Filme do Dia: Nunca, Raramente, Ás Vezes, Sempre (2020), Eliza Hittman
Nunca, Raramente,
Às Vezes, Sempre (Never Rarely Sometimes Always, EUA/Reino Unido, 2020).
Direção e Rot. Original: Eliza Hittman. Fotografia: Hélène Louvart. Música:
Julia Holtar. Montagem: Scott Cummings. Dir. de arte: Meredith Lippincott &
Tommy Love. Cenografia: Brittany
Henrickson. Figurinos: Olga Mill. Com: Sidney Flaningan, Talia Ryder, Théodore
Pellerin, Kelly Chapman, Ryan Eggold,
Sharon Van Etten, Mia Dillon, Brian Altemus.
Autumn
(Flaningan), vivendo em uma pequena cidade da Pensilvânia, descobre-se grávida
aos 17 anos. Após furtarem dinheiro do mercado no qual ela e a prima Skylar
(Ryder) trabalham, as duas viajam de ônibus para Nova York, em busca de um
aborto, porém a clínica dá um estágio de gravidez mais avançado em relação a da
sua cidade, impeditivo para o aborto e as duas tem que ficar a noite na cidade,
sem dinheiro para hospedagem, até que Autumn possa ser atendida em um centro de
referência. E, pior, gastando o dinheiro que possui na consulta – de outra
forma, seus pais ficariam sabendo de tudo – Autumn e a prima se veem sem
dinheiro, inclusive para comprarem as passagens de volta. Skylar tenta apelar
ao garoto que conheceu no ônibus e flertou com ela, Jasper (Pellerin).
Enquanto
se acompanha o drama de Autumn com o distanciamento de um documentário direto,
desde o início já se encontra demarcado de forma demasiado incisiva o ponto de
vista inabalável de sua adolescente e o mundo misógino no qual vive, seja dos
garotos de escola que a chamam de puta em plena apresentação de auditório, do
imbecilizado pai que faz piada similar com a cadela da casa ou do homem do
supermercado que não consegue escutar o comentário da amiga dela como sendo
unicamente um comentário, não um convite ao prazer. Ou o homem que se exibe
para ela no metrô de Nova York. E ainda
o rapaz que Skylar para se beijar com ele, necessita do “apoio moral” da amiga!
E essa aparente neutralidade que o Cinema Direto por vezes injustamente
clamava, aqui demonstra ser ainda mais permeada por uma manipulação emocional
que parece justificar as ações de Autumn por conta do mundo ser o que é –
repleto de homens insuportavelmente chauvinistas ou exploradores, como é o caso
da figura do patrão das garotas – e uma sociedade que é contaminada por um
roteiro normativo em que mulheres grávidas devem aceitar os seus papéis de
mães. Porém o filme digladia-se com essa realidade com um roteiro igualmente
normativo, só que de sinal oposto. O que não chega necessariamente a ser grande
alento para quem aprecie de dramas pluridimensionais. Dito isso, uma das
melhores coisas que o filme traz é o realismo casual da chegada das garotas em
uma até então desconhecida Nova York, observando os músicos de rua ou tendo que
subir com a bagagem um metrô que raramente oferece escada rolante ou elevador.
Hittman parece inclinada a abordar personagens adolescentes em situações de
risco, como é o caso de seu anterior Ratos de Praia, embora distante do
sensacionalismo voyeurista de um Larry Clarke. E possui um talento para criar
uma certa poética do que filma e monta, sem chamar atenção para si enquanto
poética, que se encontra a anos-luz de outras investidas pelo universo feminino
de cineastas contemporâneas suas, como Bela Vingança. Uma poética da
aspereza, onde não espaço para superações, vinganças, empoderamento ou qualquer
artifício novelesco mais vulgar como no filme de Emerald Fennell. Nada
exemplifica melhor essa tomada de posição que se propõe do início ao final, que
o momento em que Jasper, e depois Autumn, cantam no karaokê (ela
surpreendentemente escolhe cantar Don’t Let the Sun – Catch You Crying que
fez sucesso com Gerry and the Peacemakers) e que poderia ser revelador de algum
elemento dramático dos personagens mas, na verdade, é apenas o canto de duas
pessoas em um karaokê. E igualmente seu belo final, no qual os rostos semi-vulneráveis
de suas adolescentes se confundem com o vidro úmido do ônibus a atravessar um
túnel que as levará a continuidade de suas vidas. Um de seus produtores
executivos é o realizador Barry Jenkins.
PASTEL/BBC Films para Focus Features. 101 minutos.

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