Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#160: O Cangaceiro
O CANGACEIRO. (Brasil, 1953). O primeiro filme brasileiro a ganhar um prêmio no Festival Internacional de Cinema de Cannes, para "Melhor Filme de Aventura", em 1954, O Cangaceiro, dirigido por Lima Barreto, foi o mais bem sucedido dos 18 filmes produzidos Estúdio Vera Cruz, em São Paulo, quebrando recordes de bilheteria brasileiros, e sendo distribuído em 22 países. Mas seu sucesso comercial e de critica chegou demasiado tarde para salvar a ambiciosa tentativa de criar uma indústria nacional de cinema brasileira de qualidade internacional. Tendo contratado o único realizador brasileiro de prestígio internacional, Alberto Cavalcanti, como seu diretor empresarial, a Vera Cruz tinha como encargo realizar filmes brasileiros de qualidade, ao contrário das populares chanchadas cariocas, realizadas no Rio, desprezadas nos círculos cultos. Embora a Vera Cruz tenha tentado vários gêneros, muito dinheiro foi prodigamente gasto em cada produção e acredita-se que uma certa pretensão europeia tenha prejudicado o sucesso dos filmes no mercado interno. O que não é supreendente, por conta de muitos técnicos virem de fora do Brasil, incluindo no caso de O Cangaceiro, o diretor de fotografia Chick Fowle, da Inglaterra e o montador austríaco Oswald Hafenrichte. Ironicamente, com este filme, a Vera Cruz descobriu a fórmula de sucesso, com uma de suas últimas produções. Na sua combinação de western hollywoodiano e o folclore nativo brasileiro do sertão, O Cangaceiro deu nascimento ao nordestern ou gênero do cangaço. Mas a Vera Cruz foi forçada a renunciar à lucrativa distribuição do filme à Columbia, antes do Banco do Estado de São Paulo a fechá-la em 1954.
Utilizando locações rurais de São Paulo para representar o sertão, O Cangaceiro é ambientado em um passado próximo, final dos anos 30, e baseado vagamente nas vidas reais de foras-da-lei tais como Virgulino Ferreira ("Lampião"). Um grupo de cangaceiros liderados pelo impiedoso, Capitão Galdino (Milton Ribeiro) aterrorizando o nordeste. Em uma vila local, capturam a professorinha escolar. Olívia (Marisa Prado), mas um tenente Teodoro (Alberto Ruschel), o mais simpático dos bandidos, apaixona-se por ela. Galdino tenta convencer Teodoro a deixar Olívia para trás e se juntam novamente ao bando em uma missão de pilhagem, mas o casal foge para o sertão. Teodoro é apresentado como relativamente sensível, amante da paz, corajoso e honesto, à moda dos cowboys heróicos dos westerns "clássicos". Do mesmo modo, O Cangaceiro é convencional em seu melodrama e romance, mas o desvia da norma hollywoodiana ao ter seu herói tragicamente assassinado ao final. Quando a câmera se afasta de um Teodoro caminhando, ele é baleado três vezes por um Galdino fora de quadro.
O Cangaceiro é também significamente diferente do modelo hollywoodiano (assim como dos épicos gaúchos argentinos e das comedias rancheras mexicanas) em sua resistência a fazer dos personagens dos bandidos, simpáticos e sua atitude pragmática em relação ao banditismo. Por exemplo, há algumas cenas de extrema brutalidade em O Cangaceiro; a determinado momento, uma mulata é marcada na boca! Em todos estes aspectos o filme antecipa os westerns revisionistas dos anos 60 e 70, particularmente os westerns-spaguetti italianos, e antecipa o tema do cangaço (bandidos sociais do nordeste) pelo Cinema Novo. Em acréscimo, ainda que muitos dos personagens do filme sejam fenotipicamente brancos - particularmente Olívia, de pele bastante clara, também vestindo-se de branco - houve uma tentativa de refletir a mistura racial dos lendários mestiços sertanejos e vaqueiros, da grande obra de literatura de não ficção Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha. Como um exemplo final do interessante conluio de convencões tradicionais do entretenimento e de elementos folclóricos introduzidos recentemente, pode-se apontar a relativamente autêntica trilha sonora brasileira, que obteve um pequeno sucesso nos Estados Unidos. Em 16 de julho de 1955, "O Cangaceiro", cantado por Eddie Barclay, atingiu o décimo oitavo lugar entre os compactos da Billboard.
Texto: Rist, Peter H. The Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 120-21.

Comentários
Postar um comentário