Filme do Dia: O Regresso (2015), Alejandro González
O Regresso (The Revenant, EUA, 2015). Direção: Alejandro González Iñarritu.
Rot. Adaptado: Mark L. Smith & Alejandro González Iñarritu, baseado
parcialmente no romance de Michael Punke. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Música:
Carsten Nikolai & Ryiuichi Sakamoto. Monagem: Stephen Mirrione. Dir. de
arte: Jack Fisk, Michael Diner & Isabelle Guay. Cenogafia: Hamish Purdy.
Figurinos: Jacqueline West. Com: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall
Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Paul Anderson, Kristoffer Joner,
Joshua Burge, Lukas Haas.
Nos anos 1820, participando de uma
expedição de tráfico de peles, Hugh Glass (DiCaprio) é deixado moribundo após o
ataque de um urso e entregue a sua própria sorte por John “Fitz” Fitzgerald
(Hardy), que matara o filho de Glass, Hawk (Goodluck), diante dele. Reunindo o
restante das forças que lhe cabem, Glass continua sua acidentada trajetória,
tendo como meta vingar o filho morto.
Desde os seus primeiros minutos, o
esmerado hiper-realismo que faz uso de duas línguas indígenas e que provoca o
equivalente a sensação de se encontrar em meio ao desembarque na Normandia de O Resgate do Soldado Ryan parece acenar
que o perfeccionismo técnico só gera tédio, quando não acompanhado de uma
equivalente sofisticação em termos dramáticos e/ou ideológicos. Caso do
virtuosismo que é conseguido com o uso pioneiro de uma câmera nunca dantes
utilizada. Para aumentar o seu teor soporífero existe murmúrios do filho ao pai
que remetem, como os flashbacks pretensamente poéticos e a
cinematografia (do mesmo Lubezki, diga-se de passaem, sem falar na direção de
arte e figurinos), aos filmes de Malick. E se mesmo naquele por vezes não
funcionam, aqui são tabula rase em termos de tentativa de fomentar emoção através
do amor filial – como posteriormente será do inverso. Se no melodrama
tradicional, um vínculo perdido com a aristocracia remetia à virtude e nobreza
do ser, a ligação de Glass com os índios, sendo seu próprio filho a maior
testemunha, é uma atualização que cria um toque de humanidade à selvageria
branca, numa virada necessária aos tempos do politicamente correto. O recorte
maniqueísta que revela quase de imediato o caráter de seus personagens tampouco
pode ser deixado de levar em conta, com Fitz sendo a própria encarnação da
miséria humana. Glass, evidentemente, por sua vez incorpora a ação do triunfo
contra a adversidade, sendo magnânimo o suficiente a não executar Fitz,
deixando que os índios efetivem o golpe de misericórdia. Seguindo a lógica
melodramática, igualmente, sentimentos parecem suficientes para se vencer
qualquer adversidade física. É o caso da ira de Glass pela morte do filho que
provoca uma pouco verossímil rehabilitação relativamente rápida. Não deixa de
haver uma breve referência/reverência ao realismo fantástico, domesticada como
ilustração onírica. Se o cenário nevado e a abordagem visual não remetam de
imediato a tradição do western, o período histórico, a presença de índios e
desbravadores, as imensidões desérticas e os heróis maiores que a própria vida,
como o vivido por DiCaprio, capaz de matar vários e resistir às situações mais
absurdas o fazem. E, quando se compara tal produção com um filme como Rastros de Ódio, o que salta aos olhos
de imediato é o quanto as fúrias raciais são aqui secundarizadas por um drama
eminentemente privado, enquanto naquele era praticamente indistinta as duas
instâncias, sinalizando de foma mais corajosa para a própria história do país –
incluindo aí seus conflitos contemporâneos - que essa releitura capenga e
pretensiosa. Mesmo sendo passível de elogio a ousada disparidade com relação ao
filme que lhe antecede, Iñarritu se encontra longe da criatividade de Birdman. Fúria Selvagem (1971), de Richard C. Sarafian foi uma adaptação do
mesmo livro. Anonymous
Content/Appian Way/Monarchy Enterprises S.a.r.l/New Regency Pictures/RatPac
Ent. para Twentieth Century Fox Film Corp. 156 minutos.

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