Filme do Dia: 49 Up (2005), Michael Apted
49 Up (Reino
Unido, 2005). Direção: Michael Apted. Fotografia: George Jesse Turner.
Montagem: Kim Horton.
Tony agora
pretende construir uma vida de futuro para si, e seus descendentes, na Espanha,
porém em um local repleto de britânicos. Quando indagado sobre abandonar suas
raízes e viver em outro local, ele afirma pesaroso sobre a descaracterização do
East End londrino, associada, inclusive, a chegada de outras etnias e que ele é
um tradicionalista. Jackie possui o primeiro mais explícito entrevero com
Apted, inclusive fazendo referências a momentos anteriores de tensão em
programas prévios, um dos quais ela decidiu não mais continuar filmando, e isso
se dá com relação a forma como ela se via representada e, nesse episódio em
questão, em não querer discutir sobre sua vida afetiva-pessoal. Sue se declara
numa relação plenamente engajada com Glenn. Afirma que apesar da grande
vontade, não pôde mais ter filhos com ele, por já se encontrar entre os seus
40, mas se encontrar dividindo a responsabilidade de um casa com o parceiro e
com a “filha” do casal, uma cadela fox terrier que adora quando inicia o
programa TV Animal, descendo do andar
de cima da casa para assistir com ela, como testemunhamos. Bruce agora casado
(seu casamento foi observado em 42 Up)
tem duas crianças jovens, afirma com a esposa que não possuem discussões fortes
e retorna a escola que havia surgido em imagens de Seven Up, assim como extensivamente reproduzidas em documentários
posteriores, que aparentam um grande grau de disciplina repressiva, com garotos
chutando os outros para que ajam da forma adequada nos exercícios. Bruce relembra
os anos que lá viveu – os pais então se separavam – como de muita felicidade e
também miséria emocional. Paul continua casado com a mesma esposa na
Austrália. Sua falta de autoconfiança parece persistir, ao ponto de ter sido
problemática no relacionamento de ambos e ele admite que não sabia o porquê
dela manter o interesse por alguém tão aborrecido quanto ele. Trata-se talvez
do primeiro momento na série em que se dá certo protagonismo a filhos de um
casal de personagens. A filha, sendo o primeiro membro da família a fazer parte
de uma universidade (em um curso de arqueologia) e o filho como mecânico de
carros. Paul treina para maratonas, mas sem puxar demasiado por conta dos
problemas no joelho. A esposa o acompanha de bicicleta como apoio, levando
bebidas para que ele não se desidrate. Suzi demonstra certa resignação
melancólica com a partida dos filhos, que define como um capítulo encerrado de
sua vida, que foi demasiado prazeroso e não mais retornará. Ao mesmo tempo inveja
a autoconfiança dos jovens da geração dos filhos, que acredita não ter havido
no caso dela própria. Ainda que se afirme confortável “em sua própria pele”
como nunca antes se sentira na vida, Suzi demonstra um forte grau de
insatisfação com o grau de invasão de privacidade que os documentários lhe
trazem e o fato de ser observada por milhões a cada sete anos. Nick se separou
da esposa, também professora, seis anos antes. Ela, após a morte do pai,
segundo ele, voltou uma outra pessoa da Inglaterra e se divorciaram. Ele ficou
bastante preocupado o quanto afetaria o filho, então com dez anos, essa
decisão. Em um dos comentários mais tocantes do episódio, afirma que quando sua
esposa morre, você pode olhar para trás e observar um passado em comum feliz. O
mesmo não pode ser dito quando ocorre um divórcio. Nick se casa novamente com
Cris. É também tocante sua declaração do quão difícil é efetuar suas participações
a cada sete anos nos documentários e o que provocam nele, embora ao mesmo tempo
ressaltem sua importância, e não apenas para ele – mas também para outras
pessoas que o assistem. Lynn continua casada com o mesmo homem, Russ, após mais de trinta anos. Eles se casaram aos
19, buscando apenas diversão. Ela afirma que a ausência dele do documentário se
dá por ele achar que tal exposição é maléfica à privacidade deles. Ela agora
possui um neto de uma filha que teve filho ainda mais cedo que ela própria, aos
19 anos e afirma que Apted corte a cena pois irá chorar se continuar a falar o
quão importante para ela é o trabalho que desenvolve junto a crianças
deficientes. Simon reencontra Paul em Londres, com quem havia vivido no mesmo
reformatório quando criança. Andrew comenta sobre o quanto foi decidido de sua
vida sem que tivesse participação dele próprio. Ele afirma que até 28 Up suas opiniões foram mais
espontâneas. Depois, tornaram-se mais resguardadas. Charles decidiu não mais
tomar parte do projeto desde 21 Up –
nesse episódio, não sei se a pedido dele próprio, sequer foi referido que ele
passou a trabalhar na BBC, que se tornou uma das co-produtoras do documentário,
na parte de jornalismo. John afirma que Tony Blair é, na verdade, um político
um tanto responsavelmente conservador, o que lhe incomoda nos socialistas é os
maus tratos à democracia. Afirma também ter voltado a praticar piano (de quem
sempre revemos cenas de uma aula sua de piano em 7 Plus Seven). John
questiona se o programa possui algum valor além dos reality shows triviais da
TV como Big Brother e se existe algo além das pessoas se satisfazerem em
observá-los mais velhos, gordos e carecas. Neil, após sua temporada londrina
(observada em 42 Up) retornou à
província e um contato mais próximo com a natureza, que ele assegura ser uma
das fiadoras de sua maior estabilidade mental, que o estresse gerado por uma
cidade como Londres. Dedicado à memória de Tim Hewat, produtor que fundou o
programa que geraria o primeiro documentário da série, Seven Up. Granada Television para ITV. 135 minutos.

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