Filme do Dia: O Coração Manda (1942), Alessandro Blasetti
O Coração Manda (4 Passi Fra Le Nuvole, Itália, 1942). Direção: Alessandro Blasetti.
Rot. Original: Alessandro Blasetti & Aldo De Benedetti, sob argumento de
Cesare Zavattini & Piero Tellini. Fotografia: Václav Vich. Música:
Alessandro Cicognini. Montagem: Mario Serandrei. Dir. de arte: Virgilio Marchi.
Cenografia: Ferdinando Ruffo. Com: Gino Cervi, Adriana Benetti, Giuditta Rissone, Carlo Romano, Guido Celano,
Margherita Seglin, Aldo Silvani, Mario Siletti, Giacinto Molteni.
Paolo Bianchi (Cervi) leva uma
monótona vida como representante comercial, viajando constantemente, com uma
esposa turrona que lhe admoesta toda manhã para não fazer barulho e acordar as
crianças. Numa acidentada viagem de ônibus com um motorista tresloucado
(Romano) que acaba de saber do nascimento de seu filho, ele se aproxima da jovem e bela Maria (Benetti) e se
interessando por seu drama. Grávida, sem que o pai tenha assumido a criança,
Maria se encontra desesperada pois sabe que sua família, extremamente
provinciana e temerosa dos boatos, principalmente seu pai, Luca (Silvani),
jamais a aceitará em tais condições. Maria consegue convencer Paolo a se fazer
passar por pai. Esse se arrepende da farsa quando não consegue sair logo após o
repasto celebrativo, tendo que permanecer uma noite no mesmo quarto que Maria. Decide,
por fim, descer e conversar com o avô de Maria, Matteo (Molteni) e dormir ao
relento. Logo a farsa é descoberta, quando encontram uma foto de Paolo com sua
verdadeira família. Inicialmente indisposto em contemporizar, o patriarca Luca segue
os conselhos de Paolo e sem demonstrar saber de todo o ocorrido, afirma para
Maria que seu marido viajara sem previsão de retorno, mas que ela será aceita
com seu filho em casa.
Blasetti, lembrado sobretudo por
filmes mais pretensiosos e históricos (1860,
A Coroa de Ferro, Ettore Fieramosca) demonstra um domínio
da comédia dramática a partir do típico elemento do gênero que é o fingir como
prática de engodo à vigilância de sociedades conservadoras, cujas motivações
mais recentes no campo dos costumes se deslocaram de temas como a gravidez não
sacramentada pelo casamento para temas como a falsa heterossexualidade
vivenciada por homossexuais (Banquete de
Casamento, A Gaiola das Loucas).
Dentre o que há de mais interessante no filme, do domínio da direção de atores
às disparidades regionais e um retrato de um pais ainda intensamente rural na
viagem de ônibus (nesse último quesito, a presença de Zavattini como
argumentista provavelmente foi chave) talvez o que mais chame a atenção ao
olhar de muitas décadas após seja a impossibilidade de se chegar a termos com
as diferenças, uma característica que vai contra o próprio gênero cômico, o que
denuncia a falta de consenso mesmo em um filme dirigido por um dos cineastas
mais simpáticos e benquistos do regime facista. De fato, mesmo ao se tomar a
perspectiva grandemente negativa que a vida citadina é descrita, cenário de
monotonia para Paolo e de degradação para Maria e o extremo oposto representado
pela vida campestre que revitaliza os corações oprimidos de ambos, o filme
tampouco deixa de sacar da sabedoria do último, anti-provinciana por
excelência, o conselho que sela a aceitação ainda que contrariada da filha no
seio da família. Ainda mais marcante, no entanto, é o seu final que aponta de
forma clara para a infelicidade de Paolo em seu retorno ao seu banal mundo
cotidiano após um vislumbre do que seria uma vida ao lado de maravilhas da
natureza, como o leite extraído das vacas e não o industrializado que se vê
obrigado a beber todos os dias, e que sintomaticamente derrama por engano ao
final, assim como da própria Maria, muito mais sedutora e feminina que sua
própria esposa. Sem falar da postura de Maria, por mais subserviente e redimida
que possa soar, foge do perfil feminino tipicamente proferido pelo regime por
sua gravidez solteira, tema tabu então até mesmo no aparentemente mais liberal Estados
Unidos. Società Italiana Cines para ENIC. 95 minutos.

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