Filme do Dia: Ipanema, Adeus (1975), Paulo Roberto Martins

 


Ipanema, Adeus (Brasil, 1975). Direção: Paulo Roberto Martins. Rot. Original: Paulo Roberto Martins & Roberto S. Braga. Fotografia: Dileny Campos. Música: Roberto Magalhães Vaz. Montagem: Waldemar Noya. Dir. de arte: Sheila. Com: Hugo Carvana, Monique Lafond, Bibi Vogel, Gracinda Freire, Ênio Santos, Cláudio Cavalcanti, Milton Gonçalves, Leda Valle, Maria Lúcia Dahl.

Carlos (Carvana) é um estressado executivo carioca de uma empresa cujo patrão admite seu comportamento excêntrico por conta do seu talento. Casado com uma bela mulher (Vogel) e pai de três filhos. Porém, desgostoso da vida que leva, mantém várias relações extra-conjugais e decide em dia antecipado ir morar em Porto Seguro, pois acredita que lá não precisará de dinheiro. Pouco antes de partir, com a amante Gilda (Lafond) é assaltado, mas resolve por conta própria deixar todos os bens materiais com o assaltante (Gonçalves). Já em Porto Seguro, onde tinha planos de se tornar pescador, percebe que não possui muito talento para o ofício. Gilda lhe incentiva a construir um hotel numa praia paradisíaca da região e Carlos retorna ao Rio para conseguir, sem sucesso, financiamento para a empreitada.

Essa canhestra produção, único longa dirigido por Martins, torna-se retrospectivamente mais interessante menos por qualquer qualidade artística ou de entretenimento que por suas imagens da época, tanto do Rio quanto de Porto Seguro. Para além do amontoado de clichês, o filme, que como uma parte da cinematografia nacional, pretensiosamente busca apresentar um perfil de personagens de moldes existencialistas semelhantes ao presente no cinema francês contemporâneo (Eustache, Pialat, Doillon, etc.), sucumbe diante de amadorismo presente em todos os níveis, da canhestra direção de atores a uma trama insípida, repleta de personagens que não dizem exatamente a que vieram, como o de Dahl, ou situações simplesmente sem nenhuma motivação dentro do todo mais amplo – como o momento em que, sem nenhuma motivação, o filme observa um entrevero entre o casal de sogros de Carlos. Com uma veia reprimida “artístico-boêmia” que se resume (ao menos no que é apresentado pelo filme) a ser admirador de MPB – defendendo Chico Buarque do reacionário sogro – e de um cinema de perfil mais autoral, numa evidente aproximação  com o provável universo de seu realizador, o personagem também poderia se aproximar dos modelos errantes presentes no cinema autoral de Antonioni ou da New Hollywood (caso de Cada Um Vive Como Quer), aqui não conseguindo se ajustar ao modelo de família burguesa que a sociedade lhe exige. Ainda que as imagens iniciais apresentem um Carlos/Carvana em meio a um ambiente social mais amplo, aparentemente flertando com a ideia de inadaptação social de seu protagonista, logo o veremos interagindo com várias pessoas desse entorno, sendo esse apenas um singelo exemplo de muitos possíveis da incapacidade do filme se firmar claramente em seus propósitos, embora tampouco conseguindo daí extrair uma elaboração narrativa minimamente virtuosa que expresse a crise de seu protagonista. Nesse sentido, o igualmente pretensioso e também ambientado no Rio, Paixão na Praia (1971), consegue resultados mais efetivos. Como nesse, o filme não explora, com exceção de uma cena de banho em um rio, o erotismo, como boa parte da produção brasileira contemporânea. Totem Filmes/Kiko Filmes. 83 minutos.

 

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