Filme do Dia: Jeanne Dielman (1975), Chantal Akerman

 


Jeanne Dielman (Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, Bruxelles, Bélgica/França, 1975). Direção e Rot. Original Chantal Akerman. Fotografia Babette Mangolte. Montagem Patricia Canino. Dir. de arte Phillippe Graff. Maquiagem Éliane Marcus. Com Delphine Seyrig, Jan Decorte, Henri Storck, Jacques Doniol-Volcroze, Yves Bical.

Jeanne Dielman (Seyrig) é viúva e cuida metodicamente do cotidiano dos cuidados de si e do filho adolescente Sylvain (Decorte), prostituindo-se em determinado momento do dia, quando o filho se encontra no colégio. Certo dia, no entanto, tal rotina repleta de repetições possui um evento de ruptura.

Nunca os “tempos mortos” significaram tanto, provavelmente, quanto nesta produção, onde se tornam instrumento para dar visibilidade a invisibilidade do trabalho doméstico feminino. Akerman não precisa de discurso proselitista – como tampouco Varda, à sua maneira, precisara, quando investigara esta perspectiva feminina a partir de fragmentos de uma vivência amorosa em seu As Duas Facesda Felicidade – pois o rigor com o qual estrutura suas imagens e a repetição de uma rotina, construídas invariavelmente com uma câmera fixa e enquadramentos semelhantes para os ambientes internos e externos, já o fazem sem economia. Ainda assim, ao menos uma sutil pista ocorre. Quando o filho comenta que se fosse mulher somente se relacionaria com homens pelos quais estivesse afetivamente envolvida, a mãe dispara imediatamente ele não ser uma mulher. Mesmo propositalmente lidando com situações rotineiras de pouco interesse convencionalmente dramático – podendo ser observado como se fosse uma das janelas fixadas pelo protagonista de Janela Indiscreta, sem a necessidade de um crime para ser interessante; numa situação demasiado banal até mesmo para os padrões das historinhas a surgirem no filme de Hitchcock, antes, durante e depois do suposto crime, nos outros apartamentos. Acompanhamos hipnotizados os dias de Jeanne, não muitos, e provavelmente acompanharíamos uma semana inteira com a personagem e mais metragem de filme, imaginando, por outro lado, uma ruptura com tal rigor ao final. E ela vem, e com certo gosto catártico, que um Fassbinder conseguiria resolver melhor, ao invés, dobrando a aposta (como em Martha). A ritualização obsessiva da vida é o modus operandi de Jeanne. E não há espaço  para intimidades ou subjetivação psicológica. Dilman não parece, a exceção de um momento – quanto discute com uma vendedora a respeito do casaco ganho pelo filho da tia, e que falta um botão – ser uma pessoa de muitas palavras ou as estimular – quando a vizinha que lhe deixa o bebê um dia estira a conversa, ela apenas escuta e aquiesce, mal conseguindo esconder a impaciência de voltar ao sanduíche que comia na cozinha. Os espaços da casa, aliás, possuem um protagonismo incomum em uma produção cinematográfica. Praticamente já temos a geografia mental dos cômodos, de tão repetidos são, assim como as formas de neles se chegar. Há algo warholiano no prolongamento do tempo de algumas tomadas. E o senso de vivência e cotidiano dos afazeres não seria o mesmo, caso o filme fosse mais curto. Em pelo menos três momentos, observamos a dupla mãe-filho tomarem sua sopa do início ao final. Em outras cenas, não menos instigantes, observamos, por exemplo, Jeanne bater com cuidado uma carne moída com um ovo, até transforma-la no padrão buscado; nesse sentido, aliás, há todo um minimalista ritual no modo como dobra roupas ou prepara a mesa, inspirado segundo a realizadora, na figura de sua mãe. E um laço entre mãe e filho, expresso mais através de atitudes que propriamente de palavras, da parte dela sobretudo – ela age e faz praticamente tudo para ele, ele traz a presença mais forte da fala – que parece coibir qualquer motivação maior de sexualidade associada a um relacionamento afetivo por ambos. Sim, Jeanne se prostitui. E o ponto fora da curva emerge quando sente prazer com um dos clientes. O que se encaminha para o final, saída relativamente “fácil” diante do todo apresentado com tanto esmero e argúcia. Em uma enquete da Sight & Sound de 2022 foi avaliado como melhor filme de todos os tempos, uma virada significativa rumo ao destaque de realizadoras mulheres e também de um cinema de bem menos apelo de nicho que as escolhas anteriores, o que talvez demonstre igualmente o papel mais reservado do cinema no mundo social de então. Cópia restaurada de comemoração do meio centenário de seu lançamento. |Paradise Films/Unité Trois. 202 minutos.

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