Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#146: Fernando Ezequiel Solanas

 


SOLANAS, FERNANDO EZEQUIEL. (Argentina, 1936*). Um dos mais significativos realizadores políticos da história do cinema mundial, Fernando Ezequiel "Pino" Solanas, recentemente tornou-se político, embora continue a realizar documentários críticos, bastante à "esquerda". Solanas nasceu em Olivos, Buenos Aires. Na universidade estudou teatro, música e direito, nos primórdios, capturado no firmamento cinematográfico da época, realizou um punhado de curtas, Seguir Andando (1962) e Reflexión Ciudadana (1963). Tornou-se um bem sucedido membro da indústria publicitária argentina, e com o dinheiro conquistado foi capaz de auto-financiar seu primeiro longa, La Hora de los Hornos: Notas y Testimonios Sobre el Neocolonialismo, la Violencia  y la Liberación (1968), que foi creditado como sendo dirigido coletivamente pelo Grupo Cine Liberación, formado por Solanas e Octavio Getino. Este documentário em três partes, anticolonial, retórico e dialético, é quase certamente considerada a obra mais importante do Novo Cinema Latinoamericano (nuevo cine latinoamericano), com sua estrutura política e formal radical. Como acréscimo, La Hora de los Hornos é particularmente notável por conta de ter sido realizado e distribuído clandestinamente e pensado como um work in progress, exibido a grupos de trabalhadores e estudantes, que idealmente poderiam efetuar mudanças nele. É incerto que isto tenha acontecido, e o filme foi banido na Argentina até 1973, quando Perón retornou ao cargo de presidente. Foi e continua a ser exibido em outros locais, frequentemente nos campos universitários norte-americanos, como obra seminal do cinema político de esquerda. 

Em 1969, Solanas e Gettino escreveram "Hacia un Tercer Cine" (Rumo a um Terceiro Cinema), que argumenta brilhantemente por uma nova forma de um cinema popular desafiador a se contrapor ao "primeiro" (Hollywood) e ao "segundo (cinema de arte europeu). Ardentemente peronista, Solanas e seu grupo (agora incluído seu antigo assistente Gerardo Vallejo) empreenderam diversas outras atividades, incluindo um cinejornal sindical, Cine Informe e numerosos curtas. Em 1971 o Grupo Cine Liberación entrevistou o líder exilado em Madri, resultando em dois filmes: Péron: Actualización Política y Doctrinaria para la Toma del Poder e Perón: la Revolución Justicialista, ambos em 1972. Toda esta obra continuou a ser distribuída através das mesmas vias peronistas, como La Hora de los Hornos.

Com o fim do regime militar em 1972 e a eleição de um candidato peronista (Héctor Cámpora), a busca de uma retórica documental declinou, e Solanas voltou-se à realização de ficções. Baseado no poema épico gaúcho Martín Fierro,  Solanas realizou seu primeiro longa ficcional, Los Hijos de Fierro, em 1972. Ele atualizou a história para relacioná-la ao exílio de Péron, e seu retorno triunfante em 1973, mas ainda estava inacabado quando um novo golpe militar ocorreu em 1976, e Solanas levou o filme consigo, em seu exílio na França. Ainda que a obra tenha sido completada em 1977, não foi exibido na Argentina antes de 1983, após o retorno da democracia. Solanas encontrou dificuldades para assegurar apoio para projetos, e somente conseguiu realizar um único filme na França em oito anos, um documentário televisivo sobre deficientes físicos, Le Regard des Autres (1979).

Ao longo dos anos 80, primeiro na França e depois em Buenos Aires, Solanas se tornou o realizador argentino laureado, descrevendo a história política  e cultura traumática do país em estilo cinemático e poético. Tangos, el Exilio de Gardel (Tangos, o Exílio de Gardel, 1985) foi efetivamente o primeiro longa de co-produção França/Argentina. Altamente estilizado, algo como uma rememoração musical brechtiana da cultura argentina dos tangos, vaudeville e teatro Creole** dos primórdios dos anos 20, Tangos descreve exilados argentinos por volta dos quarenta anos (como Solanas) e suas crianças que, juntas com jovens amigos parisienses, são postas em um musical. A narrativa em múltiplas camadas é estruturada, musicalmente, em um prólogo e quatro atos, anunciados de forma recitativa pelos seus jovens artistas de rua, cantando canções escritas por Solanas e o compositor de cinema argentino José Luis Castiñeira de Dios. A ação central diz respeito a tentativa dos argentinos de montar uma tanguedia - parte comédia, parte tragédia, parte musical de tango - que introduzirá os europeus à cultura argentina, em uma linguagem que possam compreendê-la. Somente os ensaios são apresentados, mas a música da tanguedia é composta e interpretada pelo lendário acordeonista do "novo tango" Astor Piazzola. As canções de Carlos Gardel são centrais, naturalmente, particularmente "Volver", a descrever o pânico infindável de um exilado. (A própria jornada de Gardel rumo a um exílio voluntário foi interrompida por um acidente de avião e findou em morte).

A dor do exílio é também interessantemente transmitida visualmente em Tangos por incomuns cenas de neve em Paris, uma glacial estação ferroviária, e cenas no litoral francês, onde os personagens olham com saudade para o mar. O filme foi uma grande atração no circuito de arte na Europa e sucesso de bilheteria na Argentina, quando lançado em 1986, mesmo sendo uma produção vanguardista. O filme seguinte de Solanas, Sur (1988), realizado e ambientado inteiramente em Buenos Aires, ainda é mais nostálgico e poético que Tangos. O diretor recebeu algumas críticas por ter "traído" a estética de seu "terceiro cinema"e, em Sur, mesmo lamentando as atrocidades da ditadura de 1976-83, Solanas também celebra os sentimentos do amor, talvez à despeito da política. No entanto, continuou a estruturar suas obras de forma ensaística, aqui em quatro partes. A primeira, "Na Mesa dos Sonhos", ambientada em 1983, introduz a recordação nostálgica, as ruas esfumaçadas e enevoadas de Buenos Aires, o bar-café Sur e o quinteto de tango de Piazzolla. A segunda, "A Busca", lida com as prisões dos protagonistas do filme, seu encarceramento, tortura e traição, enquanto as partes três, "Amor e Nada Mais" e quatro, "Morrer Cansado", são repletas de pesar. Do início ao final Solanas mantém sua abordagem experimental incluindo cenas vaudevillianas, fotografias, textos e canções politicamente satíricos. Em uma cena de flashback, o discurso balbuciante de um trabalhador direciona o som e estrutura visual "gaguejadas" de uma greve em um abatedouro. Ainda que tenha repetido o sucesso de vencer o prêmio Grande Coral no Festival Internacioinal del Nuevo Cine Latinoamericano, em Havana, e angariado o o prêmio de direção em Cannes, Sur não foi um grande sucesso comercial, e Quebec foi o único local onde foi lançado na América do Norte. 

O filme seguinte de Solanas, El Viaje (A Viagem, 1992), possui uma narrativa bem mais convencional que seus esforços anteriores. Segue as viagens de um jovem, Martin, da extremidade mais meridional da Argentina ao longo do continente  sul-americano e rumo ao México, buscando por seu pai. Ao longo da trajetória possui vários encontros realistas mágicos, da escola/prisão coberta de neve na cidade mais austral do mundo, Ushuaia, a uma Buenos Aires de alagamentos e uma cidade brasileira ultra-moderna, mas kafkiana, presumidamente baseada em Brasília.Também se depara com o "mundo real", da beleza de uma cidade histórica inca na Bolívia às destrutivas práticas de mineração no Brasil. Em última instância, ainda que Martín encontre em seu afresco a "si mesmo", isto é, a América do Sul, o filme clama pela unidade do continente contra a destruição da natureza e contra os políticos do continente. A produção venceu três prêmios em Cannes, mas como sua antecessora foi lançada no Canadá, mas não nos Estados Unidos.

Mesmo Solanas tendendo a ser progressivamente menos político no conteúdo, tornou-se mais e mais ativo no mundo da política. Foi um crítico bastante franco do presidente Carlos Menen, e logo após um pronunciamento público, em maio de 1991, foi baleado duas vezes na perna. Isto fez com que se envolvesse ainda mais, e concorreu pelo senado de Buenos Aires em 1992. Em 1993 formou seu próprio partido anti-Menemista, o Frente del Sur, que se fundiu com o Frente Grande, pelo qual foi eleito deputado nacional. Mas abandonou a esquerda em 1994, quando uma coalizão ainda maior, FREPASO, se deu. Voltaria por fim ao cinema em 1998, retornando ao cinema narrativo em sua familiar estrutura musical em quatro partes. La Nube (A Nuvem), uma co-produção franco-argentina a recontar as viagens de um grupo teatral, "O Espelho", em sua luta por sobrevivência. A bela fotografia do filho de Solanas, Juan Digo, é reminiscente da obra de Félix Monti para o diretor (particularmente Sur), com suas tonalidades azuladas, a evocarem um pessimismo nostálgico e romântico. Ao início do filme ficamos a saber que está chovendo consecutivamente a 1.600 dias, e uma vez mais Solanas emprega a mágica do cinema, desta feita em imagem reversa, talvez para expressar o desespero da companhia teatral. A Nuvem também inclui críticas a ausência de financiamento governamental para as artes e apresenta o crime nas ruas de Buenos Aires, passando a ser outro problema a compor o esforço cultural. 

Nos últimos nove anos, Solanas se tornou novamente um sério documentarista. Em 2004 foi honrado com um Urso de Ouro honorário no Festival de Berlim. No mesmo ano dirigiu Memoria del Saqueo (Memória do Saqueio), atualizando a história política e social argentina desde os anos 70, com ênfase na "Dívida Nunca Concluída" (título da primeira das dez partes do filme) e "Corporativismo e Mafiocracia" (o título da sétima parte). De forma semelhante a La Hora de los Hornos, Solanas utiliza textos dinâmicos (tanto dentro quanto fora da imagem); diferentemente, incorpora sua própria voz e imagem a personalizar a narrativa, entrevistando vários especialistas políticos e financeiros (que apoiam sua visão). Estilisticamente, o filme é interessante em seu emprego de numerosas planos com a câmera em movimento: exteriores de câmera baixa de arranha-céus e ao longo dos corredores interiores de bancos e outros prédios luxuosos e vazios. Claramente em oposição a privatização do Presidente Menem das ferrovias (parte 5) e a venda "globalizada" das companhias petrolífera nacional argentina (YPF) e gás natural (Gas El Estado) ("A Liquidação do Petróleo", parte 6). Solanas termina o filme otimisticamente (parte 10, "O Início do Fim") sobre as eleições em 2003 de Nestor Kirchner, após relembrar o espectador do "genocídio social", proporcionando estatisticas chocantes sobre mortes por desnutrição. 

Seu filme seguinte, La Dignidad de los Nadies (2005), teve uma abordagem ainda mais pessoal sobre os esforços das pessoas comuns durante a bancarrota econômica, seguindo as histórias de vários indivíduos, incluindo uma fazendeira que perdeu sua franquia, um padre operário, um jornalista ativista, um médico, uma família favelada, e trabalhadores que reabrem e operam a fábrica abandonada na qual trabalharam, todos os quais ajudaram a mudar a situação da Argentina contra o neoliberalismo e a globalização. Ambos os filmes apresentam a indignação de Solanas que tão rico país pudesse ser posto de joelhos pelo "radical" partido da União Cívica de Raúl Alfonsin (1983-89) e o Partido Justicialista "    neo-peronista" (1989-99), seguido pela "Aliança" (1999-2001) de Fernando de la Rúa. 

La Dignidad de los Nadies venceu vários prêmios internacionais, incluindo três em Veneza e dois em Havana, e em 2007 Solanas realizou seu terceiro documentário sobre a Argentina contemporânea, Argentina Latente, dando continuidade aos finais positivos dos filmes anteriores, para demonstrar como a Argentina pode recuperar a sua antiga glória, por meio do emprego eficaz de recursos humanos e da derrota do neoliberalismo e do neocolonialismo. Em outubro disputou as eleições gerais como candidato presidencial, e em 2008 completou sua tetralogia documental com La Próxima Estación. Não relaxando, foi eleito como deputado nacional pela cidade de Buenos Aires em 2009 e realizou o primeiro de seus dois filmes documentais sobre o poder e a ganância nas minas argentinas e recursos industriais, com seu controle estrangeiro e práticas ecológicas negativas, Tierra Sublevada: Oro Impuro. O segundo documentário (Tierra Sublevada: Oro Negro, 2011) concedeu-lhe o Condor de Prata de Melhor Documentário em Longa Metragem. Concorreu à presidência da Argentina novamente, até retirar seu projeto Sur de candidatura, em favor de Alcira Argumedo, que fracassou em conseguir votos o suficiente para as eleições primárias de agosto de 2011. A incumbente, Christina Fernández Kirchner, foi reeleita por maioria em outubro.

Texto: Rist, Peter H. Historical Dictionary of South American Film. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 528-33.

(*) falecido em 2020. 

(**) o termo creole, em contexto do continente americano, designa a mistura dos colonizadores europeus com negros e indígenas. 

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