo seu primeiro crédito como diretor um longa, Shunko (1960). Ao contrário de outros filmes do movimento, que tendiam a ser urbanos nos cenários, Shunko foi filmado em locações na província remota de Santiago del Estero. O roteiro foi escrito pelo autor paraguaio, Augusto Roa Bastos, baseado nas memórias de um professor de escola primária rural, Jorge W. Abalos. O próprio Murúa interpretou o professor, e crianças locais, algumas das quais nunca haviam visto um filme antes, interpretaram as crianças escolares. O professor, busca ganhar a confiança dos pais, que preferiam ter as crianças trabalhando para eles em casa ou nas montanhas, e no final a comunidade apoia a construção de uma nova escola. Shunko foi dedicado ao mentor de Murúa, Torres Ríos e a influência dele pode ser observada no realismo, simplicidade e ternura do filme. Notavelmente, muitos dos diálogos são em língua indígena quíchua, legendados em espanhol. O filme foi saudado ao lidar com o conflito cultural e o antigo problema da dominação colonial europeia e erradicação dos estilos de vida tradicionais e nativos. O segundo filme de Murúa, Alias Gardelito (1961) foi centrado na marginalização dos pequenos criminosos na cidade. Ambos filmes foram excluídos dos prêmios em dinheiro recém-criados do Instituto Nacional de Cine (INC, Instituto Nacional de Cinema argentino), levando a acusações de manobras políticas.

Levou dez anos para que Murúa tivesse oportunidade de realizar outro filme, Un Guapo del 900 (A Bravo of the 1900s, 1971) e em 1975 dirigiu um filme verdadeiramente original, La Raulito (Tomboy Paula). O título é virtualmente intraduzível, implicando que o "pequeno Raúl" é na verdade uma garota. Não somente é uma história baseada em um personagem da vida real, María Esther Duffau, que se vestia como homem enquanto vivia uma existência marginal, mas o filme foi realizado para se assemelhar a um verdadeiro documentário. Em uma cena, por exemplo, Marilina Ross que interpreta "La Raulito", é entrevistada por um agente prisional; e é filmada como uma entrevista verdadeiramente documental. Os falsos documentários fazem o maior sucesso agora, mas La Raulito poderia ter sido o primeiro filme a ser episodicamente estruturado e filmado - fazendo uso da câmera na mão e desleixada montagem - a encorajar o público a acreditar ser um autêntico documentário. Também ajustava a própria crença de Murúa que o cinema argentino deveria assumir um papel quase jornalístico. O filme foi surpreendentemente lançado quando o governo de Isabel Perón crescentemente reprimia filmes tanto argentinos quanto estrangeiros. Foi um dos últimos filmes do período a tematizar questões sociais. 

Após o golpe militar de 1976, uma bomba explodiu diante da casa de Murúa, enquanto estava fora. Depois disso, ele partiu para a Espanha, onde permaneceu por sete anos. Atuou em oito filmes, mas foi capaz de dirigir somente um, uma sequencia a La Raulito, La Raulito en Libertad (Raulito at Large, 1977). De volta à Argentina, seguindo o retorno à democracia, sua carreira como ator foi revivida com bons papeis de meia-idade em No Habrá más Penas ni Olvido (Funny Dirty Little War, 1983), Pobre Mariposa (1986), Tangos, el Exilio del Gardel (Tangos, o Exílio de Gardel, 1985), de Fernando E. Solanas, e Yo, la Peor de Todas (I, The Worst of All, 1990), de Maria Luísa Bemberg. Roa Bastos, que havia escrito Alias Gardelito, recebeu o prestigiado prêmio literário espanhol Cervantes em 1989, mas as tentativas de Murúa de realizar um filme baseado na obra-prima do escritor, Yo, el Supremo (1974) fracassaram continuadamente. Ainda que se tenha tornado ativo como diretor teatral, foi capaz de dirigir mais um filme, seu sexto, Cuarteles de Invierno (Winter Quarters), em 1984. De volta à Espanha para atuar em Belmonte (1995), morreu em Madri, de câncer no pulmão.

Texto: Rist, Peter H. Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 415-17. 

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