Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#161: Machuca
MACHUCA. (Chile, 2004). Recontando os eventos que levaram ao golpe em 1973 de um modo pessoal, de alguma maneira autobiográfico, através dos olhos de um rapaz de onze anos, Machuca de Andrés Wood, foi o mais bem sucedido filme sério, dramático desde El Chacal de Nahueltoro (1970), de Miguel Líttin. Após sua estreia na Quinzena dos Realizadores no Festival Internacional de Cinema de Cannes, Machuca venceu prêmios no Festival Internacional de Cine de Viña de Mar; Festival de Cine de Bogotá (Colômbia); e festivais em Lima (Peru), Ghent (Bélgica), Valdívia (Espanha) e Cidade do México (2005), assim como no Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano (Havana, 2005), e também prêmios do público em Vancouver e Philadelphia (2005). De forma notável, terminaria como o quarto filme chilno de maior bilheteria em 2004, com 654. 169 espectadores.
Andrés Wood Montt, nascido em 1965, de descendência escocesa-irlandesa, graduou-se em economia, na Universidad Católica de Chile, em 1988, e se mudou para os Estados Uniidos para estudar cinema na New York University, em 1991. Enquanto lá esteve dirigiu dois curtas, Idilio (1992) e Reunión de Familia (1994), e pouco após retornar ao Chile dirigiu seu primeiro longa, uma antologia em três partes chamado Historias de Fútbol (Histórias de Futebol, 1997) que recebeu uma "menção especial" de Melhor Diretor Estreante no Festival de San Sebastián. O terceiro longa de Wood, La Fiebre del Loco (A Febre do Loco, 2001), sobre as travessuras de um pescador e seus seguidores durante a temporada loucamente curta dos moluscos, em Puerto Galla, sul chileno, foi incluso na competição deVeneza.
Quando os eventos de Machuca ocorreram, Wood tinha oito anos e era estudante do colégio de língua inglesa do Colégio St. George, em Santiago. Ele dedicou seu filme à memória do padre Gerardo Whelan, que foi diretor da escola de 1969 a 1973. No filme o chefe da escola é o autoritário, mas gentil, Padre McEnroe (Ernesto Malbran), que insiste em integrar um grupo de crianças pobres, incluindo Pedro Machuca (Ariel Mateluna). Um rapaz rico e bem vestido (jaqueta e gravata de uniforme, Gonzalo Infante (Matías Quer) é levado de carro para a escola por sua mãe (Aline Küppenheim) todos os dias. Pedro defende Gonzalo dos fanfarrões da escola, e se tornam amigos. Gonzalo leva Pedro até a favela em que vive de bicicleta e encontram sua irmã, Silvana, com sua família, em uma manifestação pró-Allende. Gradualmente o filme constrói uma compreensão de que a aliança de esquerda está se rompendo. O pai de Gonzalo está frequentemente ausente dos negócios, enquanto sua mãe parece ter um caso com um direitista argentino bem mais velho (Federico Luppi). Esta aliança põe a família dividida de diversas maneiras, e um encontro escolar dos pais marca fortes divisões políticas. A mãe de Pedro fala de como ela trouxe sua família do campo esperando por uma vida melhor, somente para ficar aprisionada a uma favela ilegal. O exército avança sobre a escola, e quando Gonzalo vai visitar seus parentes, presencia o "bairro" sendo destruído e Silvana sendo baleada mortalmente.
Formal e estilísticamente, Machuca é muito talentoso. Nunca deixamos o espaço de Gonzalo, proporcionando que somente gradualmente o público conheça sobre os personagens e seus ambientes. A câmera se aproxima frequentemente dos objetos e, de uma forma realista, é uma câmera na mão. Mas outras vezes a câmera é situada a distância, em planos abertos e em câmera alta para observar um retrato mais amplo, particularmente após o golpe. Cedo no filme percebemos um grande slogan pintado em um muro: "Non, a la guerra civil". Quando o observamos outra vez, o "não" havia sido riscado. Por fim, após o golpe e quando um novo sentido de "ordem" se estabelece no Chile, uma pintura o cobre por completo. Wood é tanto produtor quanto diretor e claramente se tornou adepto de assegurar fundos para apoiar a produção de seus filmes. Para Machuca conseguiu fundos do Ibermedia, conseguindo vantagens do novo apoio governamental chileno para produção de cinema local tanto da Fondart quanto de Corfo. O filme também foi co-produzido por companhias de cinema espanholas, britânicas e francesas. Para o próximo esforço da Wood Producciones, La Buena Vida (2007), acrescentou a Argentina a lista de países co-produtores. Seu filme mais recente, Violeta se fue a los Cielos (Violeta Foi Para o Céu, 2011), uma biografia da eternamente popular cantora folclórica Violeta Parra (que cometeu suicídio em 1967) foi uma das dez maiores bilheterias do ano e distribuída nos Estados Unidos pela Kino, após vencer o Grande Prêmio do Júri para World Cinema - Dramático, em Sundance (2012).
Texto: Rist, Peter H. Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 379-80.

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