Dicionário Histórico de Cinema Sul-Americano#159: Helena Solberg

 


SOLBERG, Helena. (Brasil, 1942). Uma das poucas mulheres ativamente engajadas no movimento do Cinema Novo brasileiro, Helena Solberg se tornou uma proeminente realizadora ativista/feminista norte-americana, com seu nome de casada, Solberg-Ladd, nos anos 70 e 80, e realizou um triunfante retorno, enquanto realizadora brasileira com Carmen Miranda; Bananas is my Business (1995). Nascida e crescida em São Paulo, Helena Solberg não tinha nenhuma ambição de ser realizadora até se matricular em línguas românicas na Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1958. Lá encontrou um grupo de pessoas que se tornariam pioneiros do Cinema Novo, incluindo Carlos Diegues, que estudava direito e administrava um jornal estudantil, O Metropolitano. Trabalhou como repórter, e através de sessões na Cinemateca se inspirou em se tornar realizadora (ver "Helena Solberg-Ladd" [Brasília/EUA]: The View from the United States. [Burton, 1986: 81-102].

Em seu primeiro filme, A Entrevista (1966), Solberg entrevistou um grupo de mulheres de classe média alta, como ela própria, que havia sido educada em uma escola comandada por freiras francesas, o Colégio Sagrado Coração de Jesus. Deliberadamente "esquizofrênico", A Entrevista contrasta a beleza tradicional do casamento branco com o testemunho de donas de casa infelizes. De alguma maneira autobiográfico - Solberg já era casada, mãe, e frustrada por ter de postergar suas aspirações como realizadora - o filme apresenta a cumplicidade de mulheres apolíticas no golpe militar. Trabalhou como continuísta em Capitu (1968) de Paulo César Saraceni e foi assistente de direção em A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla, mas somente dirigiu mais um filme no Brasil,  o curta Meio Dia, de dez minutos, antes de se mudar para os Estados Unidos com seu marido americano. 

Após realizar um histórico documentário feminista (A Nova Mulher, 1975), dirigiu uma série de notáveis documentários em solidariedade às mulheres latino-americanas, incluindo The Double Day (A Dupla Jornada, 1975), cujo título se refere a como a mulher trabalhadora possui efetivamente dois empregos; Simplesmente Jenny (1977); e From the Ashes...Nicaragua Today (1981), sobre a revolução e reconstrução nicaraguenses através dos olhos de uma camponesa, Clara, e sua família. Este filme foi apoiado pela Corporation of Public Broadcasting (CPB), e causou sensação quando foi exibido na televisão pública estadunidense (PBS), encorajando o governo Reagan a apoiar os filmes anti-sandinistas como resposta. Seus dois filmes seguintes continuavam seu apoio mais amplo das causas esquerdistas latino-americanas: The Brazilian Connection (1982) e Chile: By Reason or By Force (1983). Dentre seus esforços mais recentes estão o documentário para o National Film Board (NFB) canadense, examinando os conflitos dentro da Igreja Católica, enquanto luta para definir seu papel na moderna sociedade brasileira, The Forbidden Land (1990), mas seu filme mais bem sucedido é de longe menos político e mais pessoal, Bananas is My Business

Desde o início Solberg pretende um filme que traga mais questões que respostas, e na sua interessante mescla de documentário de exploração através de entrevistas e a utilizaçaõ de imagens de arquivo, com reencenações de momentos-chaves na vida de Carmen Miranda - onde uma drag queen, Erick Barreto, por vezes personifica a estrela - Bananas is My Business o consegue. As complexidades do estrelato de Miranda, que celebravam a brasilidade, enquanto estereotipadamente a traíam, são claramente revelados no filme-ensaio de Solberg. Dirigiria outro longa, Vida de Menina (2003), baseado nos diários de uma garota do século XIX, que foi muito bem sucedido no Brasil, ganhando cinco Kikitos de Ouro e o prêmio do público, no Festival de Cinema de Gramado, assim como o prêmio do público no Festival de Cinema do Rio (ambos em 2004),  então dirigindo outro longa documental, Palavra (En)cantada (2008),  pelo qual ganhou o prêmio de direção em documentário no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro.

Texto: Thomson, David. Historical Dictionary of South American Cinema. Plymouth: Rowman & Littlefield, 2014, pp. 533-34.

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